Poder e Governo
Acesso restrito a Bolsonaro gera ruídos na definição de palanques estaduais e gera insatisfação entre aliados
Embora não admitam publicamente a existência de qualquer problema na interlocução com o ex-presidente, aliados reconhecem que há dificuldades práticas
Mesmo em prisão domiciliar e com comunicação restrita, o ex-presidente exerce influência sobre decisões estratégicas da pré-campanha do senador (PL-RJ) ao Palácio do Planalto. Temas considerados centrais para a construção da candidatura seguem passando pelo crivo do ex-presidente, incluindo a definição de palanques estaduais.
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A dinâmica imposta pelas restrições judiciais tem exigido adaptações por parte dos aliados. Como o acesso a Bolsonaro ficou concentrado nos filhos e na ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, interlocutores da pré-campanha afirmam que as orientações e avaliações do ex-presidente passaram a chegar ao restante do grupo por meio desses canais de comunicação, principalmente o senador.
Embora não admitam publicamente a existência de qualquer problema na interlocução com o ex-presidente, aliados reconhecem que essa dinâmica criou dificuldades práticas para parte do grupo político. Interlocutores relatam que nem sempre é simples acompanhar ou confirmar determinadas avaliações atribuídas ao ex-presidente que circulam nos bastidores da pré-campanha.
Sem checagem
Aliados traduzem o incômodo afirmando que a nova configuração dificulta a checagem de informações e amplia o peso político daqueles que fazem a interlocução com Bolsonaro. Segundo esses relatos, tornou-se mais comum que decisões, orientações ou avaliações cheguem ao restante do grupo acompanhadas da justificativa de que representam a vontade do ex-presidente. Procurado, Flávio não se manifestou.
O questionamento, contudo, é rebatido por aliados mais próximos de Flávio, que afirmam confiar plenamente na interlocução feita por ele com o pai e rejeitam a existência de qualquer problema relacionado à transmissão de orientações ou posicionamentos de Bolsonaro.
Líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) é um dos que minimiza esse tipo de preocupação. Segundo ele, a influência do ex-presidente sobre a campanha é pública e facilmente verificável. Na avaliação de Sóstenes, qualquer orientação relevante dada por Bolsonaro acaba rapidamente repercutindo entre aliados, na imprensa ou nas próprias movimentações da pré-campanha. Por isso, argumenta, seria difícil que posicionamentos atribuídos ao ex-presidente não correspondessem efetivamente ao que ele pensa sobre os rumos da candidatura de Flávio.
Bolsonaro está em prisão domiciliar desde o fim de março, quando o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou sua permanência em casa por 90 dias após uma internação decorrente de complicações de saúde.
Se na Superintendência da Polícia Federal do Distrito Federal e, depois, na Papudinha Bolsonaro era autorizado a receber políticos, agora em casa ele só mantém contato com Michelle e os filhos, além de advogados, médicos, fisioterapeutas e funcionários responsáveis pelos cuidados da residência.
Nesse contexto, Flávio passou a exercer papel central na interlocução entre o ex-presidente e o restante do grupo político. Segundo aliados, é por meio dele que chegam a Bolsonaro informações sobre as articulações da campanha e retornam avaliações, orientações e posicionamentos sobre decisões estratégicas.
— É evidente que ele (Flávio) consulta o pai nas visitas semanais que faz, porque é um absurdo o que acontece hoje com Bolsonaro, que tem acompanhamento policial dentro de casa — afirma o senador Izalci Lucas (PL-DF), pré-candidato ao governo do Distrito Federal.
Mapa dos palanques
A influência do ex-presidente se manifesta diretamente nas negociações eleitorais em andamento nos estados. Bolsonaro acompanha de perto a definição de candidaturas majoritárias e tem participação ativa especialmente nas discussões sobre as chapas ao Senado.
Publicamente, o próprio Flávio tem afirmado que alguns dos principais impasses enfrentados atualmente pela pré-campanha só serão resolvidos após uma manifestação do pai. É o caso do Rio, onde o grupo político precisou recalibrar seus planos após o ex-governador Cláudio Castro (PL), pressionado por investigações da Polícia Federal, desistir de disputar uma vaga ao Senado, e também de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país.
A equipe coordenada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN) trabalha na elaboração de um diagnóstico dos palanques. O material deve ser levado a Bolsonaro ainda neste mês para que o ex-presidente dê sua palavra final.
A expectativa na campanha é que o aval do ex-presidente destrave negociações e reduza disputas internas.
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