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PF aponta que ex-presidente da Loterj teve passagens pagas por Willer Tomaz e trabalhou no escritório do advogado amigo de Flávio Bolsonaro

Willer Tomaz diz que despesas são referentes à parceria em processos; Hanclever Lopes Cançado não se manifesta

Agência O Globo - 21/10/2026
PF aponta que ex-presidente da Loterj teve passagens pagas por Willer Tomaz e trabalhou no escritório do advogado amigo de Flávio Bolsonaro
Willer Tomaz - Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mantinha "atividade profissional conjunta e proximidade pessoal" com o então presidente da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), Hazenclever Lopes Cançado, segundo relatório da Polícia Federal. A investigação aponta que, enquanto comandava a autarquia fluminense, Hazenclever teve viagens custeadas por Willer, suspeito de manter vínculos com empresas de apostas beneficiadas por decisões da Loterj.

Procurado, Willer afirmou que mantinha uma parceria profissional com Hazenclever, que também é advogado, e que os valores pagos correspondiam a adiantamentos por serviços prestados. O ex-presidente da Loterj não se manifestou.

Hazenclever assumiu a presidência da Loterj em julho de 2022. Vinculada à Secretaria Estadual da Casa Civil do governo fluminense, a autarquia é responsável pela administração, regulamentação e fiscalização das atividades lotéricas no estado. Também atua no credenciamento de empresas de apostas esportivas e jogos online para operar no território estadual.

No início de 2023, a empresa Rio Pag, controlada por Willer, segundo a PF, venceu um edital da Loterj para processar os pagamentos feitos pelos apostadores às operadoras autorizadas pela autarquia. Alguns meses depois, sob a gestão de Hazenclever, a Loterj credenciou a Rede Loto, outra empresa ligada a Willer, de acordo com os investigadores, para explorar apostas online.

Em nota, Willer afirmou atuar exclusivamente como advogado da Rio Pag e negou participar da gestão das empresas envolvidas. Conforme mostrou a colunista Malu Gaspar, os investigadores encontraram, entre os dados extraídos do celular de Willer, um e-mail no qual o advogado se apresenta a uma instituição financeira como sócio da Rio Pag.

Casa decimal desclassificou concorrente

A Rio Pag conquistou o contrato com a Loterj após um erro formal desclassificar uma empresa concorrente que havia apresentado uma proposta mais vantajosa para a autarquia. O edital previa que a vencedora seria aquela que oferecesse a maior taxa de repasse a partir do faturamento com as transações. A concorrente da Rio Pag sugeriu 26,00%, enquanto a empresa ligada a Willer indicou 20,000%.

O edital exigia que as propostas fossem apresentadas com três casas decimais. Como a concorrente utilizou apenas duas, acabou desclassificada, embora sua oferta fosse superior à da Rio Pag independentemente do algarismo acrescentado. A PF afirmou que a "hipótese de favorecimento encontra correspondência concreta no tratamento dispensado" à concorrente.

De acordo com o UOL, a Rio Pag arrecadou R$ 187,8 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026, um mês antes de o contrato ser rescindido. Durante a vigência do contrato, Willer custeou despesas de viagem de Hazenclever, segundo a PF. Os investigadores identificaram quatro registros em documentos extraídos do celular do advogado: uma hospedagem em hotel no Rio e uma passagem entre Rio e Brasília, ambas em maio de 2025; além de duas viagens em junho daquele ano, uma entre Rio e Brasília e outra entre Campinas e Rio.

A relação entre os dois, segundo a PF, era anterior à nomeação de Hazenclever para a Loterj. Em nota, o ex-governador do Rio Cláudio Castro afirmou que Hazenclever chegou ao cargo por indicação do PL. Castro também mantinha relações com Willer e com o senador Flávio Bolsonaro.

"Esse conjunto revela uma relação de proximidade pessoal e profissional entre Willer e o então presidente da entidade responsável pelo certame, além de sua proximidade com o chefe do governo estadual. Nesse contexto, essa rede de relações poderia facilitar a interlocução dos interesses ligados à Pixs (Rio Pag) junto à direção da Loterj e ao governo do estado", diz trecho do relatório da PF.

A investigação destaca que Willer e Hazenclever, ambos na condição de advogados, se apresentaram à Justiça do Mato Grosso como credores de um processo relativo a precatórios. Para a PF, isso mostra que a relação profissional entre eles ocorria ao menos desde 2021. Além disso, a PF também aponta que o ex-presidente da Loterj possuía o registro de um endereço de e-mail institucional do escritório de Willer.

