Poder e Governo

Governo prepara ofensiva para alterar pontos da PEC da Segurança após ceder no PL Antifacção

Texto deve ser votado em plenário na próxima semana

Agência O Globo - 25/02/2026
Governo prepara ofensiva para alterar pontos da PEC da Segurança após ceder no PL Antifacção
Governo prepara ofensiva para alterar pontos da PEC da Segurança após ceder no PL Antifacção - Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Após ajudar a viabilizar a aprovação do PL Antifacção na Câmara, o governo federal abriu uma nova frente de negociação no Congresso para tentar alterar trechos da PEC da Segurança Pública, cuja votação em plenário está prevista para a próxima semana. A expectativa é de que o texto seja analisado na comissão especial na terça-feira e siga ao plenário no dia seguinte.

A movimentação ocorre após a Câmara aprovar, na noite de terça-feira, o projeto que endurece o combate ao crime organizado, com ampliação de penas, facilitação de prisões preventivas e mecanismos de bloqueio patrimonial de facções.

Agora, integrantes do Palácio do Planalto tentam reabrir a discussão sobre pontos estruturais do relatório apresentado pelo deputado Mendonça Filho (União-PE), avaliados pelo governo como desidratações da proposta originalmente enviada pelo Executivo. A ofensiva se concentra principalmente no desenho institucional da política nacional de segurança pública.

Entre os trechos que o governo pretende alterar está o modelo de funcionamento do Fundo Nacional de Segurança Pública. No parecer do relator, o fundo passa a ter repasses direcionados prioritariamente a estados e ao Distrito Federal, o que, na avaliação de integrantes do Ministério da Justiça, reduz a margem da União para financiar operações nacionais e políticas coordenadas diretamente pelo governo federal.

Outro ponto de divergência envolve o papel de coordenação da União dentro do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Governistas afirmam que o relatório reforça a descentralização das ações e limita instrumentos de integração nacional previstos na versão original da PEC.

Também permanecem em discussão as regras relacionadas às guardas municipais. O texto de Mendonça restringe a criação da chamada polícia municipal comunitária a cidades com mais de 100 mil habitantes — medida que, segundo aliados do governo, pode excluir a maior parte dos municípios atualmente atendidos por guardas locais.

A atuação da Polícia Federal, que foi alvo de disputa durante a tramitação do PL Antifacção, reaparece na PEC sob outra perspectiva: interlocutores do Planalto avaliam que dispositivos incluídos no relatório podem limitar a atuação da corporação em investigações de alcance interestadual, contrariando a intenção original do Executivo de ampliar sua competência no combate ao crime organizado.

Aliados do governo avaliam que o apoio ao PL Antifacção fez parte de uma estratégia para destravar a pauta da segurança pública na Câmara e preservar espaço político para negociação da PEC, considerada prioritária pelo Executivo.

A ofensiva ocorre em meio ao início da gestão do novo ministro da Justiça, Wellington Cesar Lima, que tem adotado sinalizações consideradas mais moderadas pelo Congresso. O ministro chegou a afirmar publicamente concordar com a realização de plebiscito sobre a redução da maioridade penal — posição que gerou incômodo em setores do PT e reforçou, entre governistas, a avaliação de que o governo precisaria retomar protagonismo político na condução da PEC.

Nos próximos dias, devem ocorrer novas reuniões entre o Ministério da Justiça e o relator Mendonça Filho. Após encontro com deputados nesta semana, o ministro afirmou que pretende manter diálogo permanente com o Congresso sobre propostas da área de segurança pública.

— Foi um diálogo muito proveitoso, pensando em proposições para a segurança pública. Ficou definida uma interlocução permanente com a Câmara para discutir os projetos da área — afirmou.

Embora admita a possibilidade de ajustes pontuais, Mendonça Filho sinaliza que, a princípio, pretende levar ao plenário o parecer já apresentado.

— Posso fazer algum melhoramento no texto, ainda estou estudando. Vou conversar com o governo quantas vezes acharem necessário. Estou à disposição — disse o relator ao GLOBO.

A avaliação na base governista é que, após aceitar ajustes no PL Antifacção para garantir consenso político e evitar novo embate na pauta de segurança pública, o governo tenta agora impedir que a PEC avance com um desenho considerado distante da versão originalmente defendida pelo Executivo.

Até o momento, segundo Mendonça Filho, não houve apresentação formal de pedidos de alteração por parte do governo. A decisão sobre eventuais mudanças deve depender do resultado das reuniões previstas com o Ministério da Justiça nos próximos dias, às vésperas da votação.