Poder e Governo
Governo teme impactos no Pix após EUA classificarem PCC e CV como terroristas
Autoridades acompanham possíveis efeitos da decisão americana e avaliam riscos de sanções ao sistema de pagamentos brasileiro
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha com preocupação a decisão dos Estados Unidos de classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, temendo possíveis riscos ao Pix.
O receio é que autoridades americanas possam alegar que o sistema de pagamentos facilita a circulação de dinheiro do crime organizado, o que abriria espaço para sanções a bancos e instituições financeiras que operam com o Pix.
O tema está sendo monitorado de perto, e ainda há incertezas sobre quais mecanismos os EUA poderiam adotar para interferir no modelo brasileiro de pagamentos e quais seriam os impactos práticos dessas medidas.
Dois ministros ouvidos pelo GLOBO expressaram preocupação. Um deles classificou eventuais desdobramentos como de "gravidade tremenda". Outro falou em "risco iminente" para o Pix.
A apreensão é compartilhada por auxiliares próximos de Lula no Palácio do Planalto, especialmente porque a Casa Branca já manifestou insatisfação com o sistema criado pelo Banco Central do Brasil.
Em julho do ano passado, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA abriu investigação sobre supostas práticas financeiras desleais que afetariam grandes empresas americanas, especialmente bandeiras de cartão de crédito. A apuração ocorre sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
O Pix é considerado um tema sensível para o governo brasileiro e tem grande aceitação popular, por desburocratizar operações financeiras. Na última visita à Casa Branca, Lula pediu ao então presidente Donald Trump o encerramento da investigação comercial. Internamente, o assunto é conduzido pelo ministro da Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, e pelo representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, que mantêm diálogo frequente.
A preocupação ficou explícita na nota oficial divulgada nesta sexta-feira, primeira reação do governo após a decisão americana:
“Medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida das pessoas que nada têm a ver com o crime. Podem reduzir a capacidade de compartilhamento de informações entre as polícias. Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o Pix, que incomodam interesses estrangeiros.”
O governo também pretende reforçar o discurso de defesa da soberania nacional. O Pix, amplamente aceito pela sociedade, é visto como ferramenta de modernização econômica. A partir de agora, o Planalto deve adotar uma linha política que acusa a família Bolsonaro de agir contra os interesses do Brasil e de ter influenciado a decisão dos EUA ao classificar as facções como terroristas.
Em nota, o governo Lula rejeitou qualquer "interferência" e afirmou que a soberania é "inegociável". O texto atribui a medida a uma "manipulação política" realizada por "falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado":
"A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros", diz a nota do Planalto.
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