"Os elementos analisados sugerem que Hazenclever Lopes Cançado mantinha vínculo profissional com o grupo WT, possivelmente na condição de advogado ligado ao núcleo de interesses de Willer", diz o documento.

O ex-presidente da Loterj foi exonerado em março deste ano, quando se candidatou a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PL. Ele recebeu R$ 316 mil da legenda para fazer campanha, em que usou o slogan "Chama o Clever". Não foi eleito.

Nas redes sociais, Hazenclever explorou na campanha as imagens de Flávio e do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em uma publicação às vésperas do primeiro turno, declarou: “Eu tenho lado, tenho posição e não escondo de ninguém. Sou de direita e quero representar no Congresso quem também está cansado de ver o Rio e o Brasil presos às mesmas ideias de sempre”. Em seu perfil, também exibe registros ao lado de figuras influentes do PL, como o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, e o senador Romário (PL-RJ).

Entenda a investigação

A relação de Willer com o ex-presidente da Loterj é uma das frentes de um inquérito da Polícia Federal que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e também envolve referências ao senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República. O caso está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal (STF).

A investigação teve origem em uma apuração sobre supostas movimentações financeiras irregulares em plataformas de apostas. Entre os documentos apreendidos pela PF, foram encontradas referências ao senador. A presença do nome de Flávio na investigação levou o caso ao STF, uma vez que o parlamentar tem prerrogativa de foro. Flávio classifica o inquérito como "fake news" e afirma que sua única relação com Willer é de amizade. O advogado, por sua vez, nega irregularidades e questiona a divulgação das informações às vésperas do segundo turno da eleição presidencial.

A PF aponta que Willer mantém vínculos com duas empresas offshore sediadas na Ilha da Madeira, em Portugal, embora não figure formalmente como sócio de nenhuma delas. Entre os indícios dessa ligação, os investigadores citam o pagamento de despesas pessoais do advogado pela Cathedral Holding, controladora da Rede Loto. Um e-mail enviado a Willer também se refere à offshore como uma empresa de sua propriedade.

Conforme mostrou a revista piauí, a Cathedral realizou movimentações financeiras expressivas com a Alcazar Holding, outra offshore registrada na Ilha da Madeira e que mantém contas em nome de Willer. Documentos obtidos pela PF apontam ainda que Flávio Bolsonaro aparecia como "usuário master" de uma conta vinculada à Alcazar.

Maior apostador do país

Durante a investigação, a PF recebeu uma nota técnica do Ministério da Fazenda que identifica Willer como a pessoa física com o maior volume de apostas em plataformas de bets no país. Segundo o documento, o advogado realizou cerca de R$ 5 bilhões em apostas online. Willer afirma que todos os recursos apostados "têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam de sua declaração à Receita Federal".

O levantamento, elaborado por técnicos da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), apresenta o caso de Willer como exemplo de falhas nos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e de monitoramento de clientes adotados pela Foggo Entertainment, operadora da marca Blaze.

Segundo a nota técnica, o advogado também realizou saques que somaram R$ 200 milhões na plataforma durante o período analisado. Apesar do elevado volume de apostas, a empresa classificou Willer como cliente de "risco médio". Para os técnicos da Fazenda, a classificação "evidencia" falhas nos procedimentos de controle, já que o comportamento do apostador deveria ter sido enquadrado no critério de "padrões atípicos em jogos on-line", com classificação de "risco máximo".

Willer também move uma ação cível contra a plataforma Blaze na Justiça de São Paulo. Segundo comprovante anual apresentado no processo, o advogado registrou R$ 4,8 bilhões em ganhos e quase R$ 5 bilhões em perdas nos jogos de cassino em 2025, acumulando prejuízo líquido de R$ 163,2 milhões. Na ação, alega sofrer de ludopatia, transtorno caracterizado pelo vício em jogos, e pede a devolução dos valores perdidos.

Os valores bilionários, porém, não representam necessariamente a quantia efetivamente depositada por Willer nas plataformas. As cifras contabilizam sucessivas apostas, inclusive aquelas feitas com recursos obtidos em rodadas anteriores, o que multiplica o volume total movimentado. No processo, o advogado alegou que sofre de ludopatia, vício em jogos.