Poder e Governo
'Redes sociais são inimigas da verdade e da confiança', diz vencedor do Pulitzer
Fórum organizado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), terminou na última quarta-feira, e reuniu juristas, economistas e políticos, da América Latina e Europa
Vencedor de três prêmios Pulitzer, o mais importante do jornalismo mundial, o americano Thomas L. Friedman criticou o papel das redes sociais que, na sua visão, defendeu para os ataques à confiança e à verdade — pilares fundamentais das democracias. Para o colunista de política internacional do New York Times, as plataformas estabelecidas para descredibilizar as instituições ao permitirem a relativização da informação verificada e verdadeira e, assim, tornam-se ambientes que intensificam a polarização extrema.
Juntos no palco, separados nas redes:
Leia mais:
— As redes sociais são inimigas da verdade e da confiança. O modelo de negócio deles não é te informar, é te provocar — afirmou Friedman, em aula magna durante o XIV Fórum de Lisboa, promovido pelo IDP, pelo Lisbon Public Law (LPL) e pela FGV Justiça. — A democracia assenta na verdade e na confiança. Sem elas não conseguiram resolver problemas.
O fórum, organizado pelo ministro, do Supremo Tribunal Federal (STF), terminou na última quarta-feira, e reuniu juristas, economistas e políticos, da América Latina e Europa. O evento, que nos últimos anos foi alvo de críticas pela presença de autoridades dos três Poderes e pelos patrocínios, discutiu temas que vão da inteligência artificial e big techs à política internacional e ao futuro da ciência.
Sobre IA, Friedman costuma usar a expressão “segundo Big Bang” para definir a ruptura que o homem experimenta.
— O homem criou a inteligência artificial que supera a capacidade do cérebro humano, alterou o clima, criou o ciberespaço como uma nova galáxia, dividiu o átomo, que pode destruir o mundo, inventou a aprendizagem profunda e se aproxima do momento em que terá computação quântica, fusão energética e IA em simultâneo — elencou o jornalista, que defendeu colaboração entre EUA e China para criar legislações.
— Ou aprenderemos a colaborar com ela, ou seremos o seu animal de estimação. A única maneira de lidarmos com a IA é se ambos os países construírem legislação e ética em conjunto. Se não o fizerem, haverá um problema sério com os dados e com quem os detém.
Vencedor do Nobel
Avanço tecnológico aliado a instituições confiáveis também permitiu a aula magna do economista Joel Mokyr, professor da Northwestern University e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2025. Ao analisar os fatores que historicamente sustentam o crescimento econômico dos países, Mokyr destacou que as prosperidades dependem da combinação desses dois fatores. Segundo ele, a incorporação tecnológica depende da confiança nas instituições, pois garante que as informações produzidas e repassadas são fidedignas.
Mokyr ressaltou ainda o papel da ciência como motor da inovação e alertou para ameaças democráticas promovidas pelo populismo e pela xenofobia, muitas vezes baseadas na desinformação e no preconceito, que comprometem o ciclo de inovação. Por isso, o fortalecimento das instituições é essencial para a preservação da democracia, disse.
— É provável que uma política populista jogue fora o progresso junto com o elitismo, e geralmente o substitua por uma elite muito pior. Uma das maneiras pelas quais a tecnologia e a ciência avançam é por meio da migração de pessoas para os lugares onde elas podem ser mais produtivas — afirmou o economista, que deu o exemplo do Vale do Silício, nos EUA, onde os imigrantes têm acima da média.
A xenofobia também foi tema da fala de Luís Neves, Ministro da Administração Interna de Portugal, que colocou a massificação das notícias falsas, dos crimes de ódio e do populismo como dos “grandes focos de ameaça à nossa forma de vida”, baseados no respeito pela diversidade.
— Há uma deturpação ocorrida nos últimos anos, principalmente no período pós-pandemia, e que ainda não encontramos o antídoto para combater. Essa é uma área onde se alavancam caminhos do populismo, sustentados na massificação de fake news — disse.
Combate às notícias falsas
O ministro, em discurso na última quarta-feira, elogiou as ações brasileiras de combate às fake news, que são os instrumentos do discurso de ódio, frisou.
— Sei que o Brasil tem feito um grande percurso nesse tema, de redução curta e rápida daquilo que é esse tipo de comunicação.
Ex-diretor da Polícia Judiciária de Portugal, Neves também falou de tecnologia sob o ponto de vista da segurança pública. Ele cobrou maior equilíbrio entre o direito à privacidade e a investigação de crimes cibernéticos, como pornografia infantil. Segundo o ministro, o lobby das big techs impede o acesso a conversas criptografadas
— Parece que há vigilância permanente sobre a privacidade (por parte do estado), e isso é absolutamente falso. Apenas uma pequeníssima parte de telefones pode ser interceptada, se houver suspeita de crime grave, com crivo do juiz — disse Luís Neves, que se queixou ao Parlamento Europeu sobre a impossibilidade de se acessar os metadados das redes sociais. — Só há liberdade se houver segurança e só há segurança se cada um de nós estiver disposto a abdicar muito pouco da nossa privacidade. É a única forma de termos esse equilíbrio.
Mais lidas
-
1DIREITOS TRABALHISTAS
Quando começa a valer a escala 5x2?
-
2JULGAMENTO DO CASO HENRY BOREL
Filha de ex-namorada de Jairinho relata agressões sofridas na infância
-
3EDUCAÇÃO
Vestibular Unicamp 2027: confira os temas mais recorrentes na prova
-
4ATAQUE NA PRAIA DE PIEDADE
Menino de 11 anos é atacado por tubarão e passa por cirurgia em Pernambuco
-
5PERFIL | JUSTIÇA
Quem é a juíza Elizabeth Machado Louro, responsável pelo julgamento do Caso Henry Borel