Poder e Governo

Tarcísio vence Haddad no primeiro turno e vai governar São Paulo por mais quatro anos

Governador confirma o favoritismo e supera petista no maior colégio eleitoral do país; no segundo turno da eleição presidencial, ele terá maior envolvimento na campanha de Flávio Bolsonaro (PL)

Agência O Globo - 04/10/2026
Tarcísio vence Haddad no primeiro turno e vai governar São Paulo por mais quatro anos
Tarcísio de Freitas - Foto: © AP Photo / Andre Penner

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), confirmou o favoritismo e foi reeleito em primeiro turno neste domingo (4), após derrotar o ex-ministro Fernando Haddad (PT). Com a vitória, Tarcísio será o terceiro político a governar o estado mais populoso do Brasil por mais de uma vez. Antes dele, Mário Covas (eleito em 1994 e 1998) e Geraldo Alckmin (eleito em 2002, 2010 e 2014, e também governador entre 2001 e 2002 com a morte de Covas) conseguiram reeleições.

Às 19h39, com 90% das urnas apuradas no estado, Tarcísio tinha 13 milhões de eleitores, o equivalente a 62,85% dos votos válidos. Haddad somava 7 milhões, ou 36,22%. A diferença a essa altura da disputa é suficiente, pelos cálculos da Justiça Eleitoral, para sacramentar a vitória do atual governador.

Os outros candidatos da eleição atual tiveram os seguintes resultados no momento em que a vitória foi confirmada: Carlos Machado (PCB) 0,25%, Vera Lúcia (PSTU) 0,32% e Vivian Mendes (UP) 0,35%. Brancos e nulos somaram 12,29%.

Como comparação, em 2022, quando também se enfrentaram, Tarcísio terminou o primeiro turno com 9,8 milhões de votos (42,3%) ante 8,3 milhões (35,7%) de Haddad. Na segunda etapa daquele pleito, Tarcísio teve 13,4 milhões de votos (55,2%) e o petista foi escolhido por 10,9 milhões (44,7%).

É a segunda eleição que o carioca de 51 anos disputa, e a segunda que vence. Antes, ele foi ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, o responsável pela sua entrada na política eleitoral. O ex-presidente foi também quem acabou por afastá-lo de outra eleição: a presidencial deste ano. Até dezembro passado, quando Bolsonaro escolheu o filho Flávio para representá-lo nas urnas, Tarcísio era o favorito do Centrão, da Faria Lima e de setores empresariais para enfrentar Lula. Preterido pelo ex-chefe, "virou a chave" para o estado, mas manteve um apoio frio a Flávio em quase todo o turno.

Com a eleição de São Paulo resolvida, porém, o governador prometeu participar com maior intensidade de um eventual segundo turno da disputa de Flávio ao Planalto. A distância do aliado não era apenas rancor pela escolha de Jair, mas seguia um script planejado desde antes da campanha: impedir que as relações do senador com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, contaminassem sua própria candidatura, e evitar desagradar os eleitores paulistas dispostos a votar em Lula e Tarcísio (o "voto Tarula"), que provavelmente rejeitam o bolsonarismo.

Em um eventual segundo turno da eleição presidencial, a campanha de Flávio, que tem QG em São Paulo desde agosto, espera contar com Tarcísio não apenas na capital e no interior paulista, mas em outros estados — o que o governador, na sexta-feira (2), prometeu que irá fazer. No sábado (3), véspera do primeiro turno, ambos estiveram em uma carreata entre Santa Bárbara D'Oeste e Americana, no interior de São Paulo.

Haddad derrotado

Ex-ministro da Fazenda do governo Lula, Haddad não conseguiu ameaçar o rival nas pesquisas ao longo de toda a campanha, mesmo com um discurso voltado para problemas identificados na gestão do estado. O petista procurou desgastar o governador com críticas ao serviço de água da Sabesp após a privatização, às concessões de trens metropolitanos, além de confrontar indicadores de educação, saúde e segurança, mas a estratégia não surtiu efeito.

A favor da candidatura do petista, contavam conquistas econômicas do governo federal, como a queda na taxa de desemprego, o crescimento do PIB, a política de reajuste anual do salário mínimo acima da inflação e a aprovação, no Congresso, da reforma tributária e da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Mas o discurso da "justiça tributária" acabou diluído por críticas em razão do aumento do endividamento das famílias e do desequilíbrio fiscal.

