Política

Veículos da família Caldas teriam “doado” R$ 344 mil em propaganda e feito 2,3 mil publicações favoráveis ao candidato JHC

Levantamento apresentado ao TRE-AL aponta ainda 538 “cápsulas de informe”, 2.372 inserções em nove rádios e 2.313 postagens nas redes sociais; números embasaram decisão que suspendeu emissoras e perfis

Redação com agências 28/09/2026
Veículos da família Caldas teriam “doado” R$ 344 mil em propaganda e feito 2,3 mil publicações favoráveis ao candidato JHC
JHC; rádios de sua família atuaram de forma irregular durante toda a campanha

Um dado financeiro chama atenção na investigação que levou o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) a suspender a programação normal de nove emissoras de rádio e bloquear perfis nas redes sociais ligados a empresas de comunicação investigadas por suposto favorecimento à candidatura de JHC (PSDB): R$ 344 mil.

Esse seria, segundo o levantamento apresentado pela Coligação Pra Alagoas Fazer História de Novo na Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), o valor comercial de 538 “cápsulas de informe” cedidas gratuitamente à campanha de JHC.

O cálculo foi feito com base, conforme a documentação apresentada no processo, nas próprias tabelas comerciais dos veículos. Assim, além da discussão sobre o conteúdo editorial, a investigação eleitoral passou a alcançar também a dimensão econômica da exposição concedida ao candidato.

2.313 publicações e 2.372 inserções

O volume de conteúdo analisado também impressionou pela dimensão.

No período compreendido entre 2 de março e 7 de setembro de 2026, o levantamento juntado à ação contabilizou 2.313 publicações nas redes sociais e 2.372 inserções em nove emissoras de rádio.

Segundo os autores da AIJE, o material apresentava padrão de favorecimento à candidatura de JHC. A decisão liminar do TRE-AL considerou esse conjunto de elementos suficiente, nesta fase do processo, para determinar medidas destinadas a interromper o possível desequilíbrio da disputa.

Outro dado destacado na ação é que, durante o período analisado, não teria sido identificada publicação favorável ao principal adversário de JHC na disputa pelo Governo de Alagoas.

R$ 344 mil sem desembolso da campanha

O aspecto financeiro ganha relevância porque os R$ 344 mil não corresponderiam a uma despesa declarada e paga pela campanha, mas ao valor comercial atribuído às 538 inserções que, segundo a representação, foram disponibilizadas gratuitamente pelos veículos.

A AIJE sustenta, portanto, que a campanha teria recebido uma exposição de valor econômico expressivo sem o correspondente desembolso eleitoral.

Além disso, os autores da ação apontaram o impulsionamento de 25 anúncios eleitorais nas redes sociais pelos veículos investigados. A representação questiona essa atuação à luz das restrições impostas pela legislação eleitoral à participação de pessoas jurídicas no financiamento e custeio de propaganda eleitoral.

É justamente a combinação entre volume de exposição, gratuidade e valor econômico que aparece como um dos pontos centrais da investigação.

Rede de comunicação é investigada

A ação alcança empresas e entidades como Fundação Quilombo, Alagoas Comunicação, Rádio Paraíso, Agora Alagoas e LBA/T82.

No caso das emissoras de rádio, há uma particularidade adicional: a radiodifusão funciona mediante outorga pública. Na decisão, o TRE-AL ressaltou a natureza de serviço público das concessões e as restrições específicas aplicáveis às emissoras durante o processo eleitoral.

A Justiça Eleitoral determinou a suspensão da programação normal de nove emissoras, mantendo apenas as transmissões obrigatórias, a propaganda eleitoral gratuita e mensagens de orientação aos eleitores. Perfis ligados aos veículos nas redes sociais também foram alcançados pela ordem.

Ligações com JHC e a família Caldas

A documentação apresentada na AIJE também aborda as relações societárias e administrativas existentes entre integrantes do grupo de comunicação e JHC.

Registros empresariais mencionados no processo indicam participação de JHC na Alagoas Comunicação Ltda.. Segundo a documentação considerada na decisão, ele possuía 30% da empresa desde 2017 e passou a deter 70% do capital social em julho de 2026, aproximadamente três meses antes do primeiro turno.

Os outros 30% pertencem ao pai do candidato, o ex-deputado João Caldas.

A investigação também aponta vínculos de dirigentes de empresas e entidades de comunicação com a administração municipal anteriormente comandada por JHC. O próprio relator ponderou que esses vínculos, isoladamente, não são conclusivos, mas os considerou dentro do conjunto de indícios apresentado na ação.

Decisão ainda é liminar

A suspensão não representa julgamento definitivo da AIJE.

Os R$ 344 mil, as 538 cápsulas, as 2.313 publicações, as 2.372 inserções e os 25 impulsionamentos fazem parte do conjunto probatório apresentado pelos autores da ação e considerado pelo TRE-AL na análise da tutela de urgência.

Os investigados poderão apresentar suas defesas e contestar os números, a metodologia do levantamento e a interpretação jurídica dada aos fatos.

Neste momento, porém, o TRE-AL considerou os indícios suficientemente relevantes para adotar uma das medidas mais severas desta eleição em Alagoas: retirar temporariamente do ar a programação normal de nove emissoras e suspender perfis vinculados aos veículos investigados até o encerramento do primeiro turno.Eu gosto especialmente desse título porque transforma R$ 344 mil no fato principal, mas preserva o caráter de alegação investigada ao usar “teriam ‘doado’”, evitando apresentar como definitivamente comprovado algo que ainda está em uma AIJE com decisão liminar. A existência da suspensão de nove rádios, os 2.313 conteúdos e as 2.372 inserções estão confirmados em relatos contemporâneos da decisão.