Poder e Governo

Lula aumenta vitórias nas urnas em capitais na comparação com o resultado de 2022; veja quais

Há quatro anos, atual presidente havia vencido em 11 capitais; desta vez foram 13

Agência O Globo - 26/10/2026
Lula aumenta vitórias nas urnas em capitais na comparação com o resultado de 2022; veja quais
Lula aumenta vitórias nas urnas em capitais na comparação com o resultado de 2022; veja quais

Neste domingo (25), Lula venceu em duas novas capitais na comparação com as eleições de 2022. Há quatro anos, o atual presidente havia conquistado 11 capitais. Desta vez, foram 13. As viradas aconteceram no Rio de Janeiro (RJ) e Macapá (AP). O maior aumento percentual, porém, ocorreu em uma capital bolsonarista: Rio Branco (AC).

Mapa da votação: veja voto por estado e por cidade

Virada inédita: Flávio protagoniza segunda derrota consecutiva do bolsonarismo e força direita a discutir renovação

A vitória no Rio foi especialmente importante para a campanha de Lula, por se tratar do berço bolsonarista no país. Desde a eleição de 2018, essa foi a primeira derrota do Clã Bolsonaro na capital.

Além disso, no conjunto das 27 capitais, a votação de Lula subiu de 49,7% dos votos válidos em 2022 para 52,8% em 2026, com um ganho de 3,1 pontos percentuais. O resultado reflete a mobilização bem-sucedida da militância petista, que ocupou as ruas e promoveu diversos atos de grande impacto nas principais cidades brasileiras.

Se Rio de Janeiro e Macapá foram as capitais que Lula conquistou do Clã Bolsonaro, Rio Branco (AC), que seguiu com ampla vitória bolsonarista (66,55% a 33,45%), foi onde o presidente mais aumentou sua votação percentual na comparação com 2022, com uma variação de seis pontos percentuais a mais. Macapá, Manaus, Maceió e Recife, em ordem, completam o Top 5 dos maiores avanços proporcionais lulistas.

A única capital em que Lula teve redução percentual de votos foi Palmas (TO), com uma diminuição de apenas 0,03%, em uma votação quase repetida quatro anos depois. Em todas as outras, o presidente aumentou seu apoio.

Em números absolutos, os maiores avanços foram em São Paulo (186.433 votos a mais), Rio de Janeiro (164.232), Brasília (95.929), Manaus (82.727) e Recife (74.67).

Já as capitais onde Flávio mais perdeu votos, na comparação com o desempenho do seu pai, foram Rio de Janeiro (−144.011 votos), São Paulo (−93.561), Belo Horizonte (−69.237), Brasília (−61.789) e Belém (−43.594).

Segundo análise do GLOBO, Lula passou de 47,1% dos votos válidos nas 200 cidades com maior número de eleitores para 49,57%, um crescimento de 2,4 pontos percentuais. No conjunto dos outros municípios analisados, a votação do petista caiu de 54,6% para 53,9%.

No exterior: Líderes estrangeiros parabenizam Lula pela reeleição; Trump não se manifesta

As urnas revelaram, porém, que Lula aumentou seu desempenho em quase 11 milhões de votos; Flávio também cresceu, com 3 milhões de votos a mais do que no primeiro turno. O avanço dos dois candidatos ocorreu em paralelo à queda da abstenção, de 21% para 19%, repetindo um fenômeno observado na eleição de 2022, quando o comparecimento foi maior no segundo turno do que no primeiro. Ontem, houve queda também no índice de brancos e nulos, em comparação ao percentual das últimas semanas.

Desempenho nas regiões

A mudança no peso das grandes cidades não significou uma alteração da geografia tradicional do voto petista. O Nordeste, região que concentra municípios de menor renda e onde programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, têm presença expressiva, continuou sendo o principal reduto eleitoral do partido. Nos municípios nordestinos analisados, Lula recebeu 69,37% dos votos válidos, praticamente o mesmo percentual de 2022, quando teve 69,34%. O petista venceu exatamente a mesma quantidade de quatro anos atrás.

Nas demais regiões, Lula ampliou sua participação de 43,9% para 44,8%, mas passou a liderar em 1.101 municípios, contra 1.349 em 2022. Em outras palavras, toda a perda de 248 municípios sob liderança do PT ocorreu fora do Nordeste. O contraste, entretanto, reforça que a mudança na votação de Lula ocorreu graças ao aumento da força eleitoral do partido fora de seus redutos tradicionais, com avanços concentrados nos maiores centros urbanos.

Estratégia nas capitais surtiu efeito

O avanço nas capitais indica que funcionou a estratégia de mobilização de Lula e de Flávio nas ruas e nas redes sociais, que foi uma tônica das últimas semanas de campanha. Ambos participaram de manifestações volumosas em capitais do Sudeste, região que concentra a maior parte do eleitorado brasileiro, na véspera do segundo turno. A campanha do PT também concentrou esforços em um canal de WhatsApp, o “Exército do Lula”, que atraiu dez milhões de usuários, ajudando a esquerda a pautar o debate nas redes, que vinham sendo uma fortaleza da direita nas últimas eleições.

