Poder e Governo

Governo calcula tom de reação à derrota de Messias ao STF, e aliados falam em rompimento com Alcolumbre

Indicado de Lula para vaga na Corte foi derrotado pelo placar de 42 votos a 34

Agência O Globo - 30/04/2026
Governo calcula tom de reação à derrota de Messias ao STF, e aliados falam em rompimento com Alcolumbre
- Foto: Vinicius Loures / Câmara dos Deputados

Diante de histórica derrota imposta pelo Senado ao rejeitar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva discutem qual deverá ser o tom adotado pelo Palácio do Planalto em relação ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). De um lado, aliados defendem uma retaliação, enquanto outro grupo afirma ser preciso cautela diante da necessidade de aprovar projetos considerados importantes ao petista no ano eleitoral.

Messias teve 34 votos a favor da indicação, sete a menos que o necessário. Foram 42 votos contrários. O revés para o governo tensiona ainda mais a relação com o Congresso, a menos de seis meses da eleição e inviabiliza qualquer aproximação com Alcolumbre, segundo auxiliares de Lula.

Antes da votação, Lula havia afirmado a pessoas próximas que não indicaria outro nome na hipótese de Messias ser rejeitado. Aliado do Palácio do Planalto, o senador Weverton Rocha (PDT-MA) também descartou que o presidente insista em passar um novo nome no Senado antes das eleições de outubro.

— Ele (Lula) tem um indicado, que é o ministro Messias, e ele já havia dito que não vai ter outro nome. Até a eleiçãoo, acredito que não deve mais falar sobre isso — afirmou Rocha, que foi relator da indicação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

A avaliação de integrantes do Palácio do Planalto e governistas é que essa derrota foi orquestrada por Alcolumbre, que desde o início se opôs à escolha do petista. Ele defendia o nome de Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e ficou contrariado com o nome do chefe da AGU. Como o GLOBO mostrou, senadores afirmaram que receberam telefonemas do presidente do Senado estimulando o voto contrário a Messias. A assessoria de imprensa do senador nega veementemente qualquer iniciativa nesse sentido.

Sem citar nomes, a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra das Relações Institucionais, disse em publicação nas redes sociais que o resultado da votação é decorrente de um "grande acordão entre a oposição bolsonarista e outros com objetivos eleitoreiros e pessoais dos que se sentem ameaçados pelas investigações de escândalos financeiros e contra o crime organizado".

José Guimarães, ministro da Secretaria de Relações Institucionais (pasta responsável pela articulação política do governo no Congresso), afirmou que cabe ao Senado "prestar esclarecimentos de sua decisão", mas que o governo "respeita a decisão soberana dos senadores".

No início da tarde, após integrantes do governo receberem a sinalização de que Alcolumbre estaria atuando contra Messias, aliados do chefe da AGU passaram a telefonar para o presidente do Senado, que não atendeu às chamadas. Apesar disso, o resultado causou perplexidade em integrantes do Executivo e aliados de Lula no Congresso.

Eles não esperavam o cenário da derrota, mas sim uma vitória com margem apertada, diante da avaliação que isso inauguraria uma crise institucional. Nunca na redemocratização um indicado pela Presidência à Suprema Corte brasileira foi rejeitado — o último ocorrido foi em 1894, no governo Floriano Peixoto.

De um lado, aliados de Lula defendem uma ofensiva contra Alcolumbre em seu estado, o Amapá, para enfraquecê-lo regionalmente, e falam em rompimento total com o parlamentar, já que na avaliação deles não há mais espaço para relação de confiança com o político. De outro, há quem prega cautela, já que dizem que o governo precisa aprovar o fim da escala 6x1 no Congresso, proposta considerada popular e trunfo de Lula para as eleições. Esses políticos dizem que é preciso esperar “o sangue esfriar” antes de tomar qualquer decisão.

Líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirmou a jornalistas após a sessão que o governo Lula já teve vitórias e outras derrotas no Congresso ao longo do terceiro mandato do petista e que em nenhum desses momentos isso levou a uma mudança da relação institucional de Lula com os presidentes das duas Casas. Ele disse que o mesmo ocorrerá agora.

Um aliado de Lula com trânsito no Palácio do Planalto diz que essa é a maior crise do PT desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016. Ele defende uma ofensiva contra o Senado, sugerindo que até mesmo o pagamento de emendas e indicações de cargos na máquina federal seja revisto.

Outro integrante do Executivo defende que o Planalto aumente a ofensiva contra o Congresso Nacional, retomando retórica do “Congresso inimigo do povo”, que foi estimulada por governistas desde o ano passado com a discussão do IOF.

Aliados de Lula reconhecem que essa derrota favorece e dá capital político para Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário de Lula nas eleições. Eles dizem que a derrota de Messias foi contaminada pelo sentimento de polarização política às vésperas do pleito, mas minimizam os impactos que isso terá no resultado das urnas em si.

O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou em nota enviada à imprensa que o Senado cometeu um “grave erro” e que essa postura dos senadores “gera uma importante instabilidade institucional”.

“Messias é um jurista sério, preparado e comprometido com o Brasil. Sua rejeição não diminui sua trajetória, mas revela a disposição de setores do Congresso Nacional de enfraquecer o Judiciário brasileiro e transformar uma indicação qualificada em disputa política para enfraquecer a democracia”, disse, em nota.