Poder e Governo
Sob comando da família Feijó, FAF movimenta milhões e levanta suspeitas
Uma engenhosa estrutura formada por institutos privados ligados à Federação Alagoana de Futebol (FAF) movimentou mais de R$ 6 milhões em recursos públicos no último ano, por meio de emendas parlamentares, e levanta questionamentos sobre transparência, governança e possível esvaziamento de mecanismos de controle sobre verbas destinadas ao futebol alagoano.
No centro da engrenagem está Felipe de Omena Feijó, presidente da FAF há 12 anos. Filho de Gustavo Feijó, ex-presidente da entidade e atual diretor de Futebol Masculino da CBF, Felipe criou, em 2017, o Instituto FAF de Potencial Pleno (IFPP), entidade privada que tem a própria federação como sócia instituidora e mantenedora.
O estatuto do IFPP prevê, entre seus objetivos, “gerenciar e receber recursos em nome da sócia instituidora”. Na prática, receitas que poderiam ingressar diretamente na federação passam a circular por uma organização privada, o que, segundo especialistas em governança esportiva ouvidos pela reportagem, pode reduzir o nível de transparência e dificultar o acompanhamento público da movimentação financeira.
A suspeita ganha força diante de um precedente recente no Maranhão. Em caso semelhante, o Ministério Público daquele estado apontou que a utilização de um instituto para movimentar recursos da federação local representaria “falta de transparência, fraude, desvio de finalidade, confusão patrimonial, governança temerária e prestação de contas deficiente”. O MP classificou a entidade como uma “conta de passagem” e uma “estrutura artificial destinada a contornar controles financeiros e jurídicos”.
No caso alagoano, a FAF possui dívida ativa na Fazenda que ultrapassa R$ 6,2 milhões. A existência de institutos privados vinculados à federação levanta questionamentos sobre a possibilidade de deslocamento da movimentação financeira para entidades que não respondem diretamente pelas obrigações fiscais da FAF.
Somente em emendas parlamentares estaduais, foram empenhados R$ 6,3 milhões para essa estrutura, segundo resposta obtida via Lei de Acesso à Informação. Os recursos partiram de deputados como Gilvan Barros Filho, Antônio Albuquerque, André Silva, Dudu Ronalsa e Delegado Leonam. Há ainda registro de emenda municipal de R$ 920 mil, apresentada pela vereadora Gaby Ronalsa, para o IFPP, valor que, segundo a FAF, não foi pago.
Além do IFPP, Felipe Feijó também criou, em 2022, o Instituto FAF de Aprimoramento, Gerenciamento e Pesquisa (IFAGP), conhecido como Instituto Nossa Senhora das Graças. Em 2024, a entidade se desvinculou da Federação Alagoana de Futebol.
Outro ponto que chama atenção está no balanço da FAF. As contas de 2024 registram empréstimos feitos pelo próprio presidente à entidade: R$ 463 mil em 2023 e R$ 563 mil em 2024, totalizando mais de R$ 1 milhão em dívida da federação com seu mandatário. A irmã de Felipe, Mariana Feijó, também aparece como credora da FAF por meio da empresa Uniball Sports Administração Market, com R$ 160 mil registrados em dois anos.
Em resposta, a FAF afirmou que o IFPP é uma entidade civil sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, criada para apoiar projetos esportivos e sociais ligados ao futebol. A federação negou que o instituto substitua a entidade e disse que a atuação é “conjunta, coordenada e complementar”.
Sobre os recursos, a FAF informou que os valores estão vinculados a planos de trabalho e termos de fomento distintos. A entidade também afirmou que suas contas foram aprovadas pelos clubes filiados e que o IFPP contribui para a execução de competições, categorias de base e ações sociais.
A Confederação Brasileira de Futebol informou que realiza repasses regulares às federações estaduais e que cabe a elas prestar contas dos recursos. Sobre questões envolvendo familiares de dirigentes, afirmou tratar-se de assuntos de natureza privada.
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