Política

PF aponta que Hugo Motta e Ciro Nogueira viajaram em avião de empresário investigado por contrabando

Inquérito foi remetido ao STF após identificação de parlamentares em voo com empresário alvo da CPI das Bets; bagagens passaram fora do raio-X.

28/04/2026
PF aponta que Hugo Motta e Ciro Nogueira viajaram em avião de empresário investigado por contrabando
Hugo Motta - Foto: Marina Ramos / Câmara dos Deputados

A Polícia Federal instaurou um inquérito para apurar suspeitas de descaminho ou contrabando em um voo realizado em aeronave particular de Fernando Oliveira Lima, empresário investigado pela CPI das Bets no Senado. O caso foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) após a PF constatar que quatro parlamentares estavam a bordo: Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL). Até o momento, os parlamentares não se manifestaram sobre o caso.

A informação foi divulgada inicialmente pela Folha de S.Paulo. O Estadão também teve acesso ao relatório da PF. Todos os parlamentares citados foram procurados pela reportagem, que mantém o espaço aberto para manifestações.

A aeronave pertence a Fernando Oliveira Lima, sócio de uma empresa de apostas online, que também estava presente no voo realizado em abril de 2025, período em que a CPI das Bets estava em andamento no Senado, com participação de Ciro Nogueira. O empresário, procurado pela reportagem, não se pronunciou.

O voo partiu da ilha de Saint Martin, no Caribe, considerada paraíso fiscal, e pousou na noite de 20 de abril do ano passado no aeroporto de Catarina, em São Roque (SP), utilizado para aviação executiva. As suspeitas da PF surgiram a partir de investigações sobre o auditor fiscal Marco Canella, já indiciado em outro inquérito por facilitação de contrabando ou descaminho. Canella também não se posicionou.

No episódio envolvendo os parlamentares, Canella permitiu que um funcionário do empresário desembarcasse no aeroporto e transitasse com sete volumes de bagagem sem passar pelo raio-X. O procedimento irregular foi registrado por câmeras de segurança.

Até o momento, não foi possível identificar os donos das bagagens que passaram ilegalmente pelo controle. Diante do histórico do auditor e da origem do voo, a PF suspeita que o conteúdo possa ser ilícito.

Durante a apuração, a PF confirmou que os parlamentares passaram suas malas pelo procedimento regular de raio-X, mas ainda não se sabe se algum item das bagagens transportadas irregularmente pertence a eles. Em relatório parcial, a PF destacou que a continuidade das investigações pode indicar eventual envolvimento dos parlamentares nos crimes apurados, justificando o envio do caso ao STF.

"Considerando que, caso as investigações tenham continuidade e indiquem que, além da conduta do auditor fiscal Marco Antônio Canella, haja outras condutas ilícitas, bem como que uma das pessoas mencionadas no 'item 9' supra tenha envolvimento, os autos devem tramitar pela CINQ/CGRC/DICOR/PF, e o processo junto ao Supremo Tribunal Federal, motivo pelo qual, salvo melhor juízo, entendo ser temerária a continuidade das investigações sem a apreciação de tal situação pelo Poder Judiciário", diz o despacho.

Em redes sociais, o empresário publicou imagens da viagem, mas sem a presença dos parlamentares. As fotos mostram o interior da aeronave, refeições, o mapa de bordo com destino a Saint Martin, a chegada a uma praia de mar azul e momentos de lazer.

O inquérito chegou nesta semana ao STF e foi distribuído ao ministro Alexandre de Moraes, que encaminhou o caso para análise da Procuradoria-Geral da República (PGR). A PGR deverá opinar sobre a existência de indícios para que o caso seja investigado no Supremo.