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BRB ignorou alertas sobre inconsistências em carteiras de crédito enquanto negociava com o Master

Documento elaborado por técnicos do banco estatal listou suspeitas em relação a ativos vendidos pela instituição de Daniel Vorcaro

Agência O Globo - 27/04/2026
BRB ignorou alertas sobre inconsistências em carteiras de crédito enquanto negociava com o Master
BRB - Foto: Divulgação

O Relatório interno do Banco Regional de Brasília (BRB) revelou que a instituição ignorou diversos alertas sobre inconsistências em carteiras de crédito repassadas pelo Banco Master durante negociações para aquisições desses ativos. O documento, produzido por técnicos do banco, aponta problemas como divergências nos valores de contratos de crédito consignados, falta de reconhecimento de contratações por parte de clientes e documentos com valores e prazos idênticos. Essas suspeitas foram levantadas por um grupo interno criado pela gestão anterior da estatal, que, mesmo assim, decidiu obrigações com as tratativas.

O relatório integra uma ação movida pelo BRB, que solicita o bloqueio de bens de fundos e pessoas ligadas ao Master. Esse processo ocorreu no mesmo período em que o banco estatal adquiriu carteiras de crédito consideradas podres do Master, somando R$ 12 bilhões.

Segundo a ação, o BRB afirma que o processo de aumento de capital permitiu a entrada de Daniel Vorcaro e outros investigados pela Polícia Federal como acionistas do banco estatal.

O grupo de trabalho responsável pela avaliação da negociação com o Master foi instituído pelo então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, preso pela PF após investigações indicando que ele teria recebido R$ 146 milhões em imóveis de Vorcaro para facilitar a operação entre os bancos. Procurada, a defesa de Costa informou que não irá se manifestar.

Na decisão que autorizou a prisão, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), destacou que as investigações da PF apontaram que “o sucesso da fraude não pode ser dissociado de graves falhas de governança e de uma atuação, em tese, puramente conivente de sua alta administração”.

Diálogos obtidos pela PF entre Paulo Henrique e outro diretor do BRB indicam que, desde o início das operações, já se conheciam inconsistências relevantes nas carteiras ofertadas. “Apesar disso, as aquisições deveriam ter sido aceleradas, com sucessivas flexibilizações procedimentais e pressão para liquidação rápida, em aparente desprezo aos controles prudenciais”, escreveu Mendonça.

O relatório técnico aponta ainda que todo o controle da carteira de crédito era feito manualmente, por meio de planilhas Excel, prática considerada atípica diante do volume das transações.

Outra irregularidade destacada foi a ocorrência de créditos consignados. Na análise de contratos de pessoas físicas, constatou-se que o valor contratado divergente do valor final obtido pelo soma das parcelas. “Verificou-se que os valores averbados são inferiores aos valores somados das parcelas dos contratos adquiridos pelo BRB por cada CPF”, registra o relatório.

O documento também menciona o aumento expressivo de reclamações de clientes sobre o não reconhecimento de contratos originados pelo Banco Master e, posteriormente, adquiridos pelo BRB.

Nova operação

Na última segunda-feira, o BRB comunicou, por meio de fato relevante, a celebração de um memorando de entendimento com a gestora Quadra Capital para a venda de parte dos ativos que pertencem ao Banco Master. Segundo o banco estatal, a operação tem valor de referência de R$ 15 bilhões.

O acordo prevê uma primeira parcela à vista entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões. O valor futuro, estimado entre R$ 11 bilhões e R$ 12 bilhões, será negociado por meio de cotas de fundo de investimento a ser estruturado para a gestão e monetização desses ativos.