Política
De inimigos a aliados: Ângela Garrote e Júlio Cezar se unem para conter avanço dos Wanderley
Ela falou em “rabo preso” e disse não ter “medo de moleque”; ele respondeu com referências à Polícia Federal, merenda e acusações de ameaças. Agora, antigos adversários aparecem abraçados para tentar superar os Wanderley
A política é capaz de produzir fotografias que o passado parecia tornar impossíveis.
Na sexta-feira (18), as redes sociais mostraram Ângela Garrote e Júlio Cezar juntos, abraçados, sorridentes e posando para fotografias em plena reta final da campanha eleitoral.
A imagem, isoladamente, poderia ser apenas mais uma fotografia de campanha. Mas não é.
Quem acompanha a política de Palmeira dos Índios sabe o peso daquele abraço.
Durante anos, Ângela e Júlio estiveram em lados opostos de uma guerra política marcada por rompimentos, ataques públicos, acusações pesadas e até intervenções da Justiça Eleitoral.
Ela já disse não ter “medo de moleque” ao falar de seu enfrentamento com o então prefeito. Também acusou Júlio Cezar de ter “rabo preso” com vereadores da Câmara Municipal.
Júlio, por sua vez, disse publicamente que Ângela “ameaça, intimida e afronta” as pessoas e, durante uma das fases mais pesadas da disputa, respondeu às acusações lembrando Polícia Federal, a Operação Laranja Podre e afirmando que nunca havia trocado “merenda por uísque”.
Hoje, estão juntos.
E a pergunta inevitável na política de Palmeira é: o que aconteceu para antigos inimigos voltarem a se abraçar?
A resposta passa pelo novo desenho de forças do Agreste e, principalmente, pela expansão política da família Wanderley em direção a Palmeira dos Índios.
Quando Ângela chamava Júlio para a briga
A guerra não começou ontem.
Já em 2019, Ângela Garrote fazia oposição aberta a Júlio Cezar.
Durante um evento com agricultores, a então deputada estadual mandou um recado diretamente ao prefeito e deixou claro que não estava preocupada com eventual reação.
Disse que, se tivesse “medo de moleque”, procuraria um confessionário para falar escondido.
No mesmo pronunciamento, atacou a relação do prefeito com a Câmara Municipal.
“Rabo preso” foi a expressão escolhida por Ângela.
Segundo ela, vereadores estariam “sugando a Prefeitura” e Júlio não teria autonomia diante da Câmara por causa dessa relação. Eram acusações políticas feitas pela então deputada, não fatos judicialmente estabelecidos.
Era o início de uma guerra pública.
“Somos oposição”
Em março de 2022, foi Júlio quem formalizou o rompimento.
Não deixou espaço para dúvida.
“Somos oposição”, afirmou.
O então prefeito disse que ele e Ângela estavam em margens diferentes do rio e demonstrou ressentimento porque, segundo sua versão, a ex-aliada não reconhecera a participação de seu grupo nos quase 10 mil votos que ela havia recebido em Palmeira na eleição de 2018.
A disputa, entretanto, ainda ficaria muito mais pesada.
R$ 2 milhões, Polícia Federal e “merenda por uísque”
Em junho daquele ano, a guerra atingiu talvez seu ponto mais explosivo.
Segundo reportagem da Folha de Alagoas, Júlio reagiu depois de afirmar que Ângela o havia acusado de ficar com R$ 2 milhões destinados ao hospital de Palmeira dos Índios.
A resposta veio em vídeo.
Júlio afirmou que Ângela tinha comportamento de quem “ameaça, intimida e afronta” e trouxe para o debate o passado político da adversária.
Fez referência à Polícia Federal e à Operação Laranja Podre. Disse ainda que nunca havia “tirado leite da boca de criança” nem trocado “merenda por uísque”.
E concluiu com outra provocação: quem tem telhado de vidro não deveria atirar pedra no telhado alheio.
O nível da troca de ataques revela a distância que separava os dois naquele momento.
Não era uma divergência protocolar entre adversários.
Era guerra política.
A disputa foi parar na Justiça Eleitoral
Meses depois, a temperatura aumentou outra vez.
Em agosto de 2022, Júlio apareceu em vídeo acusando Ângela de usar veículos de comunicação e redes sociais para espalhar informações falsas contra ele e prejudicar a candidatura de sua então esposa, Karla Cavalcante.
Em um dos trechos mais duros, afirmou que suas mãos jamais haviam sido “sujas de sangue” e declarou que as “balas” da adversária poderiam um dia silenciá-lo.
Ângela recorreu à Justiça Eleitoral.
O TRE de Alagoas determinou que Facebook e Instagram retirassem o vídeo. Na decisão liminar, a desembargadora Jamile Duarte Coelho Vieira entendeu que havia acusações graves sem respaldo suficiente naquele contexto e capazes de produzir artificialmente uma percepção negativa contra a candidata.
Ou seja: a rivalidade entre os dois deixou os palanques e chegou ao Judiciário.

Mas a política mudou
Quatro anos depois, aquele ambiente parece pertencer a outra era.
