Poder e Governo
STF irá analisar caso de usinas citado em mensagens de Vorcaro
Gilmar propõe levar discussão ao plenário após diálogos revelarem interesse da chamada 'Turma do KN' em voto de Nunes Marques
A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar na sexta-feira uma questão de ordem apresentada pelo ministro Gilmar Mendes para levar ao plenário da Corte uma discussão sobre indenizações bilionárias a usinas do setor sucroalcooleiro. O tema ganhou novo peso dentro do tribunal após mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mostrarem o interesse de pessoas próximas ao ministro Kassio Nunes Marques no resultado de processos sobre a mesma controvérsia jurídica.
O julgamento ocorre enquanto o Supremo tenta construir uma saída para o embate entre as alas dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. Integrantes da Corte têm discutido nos bastidores alternativas para reduzir a tensão e estabelecer um encaminhamento para as diferentes citações a ministros encontradas no material apreendido pela PF.
No caso das usinas, Gilmar submeteu à Segunda Turma uma questão de ordem para que o julgamento de um recurso da União seja transferido para o plenário. O processo discute se é necessária a realização de perícia individual para comprovar o prejuízo concreto de cada usina decorrente do controle de preços exercido pelo extinto Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), mesmo quando os critérios para a indenização já tenham sido estabelecidos em sentença transitada em julgado.
Segundo Gilmar, a análise pelo plenário é necessária para uniformizar o entendimento do STF sobre o alcance do Tema 826 da repercussão geral. A questão de ordem será julgada no plenário virtual da Segunda Turma entre 25 de setembro e 2 de outubro.
A discussão ganhou relevância adicional depois que mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelaram um contrato do Banco Master com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, do qual faz parte Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). O acordo previa honorários de 5% sobre valores recebidos pelo banco em 12 processos envolvendo indenizações relacionadas ao antigo IAA. Os honorários poderiam chegar a R$ 427 milhões caso fossem liberados cerca de R$ 8,5 bilhões em créditos.
Newton e Camilla aparecem nas conversas como integrantes da chamada "Turma do KN", expressão usada por assessores de Vorcaro e que, segundo as mensagens, fazia referência a Nunes Marques. Em junho de 2025, Camilla comemorou com Vorcaro um voto do ministro justamente sobre a controvérsia que agora Gilmar pretende levar ao plenário. Na mensagem, ela destacou a posição de Nunes Marques ao diferenciar situações em que a própria decisão judicial já havia estabelecido os critérios para calcular a indenização.
Nunes Marques afirma que o julgamento em que votou não envolvia o Banco Master, mas uma tese jurídica de alcance geral que poderia ser aplicada a diferentes empresas. O ministro também declarou que nunca votou a favor de Vorcaro ou do Master.
O processo que será analisado agora foi apresentado pela União e tem a Raízen Energia e outros como partes recorridas. Se a Segunda Turma aceitar a questão de ordem de Gilmar, caberá aos dez ministros que compõem atualmente o STF uniformizar o entendimento sobre a exigência da perícia individual.
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