Política

Como Tenório transformou violência, proteção e carisma em poder político

Na Baixada Fluminense, o alagoano de Palmeira dos Índios construiu uma liderança popular baseada na presença pessoal, na proteção aos mais pobres, em redes de lealdade e numa imagem pública inconfundível

Vladimir Barros 27/09/2026
Como Tenório transformou violência, proteção e carisma em poder político
Tenório Cavalcanti com colete à prova na década de 50 em Caxias no RJ

A primeira parte desta série contou de onde veio Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque. Antes de se tornar o “Homem da Capa Preta”, ele foi o menino nascido em Bonifácio, em Palmeira dos Índios, no dia 27 de setembro de 1906, que deixou Alagoas e seguiu para o Rio de Janeiro.

Mas chegar à Baixada Fluminense foi apenas o começo.

A história que transformaria aquele jovem alagoano em personagem nacional seria construída num território em rápida transformação, marcado pela chegada de milhares de trabalhadores, pela expansão urbana, por conflitos de terra, pela precariedade dos serviços públicos e por disputas políticas que frequentemente ultrapassavam os limites institucionais.

Foi nesse ambiente que Tenório começou a construir poder.

Um Estado distante do povo


Duque de Caxias e outros municípios da Baixada recebiam sucessivas levas de migrantes, muitos deles nordestinos. Para uma parcela daquela população, o Estado estava longe: faltavam serviços públicos, segurança, assistência jurídica e estruturas capazes de atender às necessidades de uma periferia que crescia rapidamente.

Tenório ocupou parte desse espaço.

Formado em Direito, atuou em causas ligadas a moradores e conflitos de terra. Ao redor dele se constituiu uma extensa rede de relações pessoais, políticas e familiares. Pesquisadores que estudaram a formação política da Baixada identificam nessa estrutura elementos de assistencialismo, patronagem, clientelismo, lealdade pessoal e uso da força — características presentes na política regional daquele período.

Para seus apoiadores, Tenório aparecia como alguém capaz de chegar onde o poder público não chegava. Para seus adversários, aquela mesma estrutura representava a formação de um poder pessoal excessivo.

Essas duas visões acompanhariam praticamente toda a sua vida pública.

A capa


Nenhum elemento da imagem de Tenório se tornaria tão conhecido quanto a capa preta.

Com chapéu, óculos, bigode e a capa sobre os ombros, ele criou uma identidade visual que dispensava apresentação. A aparência ajudava a diferenciá-lo dos políticos tradicionais e reforçava a imagem de um homem permanentemente preparado para enfrentar inimigos.

Não era apenas figurino.

Sob a capa estava frequentemente a arma que se tornaria tão famosa quanto seu proprietário: a submetralhadora apelidada de “Lurdinha”.

A combinação entre a capa, a arma, os discursos e os relatos de confrontos construiu uma personagem política de enorme força visual. Estudos sobre Tenório apontam também a participação ativa do próprio político na construção desse personagem e na manutenção de sua presença pública. Um estudo dos Cadernos da Comunicação do Rio registra que ele sabia utilizar símbolos e episódios públicos para permanecer no centro das atenções.

Vladimir Barros

Vladimir Barros

É natural do Rio de Janeiro e radicado em Alagoas. Advogado e jornalista filiado ao SINDJORNAL, formado na Universidade Federal de Alagoas. Membro da Associação Alagoana de Imprensa e da Academia de Letras de Palmeira dos Índios, Alagoas. É Diretor de jornalismo do Grupo Tribuna do Sertão