No conjunto das 27 capitais, a participação do PT subiu de 49,7% dos votos válidos em 2022 para 52,8% em 2026, com um ganho de 3,1 pontos percentuais. O número de capitais em que o candidato petista venceu a disputa passou de 11 para 13.

A trajetória nas capitais, porém, foi marcada por uma queda ao longo das últimas décadas. O PT havia vencido em todas as 27 em 2002, quando somou 66,9% dos votos válidos nesse conjunto. Em 2018, conquistou apenas seis, com 40,4% dos votos.

Esse resultado pode ser analisado de outra forma: dividindo os 5.570 municípios comparáveis em dez grupos de acordo com o número de votos válidos em 2022. No primeiro deles, que reúne os 557 maiores municípios, a participação proporcional de Lula avançou de 47,6% para 49,6%. Nos outros nove grupos, a votação proporcional do partido caiu.

Considerados em conjunto, os 557 maiores municípios registraram um avanço de dois pontos percentuais para o PT. Nos outros 5.013, houve recuo de 1,4 ponto. A redução foi mais acentuada no grupo das 557 cidades com menor votação: nelas, o percentual petista caiu de 50,6% para 46,7%, uma diferença de 3,9 pontos percentuais.

Duas cidades deixam claro o aprofundamento do PT como um partido com força proporcionalmente urbana: no Rio de Janeiro, em 2022, Lula perdeu para Jair Bolsonaro por 52,66% a 47,34%. Neste ano, o cenário se inverteu: Lula teve 51,54% dos votos e venceu a disputa na capital fluminense.

Mesmo em capitais em que Lula já havia vencido em 2022, como São Paulo, ele conseguiu ampliar sua fatia. Há quatro anos, na capital paulista, o petista teve 53,54% dos votos válidos. Neste ano, sua votação subiu para 55,50%. O mesmo ocorreu em Porto Alegre, onde Lula passou de 53,50% para 55,84%. Em Macapá, Jair Bolsonaro havia conquistado 54,92% dos votos em 2022. Neste ano, foi Lula quem venceu, com 50,99%.

A mudança foi particularmente acentuada fora do grupo das 200 maiores cidades. Nesse conjunto, o PT passou de 3.062 para 2.807 municípios sob sua liderança, um recuo de 255. Entre as 200 maiores, ocorreu o contrário: o partido passou de 61 para 68 cidades em que ficou à frente do adversário. No país inteiro, a quantidade de municípios liderados pelo PT caiu de 3.123 para 2.875, uma redução de 248.

A participação do PT nas grandes cidades vem mudando ao longo das últimas décadas. Em 2002, quando Lula venceu sua primeira eleição presidencial, o partido obteve 66,3% dos votos válidos no conjunto das 200 maiores cidades consideradas no levantamento. Essa participação, entretanto, foi diminuindo: chegou a 59,6% em 2006, 53,6% em 2010 e 46,8% em 2014. O pior resultado ocorreu em 2018, quando Fernando Haddad disputou o segundo turno contra Jair Bolsonaro. Naquele ano, o PT obteve apenas 38,1% dos votos válidos nas mesmas 200 cidades.

A recuperação começou em 2022, com o retorno de Lula à disputa. A participação do PT subiu para 47,1%, com liderança em 61 municípios do grupo, e chegou a 49,6% em 2026, quando ficou à frente em 68.

'País dividido'

A vitória de ontem, porém, não encerra o desafio de Lula de governar para “um país dividido”, como ele constatou no discurso da vitória de quatro anos atrás. No próximo mandato, Lula enfrentará uma bancada no Congresso ainda mais numerosa do PL, que também elegeu mais governadores e viu seu candidato à Presidência, Flávio, atingir o mesmo patamar de votos que o então presidente Jair Bolsonaro teve em 2022.

Com uma oposição mais robusta, Lula terá margem mais estreita para cumprir seu “pacote de bondades” apresentado no segundo turno. Pressionado pela desvantagem contra Flávio, o presidente enfileirou promessas, como a proibição de apostas e a implementação de tarifa zero no transporte público nos fins de semana, que exigirão aval do Congresso para serem concretizadas. Lula adotou ainda medidas de aumento da despesa pública, como o reajuste do Bolsa Família, que tendem a agravar o cenário de endividamento do governo, sob alerta de especialistas.

Protagonista da campanha eleitoral, o Judiciário foi personagem de destaque mais uma vez ontem. Os dois partidos, PT e PL, acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para estender a votação até as 19h, alegando impactos no comparecimento de eleitores devido a problemas no transporte público e às chuvas em diversas cidades. Diante da hesitação do TSE, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a extensão, numa decisão proferida quando as urnas já se fechavam, o que agravou o desencontro de informações.

O TSE acabou adiando o início da apuração para estender a votação apenas numa minoria de locais que não haviam fechado no horário previsto, solução que desagradou aos dois lados. Após a oficialização da vitória de Lula pela Corte, Flávio se valeu do imbróglio para contestar o resultado e anunciou que pedirá a anulação do pleito.