Poder e Governo

Almoço com Pacheco, distanciamento de Alcolumbre e ensaios para sabatina: como foi o último dia do périplo de Messias

Com articulação indireta e apoio de padrinhos, reta final foi dedicada à preparação para a sabatina em cenário incerto

Agência O Globo - 29/04/2026
Almoço com Pacheco, distanciamento de Alcolumbre e ensaios para sabatina: como foi o último dia do périplo de Messias
Jorge Messias e Rodrigo Pacheco - Foto: Reprodução / Instagram

Na véspera da sabatina no Senado, o advogado-geral da União, Jorge Messias, viveu seu último dia de articulação após cinco meses de périplo em busca de votos. Com uma agenda mais enxuta, dividiu o tempo entre a preparação para a audiência, compromissos pontuais e uma ofensiva indireta conduzida por aliados. No entanto, não conseguiu avançar sobre o principal objetivo político do governo— um gesto público de Davi Alcolumbre (União-AP).

O único compromisso político aberto do dia foi um almoço com a bancada do PSB, que reuniu, entre outros, o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (MG), nome defendido no ano passado por Alcolumbre para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). O gesto foi interpretado como uma tentativa de consolidar apoio entre parlamentares de centro e reduzir resistências num grupo que concentra boa parte dos indecisos.

Enquanto mantinha uma agenda restrita, a operação por votos ganhou corpo nos bastidores. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e o relator da indicação, Weverton Rocha (PDT-MA), passaram o dia em reuniões com parlamentares, numa tentativa de reduzir resistências e, sobretudo, garantir presença na votação, variável considerada crítica em uma semana esvaziada por feriados.

Fora do plenário, o ex-secretário de Assuntos Parlamentares André Ceciliano foi escalado para percorrer gabinetes e retomar pontes com senadores da oposição e do centro. No total, conversou com pelo menos dez parlamentares. A estratégia, segundo interlocutores, foi apostar em abordagens individualizadas, ajustadas ao perfil de cada parlamentar.

A mobilização incluiu ainda um reforço incomum vindo do Judiciário. Ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), como Carlos Brandão e Teodoro Silva, circularam pelo Senado ao longo do dia, em conversas com parlamentares. A presença foi interpretada como tentativa de ampliar o capital institucional do indicado.

No governo, o ministro da Defesa, José Múcio, deve vir ao Senado para acompanhar a sabatina. Já Wellington Dias, do Desenvolvimento e Assistência Social, retomou o mandato para votar.

Tentativa frustrada com Alcolumbre

Apesar da mobilização, o principal eixo político da articulação permaneceu travado. Interlocutores do governo relatam que Davi Alcolumbre manteve até o fim a decisão de não se comprometer com a indicação nem orientar sua base.

Na segunda-feira, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, chegou a pedir que o presidente do Senado recebesse formalmente Messias e fizesse um gesto público de apoio. A tentativa não prosperou.

O ambiente foi tensionado após o vazamento de um encontro reservado entre Messias e Alcolumbre, realizado na casa de um interlocutor em comum. A reunião, que contou com a presença dos ministros do STF Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes, além de Pacheco, gerou desconforto no presidente do Senado, que se sentiu exposto e pressionado. O episódio é apontado por aliados como um dos fatores que consolidaram a ausência de um gesto político na reta final.

Sem essa sinalização, parte dos senadores optou por manter o silêncio público sobre o voto, preservando a incerteza às vésperas da sabatina.

Ensaios, estratégia e disciplina

Sem margem para grandes movimentos políticos, o dia foi dedicado à preparação. Segundo interlocutores, Messias passou por ensaios com estrategistas, revisando respostas e calibrando o discurso para os temas mais sensíveis que devem surgir na sabatina.

Entre os pontos mapeados estão o caso Banco Master, a atuação do STF sobre o Congresso, investigações envolvendo emendas parlamentares e temas de costumes, como aborto. A orientação foi reforçar uma linha de previsibilidade, respeito às competências dos Poderes e defesa de uma atuação menos intervencionista da Corte.

A preparação incluiu ainda uma rotina disciplinada, com estudo intensivo, alimentação leve e períodos de jejum, além de momentos de oração. A interlocutores, o indicado tem transmitido uma mensagem de serenidade diante da votação.

Cinco meses de construção

O último dia de articulação encerra um processo iniciado em novembro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a indicação. Desde então, a construção do nome de Messias combinou articulação política, mobilização institucional e apoio de ministros do Supremo.

No início do processo, o ministro André Mendonça atuou como um dos principais fiadores da candidatura junto à bancada evangélica, ajudando a reduzir resistências. Já o decano Gilmar Mendes, inicialmente alinhado a outro nome, passou a apoiar Messias na reta final, ampliando sua base de sustentação.

O ministro Cristiano Zanin também atuou nos bastidores, ao organizar o encontro que aproximou Messias de Alcolumbre, ainda que sem sucesso na obtenção de apoio.

Fora do STF e do Congresso, Messias ganhou entusiastas como o ex-presidente José Sarney e líderes evangélicos, à exemplo do bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira. Ambos pediram votos ao AGU.

Ao longo de cinco meses, o indicado percorreu gabinetes, participou de reuniões com bancadas, ajustou o discurso e contou com a articulação do governo, que incluiu negociação de cargos em autarquias e liberação de emendas. Entre os 81 senadores, ele encontrou 76.

Final aberto

Apesar do esforço, a indicação chega à sabatina ainda sem margem confortável. Aliados do governo projetam aprovação, mas reconhecem risco de oscilações de última hora, sobretudo em razão do voto secreto e do nível de presença no plenário.

Nos bastidores, interlocutores afirmam trabalhar com uma estimativa entre 44 e 49 votos favoráveis, apostando que parte dos indecisos deve migrar na hora da votação, quando o caráter secreto tende a reduzir o custo político da adesão.

Para ser aprovado, ele precisa de 14 votos na CCJ e 41 em plenário.