Poder e Governo

Chapas para o governo do Rio evidenciam dificuldade de Lula no estado desde o surgimento do bolsonarismo

PT venceu sucessivas eleições no território fluminense entre 2002 e 2014, mas perdeu terreno a partir de 2018 e vê caciques locais se manterem à direita

Agência O Globo - 01/03/2026
Chapas para o governo do Rio evidenciam dificuldade de Lula no estado desde o surgimento do bolsonarismo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Anunciadas nas últimas semanas, as duas principais chapas para a eleição do Rio são sintomáticas de como o estado virou um terreno pouco fértil para o presidente Luiz Inácio da Silva (PT). Mesmo na candidatura que representará o palanque do petista, a de (PSD), o grupo escolhido para ocupar o posto de vice tende a dividir a aliança e pedir votos para (PL). Já na chapa da direita, avalizada pelo presidenciável, agruparam-se os partidos com maior capilaridade na política local, que concentram mais da metade das prefeituras fluminenses.

Análise:

O cenário é consequência da reconfiguração do mapa eleitoral do Rio, terceiro maior colégio do país, desde o surgimento do bolsonarismo, em 2018. Até então, o PT havia vencido com folga no estado o segundo turno das disputas presidenciais entre 2002 e 2014, com força sobretudo nas áreas mais populares — que nas duas últimas eleições votaram massivamente no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Para este ano, internamente, o PT não alimenta a esperança de ser mais votado que a direita no Rio, mas tenta reduzir danos. O cenário considerado ideal passa por perder de menos do que há quatro anos, quando Bolsonaro venceu por 13 pontos de vantagem, o equivalente a mais de 1,2 milhão de votos. Na equação, o que compensou o baque foi o desempenho satisfatório em São Paulo, onde a derrota de Lula se deu por margem bem menor do que nas duas disputas anteriores do partido.

Há, no entanto, um obstáculo evidente para os planos petistas, que é o fato de quase todo o establishment político local evitar se associar a Lula — com base no diagnóstico de que o presidente acaba prejudicando suas próprias ambições. Paes, na esteira da longa relação pessoal entre os dois, é a exceção, mas o prefeito e pré-candidato a governador sabe que não pode ser lulista de carteirinha, dado o casamento inevitável entre a eleição nacional e a estadual.

Escopo ampliado

A fim de ampliar o escopo da candidatura, o aliado de Lula indicou a advogada Jane Reis, irmã do cacique do MDB Washington Reis, para vice da chapa. O ex-prefeito de Duque de Caxias disse, no dia do anúncio da parceria, que fará campanha para Flávio. Segundo maior colégio eleitoral do estado, a cidade da Baixada Fluminense é comandada hoje por um sobrinho do dirigente.

Na direita, o anúncio do primeiro desenho da aliança foi feito de forma integral e com o filho de Bolsonaro na foto. Em Brasília, o presidenciável apresentou o secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas (PL), como candidato ao governo, tendo o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa (PP) na vice. Para o Senado, os nomes colocados agora são o do governador Cláudio Castro (PL) e o do prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União). Os quatro nomes representam o poder das respectivas máquinas partidárias. Juntos, PL, PP e União elegeram 51 dos 92 prefeitos do Rio em 2024.

Diante dessa concertação oposicionista, o PT aposta as fichas na força de Paes. Tanto que, na sexta-feira, um dos principais quadros do partido no estado, o ex-presidente da Assembleia Legislativa André Ceciliano, almoçou com o prefeito para se reaproximar depois de terem trocado farpas publicamente em janeiro. Lula irá ao Rio nesta semana para novos compromissos públicos ao lado do pré-candidato.

— O Rio é um estado conservador, e por isso temos defendido que é preciso ampliar as alianças, ir para o centro. O Eduardo segue essa linha, tem reiterado o apoio ao presidente Lula e é fundamental para nós, independentemente da escolha da vice. Tanto que terá com ele duas agendas do PAC nos próximos dias — afirma o presidente estadual do PT, Diego Zeidan. — Para fortalecer o partido, o “13”, também teremos Benedita da Silva candidata ao Senado.

Histórico

Com exceção de 1994, a eleição pós-Plano Real que fez o tucano Fernando Henrique Cardoso só perder em duas unidades da federação, as eleições presidenciais entre 1989 e 2014 no Rio tiveram como vencedores representantes da cultura política do trabalhismo — Leonel Brizola e Anthony Garotinho — ou o PT.

Em alguns casos, inclusive, a força local do brizolismo ajudou Lula. Foi o caso de 1998, quando o líder histórico do PDT se candidatou a vice-presidente na chapa do petista, o que deu à dobradinha Lula-Brizola mais votos do que Fernando Henrique no estado, apesar de o tucano ter resolvido a eleição nacional logo no primeiro turno.

Quatro anos depois, Garotinho, já pelo PSB e recém-desincompatibilizado do cargo de governador, venceu o primeiro turno no estado, mas apoiou Lula no segundo turno e foi crucial para fazer com que o Rio figurasse como o local em que o candidato do PT ganhou por maior margem naquela eleição: 79% a 21% contra José Serra (PSDB).

A partir de 2018, contudo, a direita se fincou no estado que é o berço político de Bolsonaro. Na esteira do problema da segurança pública, encontrou um terreno propício para discursos radicais. Valores conservadores também são apontados pela classe política como uma das causas. O Rio tem, por exemplo, 32% de evangélicos, percentual superior aos 26,9% da média nacional.