Poder e Governo
Auditoria interna da Cedae aponta prejuízo de R$ 220 milhões com Master e roteiro semelhante ao do Rioprevidência
Investigação aponta que aportes na companhia começaram dias depois de jantar de Cláudio Castro com Vorcaro em Nova York; ex-governador nega interferência nos investimentos da empresa
Uma auditoria interna da Cedae concluiu que a companhia pode ter perdido mais de R$ 220 milhões aplicados no Banco Master e identificou um processo de investimento semelhante ao adotado pelo Rioprevidência, que também destinou recursos à instituição financeira. Os documentos, obtidos pela GloboNews, mostram que o governo do Rio aplicou quase R$ 4 bilhões no banco, sendo cerca de R$ 3,7 bilhões por meio do fundo previdenciário estadual e R$ 237 milhões pela Cedae.
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Segundo a investigação, quando começaram as negociações para um aporte de R$ 200 milhões, em 2023, o Banco Master não atendia aos critérios previstos na política de investimentos da estatal. O relatório aponta que a instituição tinha classificação de risco inferior à exigida e era avaliada por apenas uma agência de rating. Meses depois, porém, as regras internas foram alteradas, passando a permitir investimentos exatamente no perfil apresentado pelo banco.
A apuração foi aberta pela atual gestão da companhia após a perda dos recursos e teve seu relatório encaminhado pelo presidente da Cedae, Rafael Rolim, à diretoria da estatal, com recomendação de envio aos órgãos de controle. No sábado (30), o blog do jornalista Octávio Guedes revelou que a auditoria concluiu que a diretoria financeira ignorou alertas internos sobre a deterioração da situação do Banco Master e que o prejuízo ultrapassou R$ 222 milhões.
O documento também aponta suspeitas de negligência, dolo sistêmico, fraude e risco ao patrimônio da empresa. Entre os principais responsáveis citados está o então diretor administrativo-financeiro da Cedae, Antonio Carlos dos Santos.
Cronologia mostrou que Master era inelegível
A auditoria reconstituiu a cronologia da operação e concluiu que o Banco Master era considerado inelegível pelas regras vigentes. Em março de 2023, a Cedae aprovou uma política que exigia classificação mínima equivalente a “A-” e avaliação de pelo menos duas agências independentes. Em julho daquele ano, a diretoria financeira recebeu documentos do banco com nota “BBB-”, emitida pela Fitch, o que, segundo os auditores, deveria ter levado à desclassificação imediata da instituição. Em vez disso, a política foi revista e aprovada novamente em setembro, com flexibilização dos critérios de risco e rating.
Outro ponto destacado pela investigação é que as negociações começaram antes do que havia sido informado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Registros de acesso à sede da companhia mostram uma reunião entre representantes do Banco Master e integrantes da diretoria financeira em 17 de maio de 2023, mais de um mês antes da data apontada pela administração da empresa como primeiro contato formal. A auditoria também identificou uma viagem de Antonio Carlos dos Santos e assessores a São Paulo para reunião com Maurício Quadrado, então sócio e co-CEO do banco.
Segundo os auditores, as tratativas permaneceram concentradas na Diretoria Financeira e em um grupo restrito de assessores, sem compartilhamento adequado de informações com outras áreas da companhia. Os alertas sobre riscos reputacionais e financeiros só começaram a surgir quando outros setores passaram a ter conhecimento da operação.
A segunda etapa da investigação analisou a gestão do investimento após a aplicação dos recursos. O relatório afirma que, a partir de 2025, diferentes áreas da Cedae passaram a alertar para a situação financeira do Master e recomendar medidas para reduzir a exposição da estatal. Ainda assim, a diretoria financeira teria demorado a reagir. Quando a companhia buscou recuperar integralmente os recursos, em setembro de 2025, o banco já enfrentava problemas de liquidez. Em novembro, uma parcela prevista para devolução dos valores não foi paga e, no dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição.
Reunião 6 dias após de jantar de Castro e Vorcaro
A auditoria registra ainda que a primeira reunião identificada entre representantes do Banco Master e a diretoria financeira da Cedae ocorreu seis dias após um jantar oferecido pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao então governador Cláudio Castro, em Nova York. O encontro foi revelado em investigação da Polícia Federal que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). Os auditores, porém, ressaltam que não estabeleceram qualquer relação entre o jantar e os investimentos realizados pela estatal.
O que dizem os citados
Em nota, Antonio Carlos dos Santos afirmou repudiar “de forma veemente” as alegações de omissão de informações ao Conselho de Administração. Segundo ele, todas as etapas da política de investimentos foram acompanhadas pelo colegiado, que recebia relatórios mensais sobre as aplicações financeiras. O ex-diretor disse ainda estar tranquilo em relação aos seus atos de gestão e confiante de que os fatos serão esclarecidos.
A atual gestão da Cedae informou que exonerou os responsáveis pelos aportes no Banco Master, promoveu mudanças na política de investimentos e retirou indicações políticas da diretoria financeira e da área de relações com investidores. A companhia afirmou ainda que adotará medidas para identificar responsabilidades, calcular o prejuízo definitivo e buscar o ressarcimento dos cofres públicos.
Já Cláudio Castro declarou que não interfere nas decisões de investimento da Cedae. O ex-governador afirmou que as alterações na política de aplicações seguiram os trâmites internos da companhia e foram aprovadas por unanimidade, além de negar qualquer relação entre o jantar em Nova York e os aportes realizados pela estatal.
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