A reconciliação começou a aparecer publicamente ao longo de 2026.
E uma frase de Júlio, registrada em vídeo divulgado pela Tribuna do Sertão em maio, talvez seja uma das melhores explicações sobre a velocidade com que alianças mudam na política local:
“Se precisar, eu fecho com os Garrotes.”
Na mesma gravação, Júlio resumiu sua visão sobre alianças eleitorais:
“Política não é amor, não.”
Poucos meses depois, a teoria ganhou imagem.
Júlio e Ângela estão novamente lado a lado.
E no meio do caminho surgiram os Wanderley
A reaproximação acontece justamente quando o cenário político de Palmeira dos Índios começa a ser sacudido pela presença crescente da família Wanderley.
Hugo Wanderley intensificou sua atuação no município e passou a disputar abertamente um eleitorado que, durante anos, esteve dividido principalmente entre forças políticas locais tradicionais.
Candidato a deputado estadual, Hugo tem percorrido bairros, povoados e comunidades rurais e passou a defender publicamente que Palmeira precisa recuperar protagonismo e ampliar sua representação política. Em evento recente na cidade, declarou que resistências não o fariam abandonar o município: “Cara feia não vai nos tirar daqui.”
Ao lado dele está uma estrutura política familiar que também inclui o deputado e candidato ao Senado Dr. Wanderley e o prefeito de Estrela de Alagoas, Roberto Wanderley.
Roberto, inclusive, elevou o tom contra o modelo político de Palmeira. Em discurso recente, afirmou que a cidade não poderia ser “quintal de Arapiraca” e criticou políticos que, segundo sua avaliação, não discutem educação, saúde e desenvolvimento.
Os Wanderley, portanto, deixaram de circular na periferia do tabuleiro palmeirense.
Passaram a disputar seu centro.

A disputa chegou às ruas
Um episódio ocorrido nesta semana deu uma amostra simbólica dessa mudança.
Durante caminhada eleitoral na zona rural de Palmeira, Júlio Cezar discutia política com moradores quando um eleitor o rebateu e, diante da comitiva, declarou apoio a Hugo Wanderley.
O caso ganhou repercussão exatamente porque ocorreu no contato direto entre candidato e eleitor.
Não é uma pesquisa eleitoral e não permite medir sozinho a preferência da população. Mas mostra que Hugo Wanderley entrou efetivamente na disputa pelas bases políticas de Palmeira.
A movimentação é suficiente para que a própria imprensa regional já trate o conflito entre o grupo ligado a Júlio e os Wanderley como uma disputa que ultrapassa 2026 e pode produzir consequências na eleição municipal de 2028.
Neste sábado (19), o grupo Wanderley programou ainda a chamada Caravana do Coração pelas ruas de Palmeira dos Índios, com Hugo, Dr. Wanderley, Renan Calheiros e lideranças locais, numa nova demonstração de investimento político no município.
O inimigo de ontem vira aliado de hoje
É nesse ambiente que o abraço entre Ângela Garrote e Júlio Cezar precisa ser entendido.
Não é apenas uma fotografia simpática entre duas lideranças.
É a imagem de uma recomposição política.
Ângela disputa diretamente com Hugo Wanderley uma cadeira na Assembleia Legislativa. Júlio tenta preservar seu próprio espaço político e eleitoral em Palmeira enquanto concorre à Câmara dos Deputados.
Os Wanderley, por sua vez, avançam sobre o mesmo território político.
A convergência de interesses entre antigos adversários fica evidente no novo tabuleiro, embora somente Ângela e Júlio possam afirmar quais foram exatamente as razões para a aliança.
O que os fatos mostram é uma sequência difícil de ignorar.
Ontem, Ângela dizia que Júlio tinha “rabo preso”.
Júlio dizia que Ângela ameaçava e intimidava pessoas.
Ela dizia não ter “medo de moleque”.
Ele trazia Polícia Federal e merenda escolar para o confronto.
Foram parar na Justiça.
Romperam.
Atacaram-se.
E agora se abraçam.
Uma fotografia que resume a eleição em Palmeira
O abraço de sexta-feira talvez seja uma das imagens políticas mais simbólicas desta eleição no Agreste.
Não porque encerre definitivamente as antigas diferenças — a política já demonstrou que alianças podem nascer e morrer com rapidez —, mas porque evidencia como a entrada de uma nova força pode reorganizar adversários históricos.
De um lado, os Wanderley avançam e disputam espaço em Palmeira dos Índios.
Do outro, Ângela Garrote e Júlio Cezar deixam antigas feridas de lado e reaparecem juntos.
O eleitor que acompanhou a guerra entre os dois durante todos esses anos agora assiste a uma cena que parecia improvável: aqueles que antes gastavam palavras para destruir politicamente um ao outro chegam à reta final de 2026 lado a lado.
Em política, quatro anos podem transformar inimigos em aliados.
No dia 4 de outubro, as urnas mostrarão apenas como o eleitor recebeu cada uma dessas movimentações.
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