Poder e Governo

Derrota de Lula com rejeição de Messias sepulta relação com Senado, e governo aposta em Motta por agenda até eleição

Base do governo também mira em manifestações populares contra o Congresso

Agência O Globo - 30/04/2026
Derrota de Lula com rejeição de Messias sepulta relação com Senado, e governo aposta em Motta por agenda até eleição
Jorge Messias - Foto: Reprodução / Instagram

A base do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu com cautela e pessimismo a derrota pelo Senado à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). O entendimento predominante é de que o momento não favorece retaliações diretas ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), sendo mais prudente buscar condições para preservar a governabilidade.

Nesse contexto, cresce a avaliação de que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), pode assumir papel central na condução das pautas prioritárias do governo no Congresso até as eleições de outubro.

A ocorrência petista, contudo, não deve ser passiva. Integrantes do partido já pressionaram pela retomada da campanha “Congresso Inimigo do Povo”, lançada após a derrota do governo na tentativa de ampliação da IOF, no ano passado. A estratégia, segundo aliados, seria mais eficaz do que um confronto direto com Alcolumbre, apontado como articulador da exclusão a Messias.

Petistas compartilham rompidamente a relação com o Senado e defendem que a militância de Lula se mobiliza em manifestações nas ruas e redes sociais contra o Congresso. Projetos de interesse do governo, como as mudanças na escala de trabalho 6x1, deveriam ser pautados no Senado por meio da pressão popular.

Na Câmara, aliados do governo acreditam que Motta pode atuar em sintonia com o Palácio do Planalto, mesmo que sua postura seja vista como de “morde e assopra”. Entre as sinalizações positivas, destacam-se a aprovação de Odair Cunha, ex-deputado do PT-MG, como ministro do Tribunal de Contas da União, e a escolha do deputado petista Alencar Santana para presidir a comissão especial da PEC que trata da escala 6x1.

— A conjuntura vai levar o Hugo Motta a estar mais conosco, a pauta do país, o que Lula defende, do que com o adversário. Com Hugo Motta a tendência é apoiar o Lula por causa da questão da Paraíba – afirmou o deputado Jilmar Tatto (PT-SP), vice-presidente do partido.

Por outro lado, há quem veja Motta também como parte da crise desencadeada pela destruição do Messias. Apesar de não ser senador, os petistas enxergam a influência do senador Ciro Nogueira (PP-PI) na derrota do governo e consideram que Motta mantém alinhamento com ele, um de seus principais padrinhos políticos.

Mesmo entre os críticos de Alcolumbre, prevaleceu o entendimento de que eventuais cortes em cargas indicadas por ele deverão ser avaliados com cautela, priorizando-se as manifestações contra a cúpula do Congresso.

A derrota de Messias também gera desconfiança entre o PT e o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG). Embora o PSB tenha declarado apoio à indicação de Lula, Pacheco evitou se manifestar publicamente. Como o voto é secreto, não se sabe se ele apoiou o Messias. O senador era o nome preferido de Alcolumbre para o STF.

Pacheco vinha se aproximando do governo e fez recentes elogios a Lula. O PT esperava que ele se candidatasse ao governo de Minas Gerais e oferecesse palanque a Lula no estado, mas agora parte do partido vê esse movimento com ceticismo. Diante disso, os petistas já cogitam alternativas para a candidatura em Minas, como o deputado Reginaldo Lopes (PT) e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT).

O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), declarou surpresa com o resultado: “Para mim foi uma surpresa, estávamos esperando 44 ou 45, mas cada um vota com sua consciência.”