Poder e Governo
Lula diz que Nossa Senhora 'não será avacalhada' e critica templo de Vorcaro
Declaração ocorreu em comício em Belém, no Pará, na noite desta segunda-feira
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou a crise envolvendo a padroeira Nossa Senhora Aparecida, que tem desgastado a imagem de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas eleições, e afirmou que Nossa Senhora "não será avacalhada" por ninguém.
A situação ganhou notoriedade nas redes sociais após um debate acerca de um projeto de lei arquivado há quase 20 anos, que visava retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
A declaração de Lula aconteceu durante um comício em Belém, no Pará, na noite desta segunda-feira. O presidente também criticou o pastor André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha, por suas relações com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
— Enquanto eu for presidente da República, ninguém vai avacalhar com Nossa Senhora Aparecida. Ninguém. As pessoas precisam aprender a respeitar todas as religiões, inclusive a de matriz africana. É preciso. Ninguém é dono da verdade, a única igreja mentirosa é aquela da Lagoinha, daquele pastor chamado Valadão, que era sócio do Vorcaro — disse Lula.
Ao final do comício, o ex-governador Helder Barbalho (MDB), candidato ao Senado, presenteou Lula com uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré. O petista carregou a imagem pelo palco e a exibiu ao público. A primeira-dama, Rosangela da Silva, a Janja, também mencionou a crise que afeta Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula nas eleições deste ano.
— Eles se dizem enviados de Deus, mas vivem às custas da fé das outras pessoas. Fé é coisa séria e tem que ser respeitada, qualquer religião (...) E que o manto de Nossa Senhora nos proteja de falsos adoradores de Deus, de falsos profetas da fé. Que Nossa Senhora ilumine os caminhos do presidente Lula e afaste ele de todo mal e de toda mentira — afirmou a primeira-dama.
Em seu discurso, Lula reiterou a defesa da soberania brasileira e criticou o presidente americano Donald Trump, indicando que ele não deve interferir nas eleições de outubro.
— Temos que dizer ao presidente Trump: não se meta nas eleições do Brasil, esse país tem dono e se chama povo brasileiro, que é o dono da democracia. E aqui nem chinês, nem americano, nem inglês, nem japonês mete o dedo. Aqui quem mete o dedo somos nós.
O petista ressaltou a exploração das terras raras neste momento:
— Desta vez ninguém vai meter a mão nos nossos minérios ricos e nas nossas terras raras. Nós vamos explorar aqui, desenvolvê-los aqui, industrializá-los aqui. Quem quiser venha aqui para o Brasil transferir tecnologia. Não adianta o Trump ficar dizendo que tem o maior avião, maior foguete. Eu não quero guerra contra os Estados Unidos, eu quero respeito — afirmou.
Lula também criticou Vorcaro e suas relações com políticos, destacando que seu governo foi o responsável por transformar o "banqueiro deles em prisioneiro".
Disputa pelo Senado
Durante o evento, discursaram três candidatos ao Senado: o ex-governador Helder Barbalho (MDB), o atual presidente da Assembleia Legislativa do Pará, Chicão (União Brasil), e o ex-ministro do Turismo Celso Sabino (PDT). Helder e Chicão estão na mesma chapa, apoiada oficialmente por Lula, enquanto Sabino conta com o respaldo do presidente na disputa e já gravou material de campanha com ele.
Uma pesquisa Quaest para o Senado no Pará, divulgada no dia 26, mostrou Helder à frente, com 25%, seguido pelo Delegado Éder Mauro (PL) e Chicão, ambos com 15%, Zequinha Marinho (Podemos) com 10% e Celso com 5%.
Lula abordou a necessidade de unidade entre os candidatos, dirigindo-se ao presidente do PT, Edinho Silva, que o acompanhava, e sugeriu que ele se reunisse com o presidente do MDB em breve para discutir qual dos três nomes “tem condições de ser eleito senador”, recomendando a escolha de apenas dois deles.
Ele mencionou o caso do Rio Grande do Norte, nas últimas eleições, quando, segundo ele, a falta de unidade entre o campo aliado resultou na eleição do senador Rogério Marinho (PL-RN), hoje coordenador-geral da campanha de Flávio Bolsonaro. O petista enfatizou que o estado do Pará “não pode eleger um bolsonarista para ser senador”.
— Se o cara for para lá (Brasília), ele vai para lá para infernizar a minha vida, para não deixar a gente governar — disse.
Sabino teve que deixar o governo após um ultimato do União Brasil — em um momento em que a sigla exigiu que seus filiados se desligassem do governo Lula — e acabou expulso da legenda por não sair da Esplanada. Ele se filiou ao PDT e manteve sua candidatura ao Senado.
Durante o evento, Sabino vestia uma camiseta vermelha com o rosto dele e de Lula e fez elogios ao presidente em seu discurso. Ele declarou que Lula “transformou sua vida” e que tem “carregado esta camiseta por todo o Pará”, ao mesmo tempo que criticou seu antigo partido.
— Quando o União Brasil, o 44, me colocou na parede para soltar a mão do presidente Lula eu não tive dúvida: fiquei ao seu lado, presidente, e ao lado do povo do Pará — disse.
Em seguida, discursou Chicão, rival direto de Sabino, que fez uma crítica velada ao ex-ministro, declarando que sempre foi uma “pessoa de grupo” e defendendo “o conjunto”:
— Não preciso dizer neste palco há quanto tempo visto a bandeira e carrego o nome Lula no estado do Pará. Não preciso vir aqui para dizer que entrei nesse barco agora — afirmou.
Helder Barbalho mencionou Sabino nominalmente, disse que ele o apresentou a Lula e fez com que ele se tornasse ministro, destacando que disputas internas podem favorecer candidaturas de adversários.
— Brigar entre nós é prestar serviço para quem não merece representar o Pará. Que isso sirva de responsabilidade política para todos que têm juízo, porque o que está em jogo é ter dois senadores comprometidos com a democracia, com as pautas importantes para o Pará. E se a gente brigar entre a gente a gente pode entregar uma vaga desnecessariamente para quem está na contramão desse projeto. E quem pode vencer essa eleição ao Senado é Helder e Chicão — finalizou.
Helder e Lula apoiam Hana Ghassan (MDB), que era vice-governadora do emedebista, e que aparece atrás nas pesquisas de intenção de voto. A pesquisa Quaest divulgada no dia 26 mostrou o ex-prefeito Dr. Daniel (Podemos), adversário de Helder, com 41%, ante 32% de Hana.
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