Poder e Governo

Investigação no STF apura lavagem de dinheiro e envolve Flávio Bolsonaro

Ex-governador do Rio nega irregularidades e afirma que não interferiu em licitação vencida por empresa ligada ao defensor

Agência O Globo - 20/10/2026
Investigação no STF apura lavagem de dinheiro e envolve Flávio Bolsonaro
Investigação no STF apura lavagem de dinheiro e envolve Flávio Bolsonaro - Foto: © Foto / Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O inquérito da Polícia Federal (PF) que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz, seu amigo, também atinge o ex-governador do Rio, Cláudio Castro (PL), e o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ).

A informação foi divulgada pela Folha de S. Paulo e confirmada pelo GLOBO. A investigação analisa se Flávio atuou ao lado de Tomaz em um suposto esquema que utilizava casas de apostas para ocultar a origem dos recursos. O inquérito, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), também investiga vazamento de informações sobre processos em tramitação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) ao advogado. Em resposta, Flávio afirmou tratar-se de “fake news”. Tomaz e Castro negam qualquer irregularidade.

O nome de Castro surge na investigação devido às relações apontadas pela PF entre ele e Willer, a partir de mensagens extraídas do celular do advogado e da conexão deste com a Rede Loto, a primeira credenciada pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para operar no mercado de apostas esportivas online. O credenciamento ocorreu durante o governo de Castro. Na época, a Loterj era presidida por Hazenclever Lopes, que já participou de processos ao lado de Tomaz.

Na representação enviada ao STF, a PF afirmou que dados demonstram que Tomaz mantinha relações próximas com agentes públicos e políticos e que “parte dessas relações aparece acompanhada de elementos econômicos ou operacionais concretos, como viagens, acessos bancários, pagamentos, vínculos profissionais e participação em empresas ou contratos públicos, merecendo especial destaque o contexto envolvendo Hazenclever Lopes, Loterj e Pixs/Riopag”, que seria ligada a Willer. A Riopag venceu uma licitação no Rio para operar os pagamentos de sites de apostas licenciados pela Loterj.

Em nota, Cláudio Castro destacou que conhece Willer Tomaz desde 2020 e mantém com ele uma relação de amizade. O advogado atuou em defesa dele em alguns processos de maneira gratuita em razão dessa relação pessoal. Castro, entretanto, frisou que “não tinha conhecimento de qualquer vínculo de Willer com a PIXS/Riopag à época da contratação pela Loterj, nem da relação profissional ou pessoal entre o advogado e Hazenclever Lopes. Também desconhecia eventual custeio de viagens do então presidente da autarquia”.

“Hazenclever foi uma indicação política do PL para a presidência da Loterj. A autarquia possui gestão própria, e Castro não participou da licitação, da contratação da PIXS/Riopag nem de qualquer tratativa envolvendo Willer e a empresa”, enfatizou.

Em relação a Ramagem, segundo informações da Folha de S. Paulo, a PF investiga um pagamento de R$ 270 mil que teria como beneficiário o ex-deputado, repassado por meio de um intermediário. A empresa que recebeu o pagamento afirma que prestou serviços ao escritório de Tomaz e que, em 2024, durante a pré-campanha de Ramagem à prefeitura do Rio, a banca de advocacia solicitou que a empresa atuasse por três meses. Ramagem não comentou.

A investigação é um desdobramento de uma apuração da PF no Rio Grande do Sul sobre supostos crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas esportivas, conhecidas como bets. Os policiais encontraram indícios de que Tomaz controla a Rede Loto, uma casa de apostas que obteve autorização do governo do Rio para operar em maio de 2023.

A partir das informações, os agentes solicitaram a quebra de sigilo telemático do advogado, o que possibilitou o acesso a mensagens, e-mails e outras informações do celular dele. Com isso, a PF encontrou vínculos com Flávio, que levaram a investigação ao STF.

Willer Tomaz nega ter obtido qualquer acesso irregular a decisões judiciais ou ter interferido no conteúdo de manifestações do Ministério Público Federal. O advogado classificou as insinuações contra ele como “falsas” e afirmou desconhecer o relatório mencionado pela PF.

“O advogado Willer Tomaz nega categoricamente ter tido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou a pareceres do Ministério Público Federal, bem como ter interferido em qualquer manifestação. As insinuações são falsas, configuram desinformação e revelam desconhecimento elementar, ou deliberada distorção, do funcionamento dos tribunais”, diz parte da nota.

Tomaz argumenta ainda que o conhecimento antecipado de julgados não é crime, mas sim uma “funcionalidade prevista no próprio sistema da Corte”.

“Tampouco há ilícito quando um procurador, convencido pelos memoriais apresentados, incorpora seus argumentos ao parecer. Isso é contraditório, e transformar rotina processual em suspeita é criminalizar a advocacia. A defesa desconhece o relatório citado e repudia sua divulgação seletiva, em plena campanha eleitoral, com menções a terceiros alheios aos fatos investigados. Ilegal, este sim, é o vazamento de material sigiloso, cujos autores serão identificados e responsabilizados”, conclui.

Em nota, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que a única relação entre ele e Willer Tomaz é de amizade e que “qualquer tentativa de insinuar irregularidades a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação”. “Da mesma forma, o senador nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz e nenhuma de suas empresas. Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa”, afirmou.

Vazamento de informações

Na mesma investigação, a PF identificou indícios de que o escritório de Tomaz tinha acesso antecipado a minutas de decisões do STJ e a pareceres do Ministério Público Federal (MPF). Em alguns casos, o escritório teria recebido previamente informações sobre o resultado de julgamentos e, com isso, alterado sua estratégia processual.

Na última segunda-feira, o ex-secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do STJ foi suspeito de repassar informações sobre processos em tramitação na Corte a Tomaz.

Pradera foi exonerado do STJ na última sexta-feira. Antes disso, o presidente do tribunal, ministro Luis Felipe Salomão, já havia determinado a abertura de um procedimento interno para apurar as suspeitas envolvendo o servidor.

Entre os elementos identificados pelos investigadores estão dados sobre demandas internas da Corte e até uma fotografia de um documento exibido na tela de um computador.