Poder e Governo
'Me puxa para baixo', 'é do Valdemar' e 'ligar para Tarcísio': as anotações de Flávio Bolsonaro sobre o PL na eleição de 2026
Documento manuscrito discutido na sede do partido revela avaliação de candidatos, impasses regionais e estratégia nacional; senador diz que notas eram ‘sugestões’ feitas em reuniões
Registros feitos pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante reuniões na sede do partido indicam a tentativa do PL de escantear o vice-governador de Minas Gerais, Mateus Simões (Novo), na corrida pela sucessão estadual, além de trazerem observações sobre disputas em diferentes regiões do país. Escolhido pelo governador Romeu Zema como seu sucessor, Simões é descrito, nos apontamentos, como um nome que “puxa para baixo” o projeto presidencial do grupo. A expressão sugere preocupação direta com o impacto do desempenho estadual sobre a campanha nacional, em um estado considerado decisivo na corrida ao Planalto.
O material, intitulado “situação nos estados”, ao qual O GLOBO teve acesso, apresenta um panorama das articulações pelo país e sinaliza, por exemplo, a movimentação para emplacar o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado (PL), no lugar de Felício Ramuth (PSD), atual vice de Tarcísio de Freitas. Flávio afirmou que os registros não expressam necessariamente sua posição pessoal e refletem “sugestões” recebidas ao longo das conversas.
Na parte dedicada a Minas, a frase “me puxa para baixo” aparece ao lado de Simões. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, surge como alternativa por “conversar” com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais nomes do bolsonarismo no estado. Roscoe é visto por setores do partido como um nome com trânsito no empresariado e potencial de ampliar alianças além do núcleo ideológico.
Minas ocupa papel central no cálculo eleitoral. Segundo maior colégio do país, costuma funcionar como termômetro da disputa nacional. O cenário local tende a se nacionalizar em 2026: o senador Rodrigo Pacheco (PSD) é tratado nos bastidores como provável candidato apoiado pelo presidente Lula ao governo mineiro, enquanto Cleitinho (Republicanos) aparece competitivo no campo conservador. Nesse contexto, a avaliação registrada indica receio de que um nome considerado pouco competitivo comprometa o palanque presidencial no estado.
A movimentação também revela potencial tensão com Zema, que já sinalizou apoio a Simões. Ao mencionar uma alternativa ligada ao setor produtivo e articulada com Nikolas, o PL demonstra intenção de influenciar diretamente a definição do candidato em Minas, e não apenas aderir ao desenho do governador.
Em São Paulo, a citação a André do Prado ocorre em meio ao desgaste político de Ramuth, após revelações sobre movimentações financeiras envolvendo recursos mantidos no exterior. Ramuth, ex-prefeito de São José dos Campos e vice de Tarcísio, passou a enfrentar questionamentos que fragilizaram sua permanência na chapa. O episódio abriu espaço para pressão interna do PL pela substituição do vice na chapa de Tarcísio, ampliando o peso da legenda no principal colégio eleitoral do país. André do Prado, deputado estadual e aliado do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, é visto como nome capaz de garantir maior controle partidário sobre o palanque paulista. O palanque paulista é considerado decisivo para a viabilidade da candidatura presidencial bolsonarista.
Em outra página, ao lado do nome do deputado Marcos Pollon (PL-MS), está registrado: “pediu 15 mi p/ não ser candidato”. Pollon negou ter feito qualquer solicitação nesse sentido. A anotação aparece em meio a avaliações sobre pesquisas e viabilidade local, indicando que a direção nacional acompanha de perto disputas consideradas estratégicas.
Procurado nesta quarta-feira, Flávio afirmou que os registros foram feitos por ele durante as reuniões e que não representam decisões consolidadas.
— Ontem eu tive várias reuniões para falar de vários estados e anotava no papel. Em algum momento, algum coleguinha de vocês tirou foto das minhas anotações, mas não eram opiniões minhas, eram sugestões de pessoas — disse.
Ele também contestou o trecho referente a Pollon:
— Uma pessoa que conversou comigo disse que ele pediu R$ 15 milhões, mas isso nunca aconteceu.
Na coletiva realizada na véspera, o senador declarou que as composições estaduais vêm sendo discutidas “há mais de um ano” e que nenhuma decisão é tornada pública sem o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo ele, o PL poderá lançar até 11 candidaturas próprias aos governos estaduais e, diferentemente de 2022, haverá maior envolvimento da direção nacional na definição dos palanques.
— Em 2022 o presidente não se envolveu em grande parte das composições. Esse ano está sendo diferente — declarou.
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