Política
Gestão de JHC promoveu bets em Maceió; pesquisas revelam apostas disseminadas e 84,6% das famílias endividadas
Datasenado estimou que cerca de 355 mil alagoanos apostaram em apenas 30 dias; gestão municipal promoveu a Vai de Bet em eventos milionários sem esclarecer publicamente os valores da parceria
Enquanto o avanço das apostas on-line produz preocupação crescente com endividamento, dependência e desestruturação financeira de famílias brasileiras, a gestão do então prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), abriu dois dos maiores eventos públicos da capital à promoção ostensiva da Vai de Bet.
Em 2024, a marca apareceu como patrocinadora do Verão Massayó e do São João Massayó, festas organizadas pela Prefeitura e custeadas também com recursos públicos. A exposição não ficou restrita a placas ou peças publicitárias: alcançou o palco dos eventos, transmissões oficiais e até uma iniciativa envolvendo o transporte coletivo.
Documentos e publicações da própria Prefeitura confirmam que a empresa participou da ação denominada “Vai de Graça, Vai de Bet”. Durante o Verão Massayó, 27 linhas de ônibus transportaram gratuitamente o público até os shows, em uma parceria anunciada entre o Município, as concessionárias do transporte e a casa de apostas.
A decisão política de associar grandes eventos municipais a uma plataforma de apostas ganha relevância diante do impacto econômico e social que as bets passaram a provocar no país. Não há elementos que permitam atribuir exclusivamente à parceria celebrada pela Prefeitura o endividamento das famílias maceioenses. Isso, porém, não elimina a responsabilidade pública de explicar por que uma atividade de elevado risco social recebeu tamanho espaço em festas promovidas pelo Município.
Promoção no palco
Uma das principais atrações dos dois eventos foi o cantor Gusttavo Lima, que mantinha vínculo comercial com a Vai de Bet. No São João Massayó de 2024, o artista recebeu R$ 1,2 milhão por sua apresentação, conforme informações divulgadas na época.
Durante o show, foi realizada no palco uma ação promocional com uma roleta identificada com a marca da empresa e distribuição de prêmios em dinheiro ao público. JHC também subiu ao palco e agradeceu o patrocínio.
A promoção ocorreu diante de milhares de pessoas e foi amplificada pelos canais oficiais de transmissão do evento. Na prática, uma festa municipal ofereceu palco, público e visibilidade institucional à divulgação de uma plataforma de apostas.
Além do Verão Massayó e do São João, a marca apareceu em outras iniciativas realizadas na capital, como o “Arrastão Vai de Bet”, com apresentação do cantor Bell Marques, e a transmissão oficial dos festejos juninos.
Parceria sem valores publicamente esclarecidos
Apesar da grande exposição concedida à empresa, não foram localizados, nas publicações examinadas, instrumentos que esclareçam de maneira completa quanto a Vai de Bet investiu nos eventos, quais contrapartidas assumiu, quais espaços publicitários recebeu e quais critérios foram utilizados pela Prefeitura para estabelecer a parceria.
Também não foram encontrados, até a conclusão desta reportagem, edital, chamamento público ou contrato publicado que detalhasse integralmente a relação entre o Município e a patrocinadora.
Essa ausência impede a sociedade de comparar o valor supostamente investido pela empresa com a dimensão da publicidade e das contrapartidas que recebeu em eventos organizados pelo poder público.
Por isso, a Prefeitura e JHC precisam responder objetivamente:
Qual foi o valor efetivamente aportado pela Vai de Bet?
Houve pagamento direto à Prefeitura, a produtoras ou a fornecedores?
Quem negociou e autorizou as contrapartidas?
Qual instrumento jurídico formalizou a parceria?
Quais espaços, transmissões e estruturas municipais foram disponibilizados à marca?
Houve avaliação dos riscos sociais relacionados à promoção de apostas?
Alagoas já registrava forte presença das bets
Pesquisa do Instituto DataSenado, realizada entre 5 e 28 de junho de 2024, estimou que 14% dos alagoanos com 16 anos ou mais declararam ter gasto algum valor com apostas esportivas on-line nos 30 dias anteriores. Outros 8% não souberam ou preferiram não responder.