Encarado como principal ativo do PT por dirigentes da sigla, Haddad amarga a quarta derrota eleitoral consecutiva e a segunda para Tarcísio, um adversário em potencial em 2030 à presidência da República. Antes, o político não conseguiu se reeleger prefeito de São Paulo, em 2016, e perdeu para Jair Bolsonaro, em 2018, quando substituiu Lula nas urnas devido ao indeferimento da candidatura com base na Lei da Ficha Limpa.

Conquistas e dívidas de Tarcísio

Vindo do ministério da Infraestrutura, Tarcísio entregou obras enroscadas de governos passados, como o monotrilho da Avenida Roberto Marinho, o trecho norte do Rodoanel (pronto no mês que vem) e a rodovia dos Tamoios. As duas ações que provavelmente serão lembradas como as mais emblemáticas de seu primeiro mandato, porém, não são dessa área.

Uma delas é a privatização da Sabesp, em 2024, quando o governo deixou de controlar a empresa de água e esgoto após vender 32% das ações — o bloco principal, de 15%, para o Grupo Equatorial, por R$ 6,9 bilhões. De acordo com o Datafolha, em julho, dois anos após o negócio, mais eleitores tinham opiniões contrárias (51%) do que favoráveis (31%) sobre a privatização. A outra foi a dispersão da Cracolândia, que desde os anos 1990 se tornou um estigma no Centro de São Paulo, devido às cenas de uso da droga a céu aberto por centenas de pessoas. A ação foi coroada pelo fim da Favela do Moinho, a última do Centro, que está sendo transformada em um parque.

Na área da segurança pública, porém, nem tudo funcionou. Tarcísio precisou rever posições sobre temas como as câmeras corporais após casos de violência policial, principalmente na Baixada Santista. Teve um ex-comandante-geral da Polícia Militar, o coronel José Augusto Coutinho, citado em investigação contra o crime organizado. E, no dia a dia, a população conviveu com roubos violentos de celulares e alianças, tanto de pedestres como de motoristas.

No novo mandato, o governador apostará em pelo menos dois grandes projetos para deixar assinaturas no estado: a universalização da rede de esgoto, prometida para 2029 e em expansão desde a venda da Sabesp, e o novo Centro Administrativo do governo, uma alameda de prédios públicos com secretarias e um palácio, perto da Avenida Rio Branco, na região central.

Afagar a base e Kassab

Ao contrário de 2022, quando teve um arco restrito de apoios no primeiro turno, o governador montou uma chapa de 12 legendas: Podemos, PP, União Brasil, PL, PSD, Novo, PRD, PSDB, Cidadania, Avante e MDB, além do próprio Republicanos. Assim, conseguiu reduzir o número de concorrentes, o que abriu caminho para a eleição em primeiro turno. Ao mesmo tempo, ele agora precisará acomodar todos esses partidos no novo governo — alguns já fazem parte da atual gestão.

Além de afagar a base, Tarcísio também precisará, segundo a avaliação de aliados, aparar arestas com um dos políticos responsáveis pela sua primeira eleição: Gilberto Kassab. O presidente do PSD foi secretário de Governo até o início do ano, mas os dois se afastaram — não houve rompimento de relações — após o cacique ser preterido para o posto de vice na chapa eleitoral. Tarcísio optou por seguir com o mesmo vice, Felício Ramuth, do MDB.

Em julho, Kassab foi anunciado como vice na chapa de Ronaldo Caiado (PSD), e ambos declararam apoio à reeleição do governador. Segundo um aliado, a "reconciliação" seria importante para Tarcísio caso o governador deseje recolocar seu nome na corrida presidencial de 2030.

Ex-militar e ex-ministro de Bolsonaro

Casado e pai de dois filhos, Tarcísio é formado em engenharia pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro — ele foi oficial do Exército. Nas Forças Armadas, chegou a participar da Missão das Nações Unidas para a estabilização do Haiti. Em 2011, obteve o primeiro cargo de confiança no Governo Federal, nomeado pela então presidente Dilma Rousseff (PT) como diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

Quatro anos depois, com a fama de técnico competente, Tarcísio se tornou secretário do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), órgão criado para modelar concessões de ativos à iniciativa privada, como rodovias, portos e aeroportos.

Em 2 de janeiro de 2019, tomou posse como ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, cargo que ocupou até 31 de março de 2022, quando se afastou para poder concorrer a governador de São Paulo naquele ano.