Poder e Governo

Obras e alianças ajudam Raquel Lyra em virada contra João Campos em corrida eleitoral de Pernambuco

Cientistas políticos e aliados apontam ainda o foco em temas locais, evitando nacionalizar campanha no estado

Agência O Globo - 08/06/2026
Obras e alianças ajudam Raquel Lyra em virada contra João Campos em corrida eleitoral de Pernambuco
Raquel Lyra - Foto: Foto Janaina Pepeu Secom/PE

O favoritismo do ex-prefeito de Recife (PSB) na disputa pelo governo de Pernambuco foi abalado com a pesquisa Datafolha mais recente, de maio, que mostrou a candidata à reeleição (PSD) na liderança pela primeira vez neste ciclo eleitoral. Integrantes da campanha da governadora e cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO atribuem a escalada de Lyra a entregas, sobretudo na área de segurança, à aliança com prefeitos e à consolidação de uma agenda local, que atenua o impacto da nacionalização da eleição pernambucana.

O Datafolha mostrou a atual governadora cinco pontos percentuais à frente do rival (48% contra 43%). Um mês antes, Campos marcava 50% e Lyra 38%, uma diferença de 12 pontos a favor do aliado do presidente Lula.

Interlocutores da governadora creditam parte do crescimento nas pesquisas, percebido em trackings internos desde abril, a entregas da gestão na área de segurança. Eles defendem que o impacto é percebido, sobretudo, na região metropolitana de Recife, reduto de Campos. Entre as ações da gestão destacadas estão o crescimento do número de agentes nomeados e a renovação de frotas de viaturas.

Um integrante da campanha à reeleição diz que a presença dos novos policiais, conhecidos como “laranjinhas”, nas ruas aumenta a sensação de segurança da população.

O reforço da presença de Lyra em agendas nas ruas, seja na entrega de obras ou na fiscalização das que estão em curso, também é visto como um ativo da campanha que culminou no crescimento na pesquisa. Entregas nas áreas de saneamento e saúde são outros motivos pelos quais a governadora teria crescido, segundo a avaliação interna .

Corrente da discórdia

Aliados de Campos, por sua vez, associam o crescimento de Lyra ao que chamam de uma campanha negativa nas redes sociais contra o ex-prefeito. Um dos exemplos de ataques virtuais citados pela equipe do presidente nacional do PSB deriva de um vídeo no qual Campos tira uma correntinha de ouro, que usa diariamente, antes de participar de agendas públicas.

Nas redes, o ex-prefeito foi acusado por internautas de esconder a corrente para evitar roubos. Campos respondeu, em vídeo, afirmando ser “lamentável” desvirtuar um fato para fazer “uso distorcido político”. O pessebista alega que tirava o acessório para evitar ruídos captados por microfones em gravações.

A equipe de Lyra nega a ocorrência de ataques virtuais a Campos e defende que a pauta da governadora durante o período pré-eleitoral é a sua gestão. Para aliados de Lyra, o “desgaste” do ex-prefeito é fruto do que chamam de um “acúmulo de erros” à frente da administração municipal.

Um dos exemplos citados é a polêmica em torno da modificação do resultado de um concurso público para procurador municipal. Com a alteração em Recife, a vaga ficou com o filho de uma procuradora do Ministério Público de Contas (MPCO) e de um juiz do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). Após a repercussão do caso, Campos voltou atrás e cancelou a nomeação.

Ernani Carvalho, professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), avalia que Lyra fez a “lição de casa” ao construir alianças locais que lhe garantem palanques fortes pelo estado.

— Ela trocou de partido e adentrou em uma legenda com mais musculatura política nacional (trocou o PSDB pelo PSD). Também fez alianças importantes com prefeitos e deputados, sejam estaduais ou federais — diz Carvalho, citando ainda o repasse de recursos para prefeituras como fator importante para o aumento da popularidade.

Já o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), relaciona o crescimento de Lyra com a entrega de obras e com a aposta em temas locais:

— Embora o cenário nacional influencie os estados, Lyra conseguiu construir uma agenda própria de resultados concretos da gestão e evitou, até aqui, que a disputa local seja absorvida pela conjuntura presidencial.

Na mesma linha, Luciana Santana, cientista política da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), entende que o crescimento de Lyra decorre do uso da máquina, seja em agendas ou na entrega de obras, principalmente no interior.

— Especialmente no Sertão e em parte do Agreste, o eleitor costuma valorizar agendas mais vinculadas a abastecimento hídrico, agricultura e pecuária, estradas e segurança pública. Isso favorece a governadora e traz um desafio para Campos: convencer o eleitor de que ele compreende essas demandas com a mesma profundidade que conhece os problemas do Recife — afirma Santana