Poder e Governo
'Tive que andar 40 minutos até minha seção': espera de eleitores por ônibus em São Gonçalo (RJ) chega a uma hora
Gonçalenses relatam dificuldades para chegar a locais de votação, mesmo após a prefeitura decretar gratuidade dos veículos
Eleitores de São Gonçalo, município localizado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, se queixam da demora nos transportes públicos neste domingo de votação. Gonçalenses ouvidos pelo GLOBO apontam mais de uma hora de espera nos pontos de ônibus nos bairros da cidade. Mesmo após a prefeitura decretar, nesta sexta-feira, o transporte gratuito, a percepção dos moradores é que há menos veículos em circulação. Em nota, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) informou que intimou a prefeitura e concessionárias a cumprirem a legislação após denúncias recebidas pela Ouvidoria, embora tenha ponderado que não há comprovação de irregularidades até o momento.
Ao tentar ir votar no bairro Lindo Parque, Núbia de Oliveira, de 24 anos, saiu de casa, no bairro Patronato, e foi ao ponto pegar as duas conduções até o local. A jovem saiu de casa às 11h para se dirigir às urnas. No entanto, quando foi pegar o primeiro ônibus, percebeu que o tempo de espera estava excessivo. Foi quase meia hora até o primeiro veículo passar. Ela relata que o ponto estava cheio e que vários eleitores deram sinal, mas o motorista parou muito depois do ponto apenas para algumas pessoas descerem. Quando tentaram chamar o veículo para que parasse, o condutor acelerou. Para não perder o horário de escolher um candidato, a jovem optou por andar 40 minutos até a escola.
— Eu acabei desistindo de esperar e andei 40 minutos até chegar à minha seção eleitoral. Estava adesivada em apoio ao presidente Lula, porque esperava ir tranquila até o local, mas, como fui a pé, temi sofrer algo. Aqui é uma cidade muito bolsonarista. Eu fui exposta a uma situação de perigo. E só consegui votar porque tive disposição para ir andando, mas e as pessoas que não podem? — desabafa Oliveira.
Na mesma situação, Oscar Galdino, de 70 anos, morador do bairro Trindade, ficou mais de uma hora parado no ponto até o primeiro ônibus passar em direção ao Centro da cidade. Após votar, a espera para voltar para casa já chega a quase 40 minutos. O idoso relata que a piora na oferta da condução foi mais notória nos últimos anos, mas que, mesmo assim, não é como tem sido neste domingo.
— Só para pegar o ônibus para vir foi mais de uma hora. Agora que votei, estou aqui esperando há quase 40 minutos para voltar para casa. Para votar, em si, é muito rápido, o problema é a condução. Onde eu moro, o ônibus normalmente demora mesmo, mas não todo esse tempo. É, no máximo, 30 minutos até chegar aqui — relata Galdino.
Tempo de espera além do normal
Manuela Soares, de 20 anos, está indo votar com a mãe em um colégio no Centro de Alcântara, mas, mesmo saindo mais cedo de casa, não foi o suficiente para conseguirem ir às urnas logo após o almoço. A jovem relata que o tempo de espera, cerca de 50 minutos, está quase o triplo do que seria em um dia comum, que registra 20 minutos.
— Por conta da eleição, a espera está demais, surreal. Até passou um ônibus, mas que vai para Maricá, não passou nenhum para o Centro. Normalmente não demora, mas hoje está sem condições. Estou pensando até em pegar um Uber — compartilha Soares.
O problema também foi percebido em outros bairros. Suelen Santos, de 38 anos, que vota no CIEP 246, localizado em Santa Catarina, viu que muitas pessoas esperavam nos pontos de ônibus do bairro onde mora e do vizinho, Barro Vermelho. Andando um pouco mais, entendeu o motivo: o trânsito, que já estava lento, parou devido a um acidente entre um carro e uma moto.
— Na hora que eu passei, o acidente tinha acabado de acontecer. Eu vi a moto embaixo do carro e cheguei a escutar o pessoal chamando a polícia, perto da minha casa. As pessoas logo começaram a se aglomerar, o que piorou muito o trânsito que já estava lento — relata Santos.
Daniel Sebastian, de 24 anos, eleitor de São Gonçalo, também relatou que o ônibus demorou cerca de 30 minutos para chegar ao ponto. Segundo ele, em um dia normal, o transporte costuma chegar em 10 minutos.
“O ônibus que eu peguei para o Centro de São Gonçalo estava absurdamente lotado, as pessoas que estavam comigo no ponto entraram pela porta de trás, porque não havia como entrar pela porta da frente, onde já tinha gente antes de passar a catraca. Eu e mais um rapaz ficamos na escada, porque era o único lugar que conseguimos ficar. Demorei quase quarenta minutos para chegar ao Centro, em um trajeto que normalmente não leva mais que 20 minutos. A diminuição das frotas de ônibus, muito provavelmente, é o que causou essas superlotações e essa demora para pegar o ônibus”, disse.
Em nota publicada na internet, a prefeitura da cidade, onde Capitão Nelson (PL) governa — pai do governador eleito do Rio, Douglas Ruas — afirma que a medida visa facilitar o acesso dos eleitores aos locais de votação.
“A Prefeitura publicou decreto que estabelece a suspensão da cobrança das passagens de ônibus municipais no dia 4 de outubro, quando acontecem as eleições gerais. A medida cumpre norma constitucional que prevê a gratuidade nos transportes coletivos a fim de que os eleitores tenham o acesso facilitado aos locais de votação”, diz o órgão.
Publicações de usuários na plataforma X também apontam intervalos de uma hora entre as viagens e pontos lotados no município. Em uma das postagens, um internauta relatou que os pontos de ônibus estavam lotados e que os intervalos entre as linhas chegavam a uma hora. Em outro post, um usuário afirmou que a espera pelo transporte público chegava a quase duas horas. Na publicação, ele também fez uma referência ao partido do prefeito, o mesmo do senador Flávio Bolsonaro (PL).
O deputado federal eleito Rick Azevedo (PSOL), autor de uma proposta pelo fim da escala de trabalho 6x1, também denunciou os problemas na circulação dos coletivos. Ele afirmou que, se confirmada uma redução deliberada da frota, a situação pode configurar crime.
“Mais uma denúncia. Agora em São Gonçalo: pontos abarrotados e ônibus levando mais de uma hora em pleno dia de eleição. É o trabalhador, quem mora longe e quem depende de transporte público que fica sem conseguir votar. Se há redução deliberada de frota, é caso de prisão”, escreveu.
Já Anielle Franco (PT), deputada federal reeleita, ressaltou que o direito ao voto e ao exercício da democracia está garantido pela Constituição. Na nota, ela marcou o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) e a Justiça Eleitoral, pedindo que possíveis irregularidades fossem apuradas com urgência.
Em nota, a Federação das Empresas de Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro (Semove) afirmou que as linhas municipais e intermunicipais operam neste domingo de acordo com a programação prevista pelo Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Detro-RJ) e pelas prefeituras. A entidade declarou ainda que a operação segue normalmente, mas ressaltou que podem ocorrer atrasos pontuais devido às condições do trânsito e do tempo.
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