Poder e Governo

'Aborto é assassinato': ato do vereador Lucas Pavanato na USP termina em briga generalizada com feridos

Um estudante foi hospitalizado em decorrência do tumulto; a vereadora Eduarda Campopiano foi agredida

Agência O Globo - 06/03/2026
'Aborto é assassinato': ato do vereador Lucas Pavanato na USP termina em briga generalizada com feridos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um debate promovido pelo vereador Lucas Pavanato (PL-SP) na Cidade Universitária da USP, na capital paulista, terminou em confusão na última quarta-feira. Universitários acusam seguranças de Pavanato de agredirem estudantes que protestavam contra o político; um jovem foi hospitalizado. Por outro lado, Pavanato e a vereadora Eduarda Campopiano (PL-SP), que o acompanhava, afirmam que a confusão foi iniciada pelos alunos e que a parlamentar sofreu violência física e tentativa de furto por um aluno.

De acordo com Pavanato, o debate tinha o intuito de promover um debate com os estudantes sobre projetos seus relacionados a pautas como aborto e cotas raciais. Ele afirma que o modelo, que desafiava universitários a discutirem as temáticas, foi inspirado nos debates promovidos pelo ativista conservador americano Charlie Kirk — em universidades dos Estados Unidos. Lucas preparou uma tenda e banners, com dizeres como "Aborto é assassinato" para a conversa.

Professores da USP criticaram a ação, argumentando que a iniciativa atacava os direitos das mulheres e a universidade pública. Por conta disso, alunos organizaram protesto em frente à tenda com caixas de som, faixas e gritos contra a presença do vereador.

— A gente viu o Pavanato chegar com diversos capangas armados, que agrediram estudantes. A gente tá aqui para dizer e reafirmar que os estudantes da USP não vão aceitar fascistas vindo provocar a gente na nossa universidade — afirmou um aluno em vídeo publicado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP.

Em nota, o DCE afirmou que os alunos foram "covardemente agredidos" pelos seguranças do vereador e saíram com "o corpo coberto de hematomas e sangrando". O texto, publicado no Instagram, diz ainda que os agentes usaram spray de pimenta contra os jovens e "atropelaram os estudantes jogando o carro por cima deles".

Segundo a USP, um estudante que estava no tumulto, de nome não identificado pela instituição, foi atendido no Hospital Universitário. O jovem está bem e foi liberado da unidade na quarta-feira.

Os agentes que faziam a escola do vereador, da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, foram chamados de "capangas" pelos alunos. Pavanato contou ao GLOBO que passou a andar com seguranças depois de sofrer ameaças de morte. Afirmou ainda que sofreu intimidação de alunos na quarta-feira.

Pavanato também denuncia agressão

Em contraposição ao que foi relatado pelo DCE, o vereador diz que, na verdade, foi ele o agredido:

— Durante a gravação, os militantes do DCE colocaram som alto para eu não gravar e hostilizaram outros alunos que tentaram debater comigo. Após isso, tentei sair, mas começaram com as agressões e jogaram um produto químico, que deixou algumas pessoas com o olho ardendo. Eu fui acertado por uma garrafa, entrei no meu carro e saí do local, porém, pessoas que estavam comigo lá sofreram agressões piores — relatou Pavanato.

Amiga do vereador, Eduarda Campopiano relata versão semelhante. Ela afirma ter sido agredida com um soco na boca por um dos manifestantes após o mesmo jovem tentar roubar o seu celular em meio ao tumulto.

— Eu fui realmente agredida, sofri uma tentativa de furto. Um rapaz viu que eu estava gravando e arrancou o meu celular da minha mão. Eu tento puxar ele para pegar o meu celular de volta, e nisso, com o próprio celular na mão, ele me dá um soco na boca, que corta a minha boca, e eles fogem com o meu celular na mão. Eu caio no chão na hora, por causa do susto, e eu começo a gritar que ele pegou meu celular. Aí um dos guardas que acompanha o Pavanato corre atrás do rapaz, puxa o rapaz e arranca o celular da mão dele — contou a vereadora, que disse ter aberto boletim de ocorrência contra o homem que teria puxado seu telefone, recuperado por um dos seguranças.

O que dizem a Secretaria de Segurança Pública e a USP

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), o caso narrado pela vereadora foi registrado como lesão corporal e furto a transeunte na 51ª Delegacia de Polícia, no bairro de Rio Pequeno, na Zona Oeste paulistana. A vereadora foi encaminhada ao Instituto Médico Legal (IML) para exame de corpo de delito e, no local, encontrou o suspeito, que estava com estudantes da USP que prestavam queixas contra os vereadores. O homem, de 23 anos, depôs e foi liberado em seguida.

Sobre a confusão na USP, a SSP-SP afirmou, em nota, que houve "uma briga generalizada entre estudantes e um vereador, que resultou em agressões mútuas". O órgão informou também que dois alunos ficaram feridos e foram encaminhados para exames no IML. Ninguém foi detido e o caso segue sob averiguações da Polícia Civil de São Paulo.

Ao tomar ciência do ocorrido, a reitoria da USP informou que "repudia qualquer tipo de violência" que restrinja o exercício da liberdade de opinião "dentro dos limites da convivência republicana".

"Na Universidade de São Paulo consideramos que a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias são princípios basilares da vida acadêmica. A Universidade é, por excelência, o espaço do debate plural, do questionamento crítico, da convivência entre diferentes perspectivas e visões de mundo. A Universidade é o espaço correto para que se dê voz a diferentes opiniões, ao direito da sua expressão, resguardados, obviamente, os princípios da democracia, respeitosa, mútua entre as diferentes vozes que possam ter visões de mundo diferentes", acrescenteou a USP, em nota enviada ao GLOBO.

*Estagiária sob supervisão de Daniela Dariano