Poder e Governo
Haddad tenta colar decisão de classificar PCC e CV como terroristas em Tarcísio: 'Deram um tiro no pé'
Petistas devem reforçar discurso de soberania nacional e ressaltar possíveis impactos econômicos, enquanto direita avalia que decisão foi uma vitória de Flávio e endurece discurso 'linha dura'
A decisão dos Estados Unidos de classificar como facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas foi vista como uma vitória para a direita bolsonarista, enquanto a esquerda reagiu com o discurso de defesa da soberania nacional. Em São Paulo, Fernando Haddad (PT) agitou o mesmo tom do presidente Lula (PT) ao se manifestar sobre o caso, enquanto o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) destacou o papel de Flávio Bolsonaro (PL) na medida.
Em nota divulgada nesta sexta-feira (29), o governo federal criticou a medida, disse rejeitar qualquer “interferência” e afirmou que a soberania é “inegociável”. No texto, há críticas diretas à família Bolsonaro e ao governo atribuiu a decisão de Donald Trump a uma "manipulação política" feita por "falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado". O próprio presidente também disse, em discurso nesta manhã, que as facções são “terroristas para os brasileiros e não como Trump quer”.
Trazendo o tema para a disputa local, Haddad propôs o mesmo tom de defesa da soberania nacional e colou a medida não só em Flávio, mas também em Tarcísio, seu principal adversário na disputa ao governo de São Paulo.
— O Tarcísio e o Flávio deram um novo tiro no pé. Eles apoiaram a tarifaço dos Estados Unidos no Brasil, e agora o Tarcísio e o Flávio dão um segundo tiro no pé — disse durante entrevista à rádio Jovem Pan de Avaré (SP) — Com essa decisão, a tentativa dos EUA é colocar o Brasil numa relação de subserviência e o Tarcísio e o Flávio estão comemorando isso, são pessoas que estão causando estrago na soberania do país.
Ainda na noite desta quinta-feira (28), horas após a divulgação do comunicado dos Estados Unidos sobre a medida relacionada ao PCC e ao CV, Tarcísio fez uma publicação nas redes sociais na qual chama as duas facções de terroristas e elogia Flávio.
“PCC e CV não são facções: são terroristas armados contra o povo brasileiro e com atuação além das nossas fronteiras. Quem domina territórios, exige toque de instalação, mata inocentes e desafia o Estado pratica terror. O Brasil não pode mais ser refém de bandido. Terrorista tem que estar atrás das notas, sem relativização. Parabéns ao senador Flávio Bolsonaro pela articulação firme e necessidade”, falou.
O posicionamento de Tarcísio vai na mesma linha de outras lideranças da direita, que consideraram a decisão dos EUA uma política de vitória para Flávio. O senador e pré-candidato à presidência da República se reuniu com Trump na última terça-feira (26), ocasião na qual pediu o enquadramento de duas facções criminosas como terroristas. O governo sempre se manifestou contra a medida, por receber de que isso pode abrir brechas para interferência americana no território brasileiro.
O pré-candidato ao Senado de São Paulo pelo PL, André do Prado, também surfou no tema e fez postagem no X, sem emitir opinião. “Após reuniões do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, com Donald Trump, JD Vance e Marco Rubio na Casa Branca, os Estados Unidos anunciaram a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas”, escreveu Prado.
Já o também postulante ao senador Guilherme Derrite (PP-SP) foi outro a usar as redes para marcar presença e, ao contrário de Prado, declaração de justiça de valor. "PCC e CV são terroristas. Ponto. A decisão dos EUA confirma aquilo que milhões de brasileiros já sabem na prática. Parabéns ao senador @FlavioBolsonaro pela articulação. O combate ao crime organizado exige firmeza e cooperação internacional".
Petistas ouvidos pela GLOBO nesta sexta minimizam o impacto positivo que isso pode ter para a campanha de Flávio, que veio numa baixa desde que veio à tona suas relações com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A avaliação das lideranças da sigla do presidente Lula e também dos partidos aliados é que o governo tem tentado mostrar que já vem combatendo o crime organizado, e que é necessário reforçar o problema com as facções ao mesmo tempo em que se defendem a soberania nacional.
Outro aspecto que deve ser ressaltado na esfera nacional, mas com mais afinco por Haddad em São Paulo, é que a medida de Trump pode impactar o mercado brasileiro. Conforme reportagem mostrada do GLOBO, analistas do mercado financeiro e membros do Ministério Público avaliaram que a decisão poderia aumentar os riscos jurídicos e reputacionais para empresas americanas que investem no Brasil ou que fazem qualquer tipo de negócio com empresas brasileiras.
Por isso, o discurso também deve enfatizar esses riscos, um exemplo do que foi feito no tarifaço dos EUA contra o Brasil. Naquela ocasião, o mesmo Tarcísio, que de início se posicionou a favor do tarifaço, passou a agir nos bastidores para conter os efeitos negativos que a tributação das exportações brasileiras causaram na indústria, especialmente no setor agropecuário paulista.
O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que “enfraquecer empresas brasileiras e os interesses econômicos do Brasil não pode ser ganho eleitoral”.
— Ao contrário, o que a família Bolsonaro fez foi ferir a soberania brasileira, foi ferir os interesses das empresas brasileiras, foi ferir os interesses do sistema financeiro brasileiro. Eu acho que ninguém pode capitalizar politicamente enfraquecendo o país. O Brasil é um país soberano, pois nossas empresas são empresas fortes. O sistema financeiro brasileiro é robusto, tomar medidas para enfraquecer e colocar em risco tudo isso, eu penso que, ao contrário, faz perder apoio eleitoral – disse a jornalistas durante evento da Fundação Perseu Abramo, braço teórico do PT.
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