Política

Cristiano Suarez publica “Farsa” e transforma crítica ao oportunismo político em arte

Ilustrador alagoano reconhecido internacionalmente usa imagem de forte impacto para atacar troca de partidos, busca pelo poder e discurso moldado conforme conveniências

Redação 01/10/2026
Cristiano Suarez publica “Farsa” e transforma crítica ao oportunismo político em arte
Cristiano Suarez publica “Farsa” e transforma crítica ao oportunismo político em arte

Um dos artistas alagoanos de maior projeção internacional, o ilustrador Cristiano Suarez, voltou a utilizar a arte como instrumento de provocação política. Nesta quinta-feira (1º), ele publicou em seu perfil no Instagram uma ilustração intitulada simplesmente “FARSA”, acompanhada de um texto duro contra o oportunismo de figuras públicas.

A imagem segue a linguagem característica de Suarez: uma figura masculina sorridente aparece com parte do rosto se desfazendo, como se uma máscara estivesse se rompendo. Por trás da superfície, surgem notas de dinheiro. Acima, em letras enormes, uma única palavra resume a mensagem do artista: “FARSA”.

Na legenda, Suarez recorre inicialmente a Augusto dos Anjos para construir a metáfora da duplicidade. Em seguida, passa diretamente à política e descreve determinados personagens públicos como uma espécie de “patologia oportunista” que se adapta às circunstâncias para sobreviver.

O artista critica especialmente quem migra de partido em partido e altera o discurso de acordo com o ambiente político que ofereça mais espaço, recursos e visibilidade. Também ironiza aquilo que chama de “verniz do gestor jovem e descolado”, sob o qual, segundo sua interpretação artística, permaneceria a busca pela perpetuação no poder.

A combinação entre dinheiro, máscara quebrada e sorriso transforma a ilustração numa representação visual do contraste entre imagem pública e interesses ocultos que Suarez pretende denunciar.

A postagem compartilhada não identifica nominalmente, no trecho visível da legenda, o personagem político retratado. Por isso, a obra deve ser apresentada jornalisticamente como uma manifestação artística e crítica de Suarez, e não como comprovação factual das acusações ou interpretações expressas pelo ilustrador.

De Palmeira dos Índios para o mundo

Cristiano Suarez construiu uma carreira que ultrapassou há muito tempo as fronteiras de Alagoas.

Natural de Palmeira dos Índios, mudou-se para Maceió e formou-se em Publicidade e Propaganda. Ainda jovem passou a trabalhar para clientes estrangeiros e a desenvolver capas de discos, cartazes, peças publicitárias, livros, revistas e rótulos. A Rede Globo já destacava sua projeção internacional em 2014, quando seus trabalhos chegavam ao mercado norte-americano.

Sua produção posteriormente alcançou clientes em mais de 30 países. Um dos maiores reconhecimentos profissionais veio em 2018, quando a Lürzer’s Archive, publicação austríaca de referência mundial na área publicitária, selecionou Suarez entre os 200 melhores ilustradores do planeta. A seleção incluiu trabalho produzido para a Absolut Vodka.

Seu portfólio também reúne trabalhos ligados a nomes importantes da música. A Editora Matriz registra produções para Nirvana, Dead Kennedys, Sepultura, Pennywise, Fu Manchu, L7, Black Flag, Ratos de Porão e Paul Di’Anno, entre outros.

Arte política já provocou repercussão nacional

Não é a primeira vez que uma obra política de Cristiano Suarez provoca repercussão nacional.

Em 2019, um cartaz criado para a turnê brasileira da banda punk norte-americana Dead Kennedys tornou-se um dos assuntos mais comentados das redes sociais. A peça mostrava personagens usando roupas semelhantes às da Seleção Brasileira, armas e maquiagem de palhaço e foi interpretada por parte do público como uma crítica ao então presidente Jair Bolsonaro e a seus apoiadores.

Suarez explicou à época que seu objetivo era mais amplo e que a obra fazia críticas ao armamentismo, ao conservadorismo e a temas presentes nas próprias músicas da banda. Em meio à polêmica, resumiu sua visão sobre a relação entre autor e público: a arte permite diferentes interpretações.

A repercussão foi tamanha que seu perfil no Instagram saltou, segundo relato do próprio artista, de aproximadamente 6 mil para 40 mil seguidores em questão de horas.

Sete anos depois, às vésperas de uma eleição especialmente polarizada em Alagoas, Suarez volta ao mesmo território: uma imagem que dispensa nomes e entrega ao observador a tarefa de reconhecer — ou não — o personagem que acredita estar por trás da máscara.