Isso representa aproximadamente 355 mil pessoas que admitiram gastos, considerando a população estimada usada pelo levantamento. Portanto, o dado de “15% e 382 mil pessoas” presente na versão original deve ser substituído, salvo se houver outra tabela ou fonte específica que sustente esses números.
A pesquisa foi divulgada posteriormente, mas a coleta ocorreu em junho de 2024. Também não é tecnicamente correto apresentar seus resultados como consequência da parceria da Prefeitura com a Vai de Bet, pois o estudo não investigou essa relação causal.
Os números, contudo, mostram que, no mesmo período em que a administração municipal ampliava a exposição da marca, centenas de milhares de alagoanos já destinavam dinheiro às apostas.
Endividamento recorde exige cautela
Em agosto de 2026, o percentual de famílias endividadas em Maceió chegou a 84,6%, maior patamar da série recente da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. O levantamento foi realizado pelo Instituto Fecomércio Alagoas em parceria com a Confederação Nacional do Comércio.
O mesmo estudo mostrou que 33,8% das famílias estavam com contas atrasadas. Endividamento, entretanto, inclui diferentes modalidades de obrigação financeira, como cartão de crédito, financiamento, carnê e empréstimos. A pesquisa não atribui o índice exclusivamente às apostas.
A comparação entre os dados revela um contexto social preocupante, mas não permite afirmar que as ações promovidas pela gestão JHC causaram o endividamento registrado dois anos depois. O que pode ser questionado, com fundamento, é a escolha de utilizar eventos públicos para conferir enorme visibilidade a uma atividade capaz de provocar dependência e perdas financeiras.

Bet patrocinadora chegou às páginas policiais
A Vai de Bet também passou a figurar em investigações relacionadas ao contrato de patrocínio firmado com o Corinthians. É necessário deixar claro que esse procedimento não investiga diretamente os eventos da Prefeitura de Maceió nem demonstra, por si só, participação de JHC nos fatos apurados em São Paulo.
No caso do Corinthians, o contrato previa patrocínio de aproximadamente R$ 370 milhões por três anos. A investigação apurou o pagamento de R$ 1,4 milhão a uma empresa intermediadora e o posterior caminho desses recursos.
O Ministério Público de São Paulo denunciou dirigentes e empresários por suspeitas de associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto. A denúncia foi apresentada contra pessoas físicas envolvidas na negociação, não significando condenação definitiva nem autorizando atribuir automaticamente os crimes à Vai de Bet ou aos parceiros institucionais que exibiram sua marca.
Relatórios policiais também apontaram que parte da comissão paga no negócio teria chegado a uma conta associada por investigadores a pessoa com suposta ligação com o PCC. A redação precisa preservar as expressões “segundo a investigação”, “teria” e “suposta ligação”, porque não se pode afirmar que a empresa tenha repassado deliberadamente dinheiro à organização criminosa.
Uma escolha que JHC precisa explicar
O ponto central é incontornável: sob o comando de JHC, a Prefeitura abriu grandes festas municipais, transmissões oficiais e uma ação no transporte coletivo à promoção de uma casa de apostas. A empresa recebeu exposição pública intensa, mas os valores e as condições integrais dessa parceria não foram apresentados de maneira transparente à população.
A administração não pode alegar neutralidade diante de uma promoção que utilizou o prestígio, o público e a estrutura de eventos municipais. Ainda que não exista prova de que a parceria tenha provocado diretamente o endividamento das famílias, houve uma escolha política: normalizar e impulsionar a imagem de uma bet em ambientes de entretenimento popular.
Hoje candidato ao Governo de Alagoas, JHC deve esclarecer quanto a empresa investiu, quais contrapartidas recebeu e por que os documentos completos da parceria não foram disponibilizados publicamente.
Mais do que discutir festas, a questão envolve transparência, responsabilidade administrativa e os limites éticos da associação entre o poder público e um setor que pode causar graves danos financeiros e sociais.
Outro lado
A reportagem encaminhou à assessoria de JHC e à Prefeitura de Maceió perguntas sobre os valores, contratos, critérios, contrapartidas e mecanismos de transparência relacionados à participação da Vai de Bet nos eventos municipais. Também solicitou manifestação da empresa a respeito das investigações mencionadas. O espaço permanece aberto e as respostas serão incorporadas assim que recebidas.
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