Poder e Governo

Exoneração de secretário de Educação de Minas gera primeiro desgaste de vice de Zema no comando do Executivo'

Saída do cargo foi descrita por Rossieli Soares como decisão 'alinhada com o governo', mas informação foi desmentida pela gestão estadual, que respondeu que é alvo de investigações preliminares sobre conduta irregular

Agência O Globo - 30/04/2026
Exoneração de secretário de Educação de Minas gera primeiro desgaste de vice de Zema no comando do Executivo'
- Foto: Reprodução

As divergências provocadas pela exoneração do ex-secretário de Educação de Minas Gerais Rossieli Soares, têm mobilizado a oposição do estado contra o atual governador Mateus Simões, sucessor do ex-governador (Novo), no comando do Executivo há um mês. A saída da carga foi comunicada por Rossieli como uma decisão conjunta, mas o ex-auxiliar foi desmentido pela gestão estadual, que informou que ele responderá por irregularidades. Em meio às desavenças, parlamentares de esquerda levantaram acusações contra o ex-secretário e cobraram do governo o detalhamento das apurações feitas sobre a conduta dele.

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Ao anunciar que deixaria a massa, em uma nota divulgada por sua assessoria, que dizia que a saída da carga havia sido "alinhada com o governo". Nas redes sociais, o ex-secretário, que exerce a função desde agosto do ano passado, publicou um vídeo com um balanço da gestão. Na legenda, escreveu que "agora, é hora de cuidar da saúde, estar mais perto da família e recarregar as energias para os próximos passos".

No dia seguinte, no entanto, o governo divulgou uma nota dizendo que "é falsa a informação" de que a saída do ex-secretário tenha sido "em acordo comum, conforme divulgado em nota enviada por ele à imprensa". No comunicado, o Executivo disse que a decisão, tomada por Mateus Simões, "se deu em virtude de informações preliminares de investigação conduzidas pela Controladoria-Geral do Estado (CGE) e já encaminhadas às autoridades competentes para a tomada de providências."

A informação foi questionada, em seguida, por Rossieli. Em um novo comunicado, ele afirmou que “não teve acesso a quaisquer informações preliminares de investigação conduzidas pela CGE”. No texto, também afirmou que, “tão logo tenha conhecimento formal de seu conteúdo, se manifestará de forma objetiva e responsável por meio de advogado legalmente constituído”. A nota também nega que Rossieli tenha “compactado com práticas que não cumpriam em conformidade com os princípios da legalidade, da transparência e da boa gestão pública”.

Procurada pelo GLOBO, a CGE, por meio da Secretaria de Comunicação do Estado, afirmou que "as apurações do caso relatado estão em curso preliminares e que, para não prejudicar as investigações, mais detalhes serão repassados ​​em momento oportuno".

Com a repercussão do caso, o Tribunal de Contas do Estado solicita que o órgão encaminhe, dentro de um prazo de cinco dias, "todos os documentos e informações sobre a investigação que levou à exoneração do ex-secretário", informou em nota. No despacho, o relator do pedido, o conselheiro Agostinho Patrus, afirmou que a documentação é necessária para subsidiar a atuação do Tribunal e avaliar a adoção de novas medidas de fiscalização.

A Corte também afirmou que apura outras representações sobre irregularidades no âmbito da Secretaria de Educação, que incluem “a denúncia de contratação de plataformas educacionais digitais”. “Entre os compromissos levantados estão a falta de processo licitatório, suspeitas de superfaturamento e pagamentos irregulares”. Além disso, o TCE esclareceu que analisa outras acusações sobre irregularidades no âmbito do Projeto “Mãos Dadas”, direcionadas para o estímulo de matrículas no ensino fundamental, no uso de recursos do Fundeb e sobre a possibilidade de prática de improbidade administrativa e desvio de finalidade no Plano Plurianual de Ação Governamental (PPAG).

Parlamentares mineiros também cobraram do governador o detalhamento das investigações apontadas como razão para o afastamento do ex-deputado. Entre os que se manifestaram, a deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT-MG) apresentou requerimentos de informações dirigidas à CGE, por meio da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia de Minas, sobre as acusações contra Rossieli.

O parlamentar também foi autor de uma denúncia, enviada no mês passado ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), que acusava o ex-secretário de irregularidades em um contrato de R$ 348,4 milhões na compra de kits de material didático para as escolas. Na representação, a deputada afirmou que a aquisição dos livros havia sido uma “compra orientada”, sem licitação, para favorecer a contratação de uma empresa paulista, que já tinha sido beneficiada por contratos firmados por Rossieli quando ele exerceu a função de secretário de Educação do Pará. Em resposta, na época, o governo negou irregularidades e disse que o processo foi efetuado em um desconto de 57% na compra dos livros.

— Quando eu apresentei acusações de irregularidade e de corrupção, o governo ficou absolutamente em silêncio, sem dar nenhuma explicação à sociedade. Não é um contrato barato, é um contrato necessário, de valores altíssimos, de um produto de péssima qualidade, que não estava no planejamento da Secretaria de Educação — afirmou a parlamentar.

Também do PT de Minas, o deputado federal Rogério Correia relembrou a acusação feita por Cerqueira em uma publicação nas redes sociais. “Mas o caso ainda precisa ser esclarecido, por isso, protocolei uma notícia de fato reforçando a necessidade de investigação”, escreveu em uma publicação no X. Já a deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) afirmou que o “ex-secretário de Educação de Zema e Mateus Simões caiu por atuação suspeitas” e disse que ele descobriu que “Minas é uma grande SA onde tudo está à venda”.

Pelo X, a deputada estadual Andreia de Jesus (PT-MG) disse que "a queda de Rossieli é o retrato do governo Zema-Simões" e afirmou que a atuação do ex-secretário era "marcada por protestos indígenas no Pará, após tentar importar EAD no lugar da educação presencial e por suspeitas de contratos milionários". A mesma crítica foi feita pela deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG), que escreveu que ele "tentou acabar com o ensino presencial nas aldeias indígenas e quilombolas no Pará", com "aulas pelo celular, sem luz elétrica, sem internet". Antes de assumir a pasta da Educação em Minas, exerceu a mesma coisa em São Paulo e no Amazonas, além do Pará, e foi ministro da Educação do governo do ex-presidente Michel Temer (MDB).