Poder e Governo
Investigadores avaliam que Vorcaro precisa aprofundar relações políticas e trazer mais provas em nova proposta de delação
Primeira tentativa foi rechaçada pela PF, mas negociações foram retomadas após mudança na defesa do banqueiro
Os investigadores envolvidos nas negociações para a delação premiada de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, avaliam que ele precisará discutir os detalhes das relações políticas que mantinham e apresentar provas que corroborem frentes de apuração já em andamento.
O banqueiro ganhou uma segunda chance para tentar fechar uma colaboração com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal, depois de uma primeira tentativa ter sido recusada pela PF. A expectativa entre os pesquisadores é que o acordo só será apresentado se ele "ampliar o escopo" das apurações sobre as fraudes bilionárias do Master, liquidado em novembro do ano passado pelo Banco Central diante das fraudes.
Além de fornecer mais informações sobre as negociações, a PGR e a PF esperam a admissão das irregularidades praticadas por eles, o que não aconteceu na primeira proposta, e o passo a passo de como ele movimentou bilhões de reais por meio de uma teia de fundos nacionais e internacionais. O objetivo é obter de Vorcaro uma peça de reposição de cerca de R$ 60 bilhões como condição para a assinatura do acordo.
O cálculo leva em conta o prejuízo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), a perda que o BRB teve na compra de carteiras falsas do Master e o volume destinado a fundos de previdência estaduais e municipais, como o Rioprevidência e o Amprev (do Amapá).
Um encontro entre a defesa de Vorcaro e integrantes da PGR pode acontecer nesta sexta-feira, como mostrou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO. As novas informações que ele pretende precisam ser acompanhadas de provas documentais ou indicação de caminhos para os pesquisadores confirmarem os relatos.
Após ter descartado o primeiro conjunto de anexos, considerados "seletivos" e "insuficientes", a Polícia Federal se colocou à disposição para voltar à mesa de negociações com a defesa de Vorcaro nesta semana. Em um ofício enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, a corporação se disse aberta para receber uma nova proposta.
A PF, no entanto, deixou claro que pretende fazer “jogo duro” com o banqueiro, que na primeira oportunidade omitiu relatos de interesse dos investigadores, como o suposto pagamento de uma mesada ao senador e presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), que foi alvo de uma operação de busca e apreensão e negação de irregularidades.
Sem 'contaminação eleitoral'
Segundo a coluna de Bela Megale, a PF pediu a Mendonça que defina um prazo para que a delação seja concretizada. O mês de julho é visto como um prazo ideal para evitar que a colaboração seja contaminada com o período eleitoral.
A PGR, por sua vez, também recentemente a primeira versão “muito frágil”, mas não deixou a mesa de negociações como fez a PF. Para os procuradores, é natural que haja um vaivém da proposta tendo em vista a magnitude do suposto esquema. Após ser formalizado, o acordo precisa ser aprovado por Mendonça, que já deu sinais de que não dará o seu aval se a colaboração não avança em relação ao que já foi descoberto.
A troca recente na coordenadoria da defesa de Vorcaro foi vista como um sinal de que o banqueiro está disposto a contar mais sobre o que sabe em troca dos benefícios penais. A função do criminalista José Luis Oliveira, o Juca, foi assumida pelo também criminalista Sérgio Leonardo, que já vinha acompanhando Vorcaro desde o ano passado e se mudou mais depois que ele foi preso, em março.
A expectativa é que, com a mudança na defesa, o banqueiro abandone uma postura considerada “seletiva” e entregue detalhes sobre movimentações financeiras, patrimônio oculto e recursos suspeitos desviados, inclusive no exterior. Apesar disso, o pesquisador diz ainda não ter certeza de que Vorcaro está disposto a avançar nesse nível de detalhamento
Enquanto o acordo não sai do papel, a PF e a PGR avançaram nas investigações a partir da análise de 8 celulares que foram apreendidos com Vorcaro e o cruzamento desses dados com relatórios produzidos pelo Banco Central e Receita, relatórios de inteligência financeira e o conteúdo de aparelhos de outros alvos.
Desde a semana passada, Vorcaro se encontra preso numa sala de Estado Maior na Superintendência da PF em Brasília — a mesma onde ficou o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado no processo da trama golpista. Quando a delação parecia ter sido descartada, ele fora removido de uma cela de passagem onde o acesso aos advogados era mais restrito. Ele foi novamente transferido ao local por decisão de Mendonça numa sinalização de que ele terá uma segunda chance.
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