Poder e Governo

Governo brasileiro vê sinais trocados de Trump às vésperas do primeiro turno

Entorno de Lula acusa integrantes da família Bolsonaro de atuar contra os interesses do país

Agência O Globo - 03/10/2026
Governo brasileiro vê sinais trocados de Trump às vésperas do primeiro turno
O presidente Donald Trump - Foto: AP/Alex Brandon.

A gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) percebe sinais ambíguos do governo dos Estados Unidos às vésperas do primeiro turno das eleições, em meio ao receio de uma possível interferência externa no pleito brasileiro. O primeiro turno ocorre neste domingo.

O círculo próximo ao presidente avalia que a administração Trump tem buscado interferir no processo eleitoral por meio de diversas medidas, que vão desde a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros até a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como facções terroristas. Em uma ação recente, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça e Segurança Pública um relatório que apontava riscos de influência americana nas eleições, identificando uma escalada na pressão dos EUA sobre o Brasil.

Apesar disso, há uma avaliação entre os governistas de que Trump emite sinais contraditórios — ora se aproximando do Brasil, ora adotando medidas vistas como políticas pelo governo federal. Em julho de 2025, por exemplo, anunciou uma tarifa de 50% aos produtos brasileiros, mencionando o aliado político Jair Bolsonaro (PL) como justificativa. No mês seguinte, as duas autoridades se encontraram durante a Assembleia Geral da ONU, onde Trump elogiou o petista. Em outra ocasião, atendeu a um pedido do governo brasileiro ao revogar sanções que afetavam autoridades, como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

No entanto, desde então, novos atritos ocorreram. O governo brasileiro denuncia que integrantes da família Bolsonaro, especialmente o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que reside nos EUA, estão agindo contra os interesses do país.

Nos últimos dias, em uma nova tentativa de influenciar o pleito, o governo americano liberou R$ 5,2 milhões para financiar um projeto que visa contestar a atuação do STF no Brasil. Segundo reportagem do jornal britânico The Guardian, o projeto contempla recursos para grupos da sociedade civil que se opõem ao que consideram abusos de poder judicial e censura por parte da Corte. Em resposta, a Advocacia-Geral da União (AGU) protocolou uma notícia-crime na quinta-feira pedindo investigação sobre o caso.

Um interlocutor próximo ao diálogo entre os dois países revelou que o governo federal monitorava essa possibilidade, embora sem clareza sobre o valor ou a data do repasse. Atualmente, o governo investiga quais entidades foram beneficiadas por esse recurso.

Paralelamente, houve um novo encontro entre negociadores brasileiros e americanos a respeito das tarifas impostas pela administração Trump. Os ministros Márcio Elias Rosa (Indústria) e Mauro Vieira (Relações Exteriores) se reuniram com Jamieson Greer, representante comercial dos EUA. O próximo passo incluirá novas demandas por parte do governo americano para serem discutidas. No entanto, a expectativa dos integrantes do governo brasileiro é que as negociações sobre a aplicação das taxas avancem apenas após o resultado das eleições presidenciais, no fim do mês.

Além disso, membros do Planalto destacam que, apesar da pressão de bolsonaristas para que Trump impusesse novas sanções às autoridades brasileiras, em função da crise institucional sem precedentes no STF, isso não se concretizou. Eles também ressaltam que a declaração de Trump, feita esta semana, no sentido de que acompanha as eleições brasileiras, embora não tenha expressado apoio a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indica um gesto positivo.

Aliados de Flávio Bolsonaro possuem proximidade com integrantes do governo Trump e já dispararam fortes críticas ao presidente Lula. Nesse grupo destaca-se o secretário de Estado, Marco Rubio. Trump, por sua vez, sempre considerou Jair Bolsonaro um aliado político.

Ainda assim, ao ser indagado duas vezes nesta semana pela imprensa sobre as eleições no Brasil, o presidente americano não fez nenhum gesto explícito em favor de Flávio, limitando-se a afirmar que se trata de uma eleição importante e que acompanha os acontecimentos de perto. Um interlocutor avalia que um gesto mais contundente de Trump em relação a Flávio não está descartado, tendo em vista que o americano já demonstrou apoio público a outras autoridades candidatas em diferentes países, como na Colômbia.

Esse mesmo interlocutor sugere que o governo Trump deve aguardar o resultado das urnas neste domingo, após o primeiro turno, antes de qualquer posicionamento mais agressivo sobre as eleições no Brasil. Isso se justifica, pois as pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa acirrada, com diferença mínima de votos entre Lula e Flávio.