Poder e Governo

Livro de ocorrências aponta liberação irregular de bagagens em voo com políticos e empresário de apostas

Registro detalha que malas e bolsas de mão foram liberadas sem passar pelo raio-x, mesmo com alerta do pórtico

Agência O Globo - 29/04/2026
Livro de ocorrências aponta liberação irregular de bagagens em voo com políticos e empresário de apostas
- Foto: José Paulo Lacerda/CNI

Um registro no livro de ocorrências do Aeroporto Catarina, em São Roque (SP), aponta que, durante o desembarque de um voo internacional em abril de 2025, bagagens foram liberadas sem inspeção adequada. Entre os passageiros estavam o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI), além dos deputados Isnaldo Bulhões (AL), líder do MDB na Câmara, e Dr. Luizinho (RJ), líder do PP. A aeronave, um jatinho de propriedade de um empresário do setor de apostas on-line, retornava da ilha caribenha de São Martinho.

De acordo com a anotação: “(...) Liberou todas as malas e bolsas de mão com todos os eletrônicos, garrafas dentro das malas (...) e autorizou a passar bagagem do tripulante fora do raio-x mesmo o pórtico apitando. Sem mais”, diz o registro.

Procurado, Hugo Motta afirmou, por meio de sua assessoria, que "cumpriu todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira" ao desembarcar, e que aguardará manifestação da Procuradoria-Geral da República. Os demais parlamentares citados não responderam aos pedidos de posicionamento.

O caso está sob investigação da Polícia Federal, que apura possível entrada irregular de bagagens no terminal executivo. Segundo relatório da corporação, um auditor fiscal teria permitido que um tripulante passasse pelo controle com cinco volumes "sem que qualquer deles passasse pela fiscalização".

O documento aponta que o auditor “teria praticado possível infração administrativa e/ou penal” ao liberar as bagagens sem inspeção. Imagens das câmeras de segurança reforçam a suspeita: registros mostram um tripulante passando por fora do aparelho de raio-x com malas, sacolas e uma caixa em um carrinho. Apesar disso, os investigadores ressaltam que “não é possível afirmar categoricamente a quem os volumes pertencem ou seu conteúdo”.

O inquérito foi aberto em janeiro para apurar possíveis crimes de prevaricação e facilitação de contrabando ou descaminho por parte do auditor fiscal. Como havia parlamentares com prerrogativa de foro entre os passageiros, o caso foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 13 de abril, a pedido do Ministério Público Federal.

O Ministério Público Federal declarou, em manifestação no processo, que, com os elementos colhidos até o momento, "não é possível descartar a possibilidade de envolvimento de um ou mais parlamentares nos delitos sob apuração".

O voo foi realizado no jatinho de prefixo PP-OIG, pertencente a Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, dono da One Internet Group. Lima foi alvo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, criada em 2024 pelo Senado, e teve seu indiciamento solicitado pela relatora, senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), por exploração ilegal de jogos de azar. O relatório final da CPI, contudo, foi rejeitado pela maioria do colegiado. Procurado, Lima não se manifestou.