Poder e Governo

Ex-secretária admite acesso a cofre do lobista, mas nega compra de passagem para filho de Lula

Aline de Sá Cabral nega envolvimento em pagamento de propina e diz não ter comprado passagem para Lulinha

Agência O Globo - 02/03/2026
Ex-secretária admite acesso a cofre do lobista, mas nega compra de passagem para filho de Lula
Aline Bárbara Mota de Sá Cabral - Foto: Reprodução / Agência Senado

Em depoimento à CPI do INSS nesta segunda-feira (data não informada), a ex-secretária Aline de Sá Cabral confirmou que tinha acesso ao cofre do empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, para realizar pagamentos. Ex-funcionária do lobista, apontado como um dos principais envolvidos no escândalo de desvios em aposentadorias, Aline relatou que fazia retiradas e organizava tarefas do empresário.

Segundo Aline, o cofre estava localizado na empresa Brasília Consultoria. Ela afirmou que era autorizada a retirar dinheiro para compras do escritório, mas disse não se recordar se alguma vez fez isso a mando do ex-chefe para pagamento de propina.

Questionada pelo relator da CPI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), sobre a separação de valores para o motorista com o objetivo de pagar propina, Aline respondeu:

— Não lembro. Pode ser que sim, mas não me lembro.

Ao ser perguntada sobre a frequência dessas retiradas, repetiu:

— Não me lembro. Se aconteceu, só podia pegar dinheiro com autorização do Antonio.

A ex-secretária relatou que, em alguns momentos, havia grande quantia de dinheiro no cofre, enquanto em outros, o valor era menor. Ela também declarou nunca ter contado o montante guardado no local.

Ao ser indagada por parlamentares se teria comprado passagens aéreas para o empresário e para Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lulinha, Aline negou. Segundo reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo", Lulinha teria viajado a Portugal em 2024 com despesas custeadas pelo lobista.

Aline explicou que, à época da suposta compra das passagens, já havia sido promovida a gestora de recursos humanos em outra empresa do lobista e não era mais responsável por esse tipo de tarefa.

Durante o depoimento, a ex-secretária também afirmou à CPI que participou da negociação para a compra de uma casa em Trancoso (BA) com Danielle Miranda Fontelles, ex-marqueteira do Partido dos Trabalhadores (PT).

Aline declarou que era funcionária pessoal do lobista, considerado o principal operador do esquema de fraudes contra aposentados, e que cuidava de compras de passagens e registros de imóveis do empresário.

— Eu tive conhecimento que ele tinha comprado um imóvel. Posteriormente, fiquei sabendo de quem era — afirmou Aline.

Apesar de ter iniciado o depoimento afirmando que ficaria em silêncio, Aline respondeu a algumas perguntas do relator e de outros parlamentares da CPI.

Ela negou ter feito anotações sobre percentuais de propina destinados a dirigentes do INSS, como suspeita a Polícia Federal.

Ao ser questionada sobre o conhecimento de entidades suspeitas de participação nas fraudes, preferiu permanecer em silêncio.

Outro depoente aguardado, o advogado Cecílio Galvão, que teria recebido R$ 4 milhões de entidades suspeitas de desviar recursos de aposentados, não compareceu. A CPI avalia a possibilidade de condução coercitiva para ouvi-lo.

Após tumulto na semana anterior, motivado pela aprovação da quebra de sigilo de Lulinha, a sessão foi retomada normalmente. Parlamentares governistas solicitaram a leitura da ata da reunião e contestaram o resultado da votação em bloco de 87 requerimentos, incluindo a quebra de sigilo de Lulinha. O presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), reiterou a decisão do colegiado e aguarda confirmação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).