Poder e Governo
Relação Lula-Trump e ganhos eleitorais: como especialistas avaliam as novas tarifas americanas ao Brasil
Para cientistas políticos e diplomatas, é preciso esperar negociações para entender sinais do americano; auxiliares da Casa Branca e tempo até outubro são desafios
O anúncio de um novo tarifaço de 25% dos EUA sobre exportações brasileiras testará a relação construída no último ano entre os presidentes Luiz Inácio da Silva e , além de gerar munição para governistas e oposicionistas às vésperas da campanha eleitoral do Brasil. Esta é a avaliação de cientistas políticos e especialistas em relações internacionais consultados pelo GLOBO, que enxergam diferenças entre a medida dessa terça-feira e o tarifaço original, de 50%, aplicado em agosto de 2025.
Desdobramentos:
'Estou esperando telefonema dele':
Desde então, Lula e Trump haviam exaltado a “química” entre ambos na Assembleia-Geral da ONU, em setembro, e engataram reuniões bilaterais em tom amistoso, inclusive com uma visita do brasileiro à Casa Branca, no mês passado. Nesse meio-tempo, Trump suspendeu por conta própria a maior parte das tarifas sobre o Brasil, antes de a Suprema Corte declarar a medida ilegal no início deste ano.
O ex-embaixador Rubens Barbosa avalia que é preciso aguardar a janela para negociações entre os dois presidentes, de agora até o início de julho, para avaliar quais os sinais Trump está enviando com as medidas e quais impactos para a relação.
— Até esse prazo de julho, não dá para falar em interferência do presidente Lula junto ao presidente Trump. Também não acho que tenha havido influência dos Bolsonaro. Trata-se de algo que os EUA estão fazendo com todos os países, não só com o Brasil — afirmou Barbosa.
Muito além da ‘química’
Na avaliação de Barbosa, fatores alheios ao relacionamento presidencial pesaram mais nos desdobramentos até aqui. A despeito da aproximação com Trump, Lula tem trocado hostilidades com nomes influentes da gestão trumpista que dialogam com a família Bolsonaro — caso do secretário de Estado Marco Rubio e do próprio representante do USTR (órgão de representação comercial americano), Jamieson Greer, que assina a proposta do novo tarifaço. Outro fator que incomodou os americanos, segundo especialistas, foi a recente posição do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), de barrar uma proposta dos EUA que geraria isenção de tarifas às big techs.
Ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral diz que se construiu uma “interlocução de alto nível entre os presidentes”, mas pondera que essa relação pode ser insuficiente para barrar nova tarifa.
— Há uma expectativa, sim, de que Lula e Trump possam falar e alinhar o resultado final. Mas o tempo é escasso para um tema complexo como este — afirmou Barral.
Todas essas investigações se baseiam na Seção 301 da Lei de Comércio americana, invocada pela gestão Trump após a Suprema Corte avaliar que o presidente não tem a prerrogativa de decidir unilateralmente a aplicação de tarifas, como vinha fazendo até então.
A ofensiva atual do governo americano contra exportações do Brasil, porém, ocorreu em um cenário mais amplo de reveses ao governo Lula. Ela veio poucos dias depois de uma visita do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Trump, e também após Rubio ter anunciado a reclassificação das facções criminosas PCC e Comando Vermelho como “organizações terroristas”, o que abre brecha para possível intervencionismo americano e de prejuízo a empresas no Brasil.
‘Batalha de narrativa’
Especialista em marketing político, Marcelo Vittorino avalia que essas medidas reabrem a frente de disputa entre as campanhas de Lula e de Flávio em torno do tema da soberania. Para ele, Lula tentará reeditar o aumento de popularidade que colheu no tarifaço de 2025, quando classificou ações da família Bolsonaro como prejudiciais ao país. Flávio, por sua vez, buscou ontem transferir a responsabilidade para o governo petista, que acusou de adotar um “discurso anti-americano” com “tom agressivo”, o que se junta à estratégia de se contrapor ao governo na área de segurança.
— A campanha do Lula vai colocar Flávio como inimigo do Brasil, enquanto a direita vai falar que a falta de uma postura equilibrada e de compromisso contra o crime organizado estão provocando isso. No fim, é uma guerra de narrativas — diz Vittorino.
Já o diretor da Escola de Comunicação da FGV, Marco Aurélio Ruediger, considera que o novo tarifaço pode ter um “efeito duradouro” e se estender até a campanha eleitoral de outubro.
— O caso vai ser muito utilizado até outubro e vai ter um efeito duradouro porque mexe com a defesa da independência do Brasil — diz Ruediger, que vê o governo com “uma oportunidade grande” de explorar o caso a seu favor.
Apoiadores do governo e da oposição já usaram o tarifaço como munição nas redes sociais ontem. Aliados de Flávio recorreram a uma fala de Marco Rubio, que excluiu o Brasil ao listar países “amigáveis” aos EUA. Já apoiadores de Lula repercutiram uma fala do presidente, que chamou os Bolsonaro de “traidores”.
Mais lidas
-
1DIREITOS TRABALHISTAS
Quando começa a valer a escala 5x2?
-
2JULGAMENTO DO CASO HENRY BOREL
Filha de ex-namorada de Jairinho relata agressões sofridas na infância
-
3EDUCAÇÃO
Vestibular Unicamp 2027: confira os temas mais recorrentes na prova
-
4ATAQUE NA PRAIA DE PIEDADE
Menino de 11 anos é atacado por tubarão e passa por cirurgia em Pernambuco
-
5RESGATE NO LITORAL PAULISTA
Mulher resgatada após mais de 40 horas no mar recebe alta: 'Continuem orando pelo meu colega'