Poder e Governo
Com saída de Tarcísio da disputa e candidatura de Flávio, Republicanos avalia neutralidade para o Planalto
Ofensiva tem maior alcance no Nordeste, região onde popularidade do presidente é maior
Ministros de partidos do Centrão aproveitaram a saída do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), da corrida presidencial para costurar apoios internos à tentativa de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ofensiva tem maior alcance no Nordeste, onde o chefe do Executivo é mais popular.
Carlos Bolsonaro:
‘Prefeito maravilhoso’:
Tarcísio era o nome preferido de dirigentes de legendas como Republicanos, PSD, PP e União Brasil. Sem ele na disputa e com a direita se organizando em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do candidato que o PSD vai apresentar, auxiliares de Lula veem espaço para travar o apoio nacional do Centrão à oposição e costurar por dentro apoios de diretórios estaduais.
Juntos, esses partidos são responsáveis pelas indicações de titulares de oito ministérios e somam bancadas expressivas na Câmara e no Senado.
— Eu vou trabalhar para que o Republicanos libere os estados e não consolide apoio oficialmente a ninguém. Gostaria que o Republicanos apoiasse o presidente Lula, mas sei das dificuldades por uma questão regional. A gente tem a possibilidade de seis a oito estados. Pernambuco, Paraíba, Sergipe, Alagoas... Dependendo do cenário, o Piauí — afirma ao GLOBO o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos).
Antes da decisão do ex-presidente Jair Bolsonaro de indicar seu filho como representante na disputa pelo Palácio do Planalto, a cúpula dos partidos do Centrão já tinha começado a planejar acordos para palanques estaduais.
Os presidentes do PSD, Gilberto Kassab; do PP, Ciro Nogueira; e do União Brasil, Antonio Rueda, articulavam por exemplo o apoio de alguns pré-candidatos a governador, inclusive em estados do Nordeste.
Republicanos: tendência é liberar
Na mesma linha, o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, já disse a interlocutores que se o candidato fosse Tarcísio a legenda obrigaria o apoio em todos os estados, mas, sem ele, a tendência é liberar o endosso a Lula onde houver maior proximidade com o PT.
Os pré-candidatos a governador Ciro Gomes (PSDB), no Ceará; ACM Neto (União Brasil), na Bahia; e Eduardo Braide (PSD), no Maranhão, tinham uma tendência de aproximação com o Tarcísio. Agora, com a pré-candidatura de Flávio, há um distanciamento.
Na Bahia, por exemplo, havia a expectativa de que o PSD pudesse desembarcar da aliança com o PT no estado e apoiasse Tarcísio, movimento que foi freado. União Brasil e PP se encaminham para enfrentar o PT baiano, mas, ao mesmo tempo, tem demonstrado pouco entusiasmo para apoiar Flávio.
Divisão na federação
Já no Ceará, Maranhão e Pernambuco, a federação União-PP está dividida e há alas que desejam apoiar Lula. No outro polo, Ciro Gomes, ainda que tente uma aliança com o PL no estado, indicou que não deve apoiar Flávio.
— Por que eu apoiaria um camarada que não é do meu partido? O PSDB vai nacionalmente tomar a posição. O União Brasil (que abriga aliados de Ciro) vai nacionalmente tomar a posição. Então, quando tiver essa hora, você volta e a gente conversa — pontuou em janeiro.
Se Tarcísio fosse candidato, também haveria constrangimento para que a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), pré-candidata à reeleição, desse palanque para o governador paulista, já que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, era um dos principais entusiastas da candidatura. Agora, a governadora tem um caminho livre para tentar o apoio de Lula.
Fora do Nordeste, em Minas Gerais, a ala pró-Lula do União Brasil também deverá ficar fortalecida com a possível filiação do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD). Ele se reuniu com Lula na semana passada e encaminhou a candidatura.
Mesmo que o PSD tenha candidato à Presidência, em uma lista que tem os governadores Ronaldo Caiado (Goiás), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ratinho Júnior (Paraná), a tendência é de liberar apoio a Lula em estados como Pernambuco, Bahia, Sergipe e Rio.
Da mesma forma, Tarcísio fora da disputa facilita um acordo entre o ex-presidente da Câmara Arthur Lira, um dos principais nomes do PP, com Lula. Lira deseja ser candidato ao Senado e avalia abrir palanque para o petista.
Um dos poucos palanques de Flávio no Nordeste é no Rio Grande Norte, onde o pré-candidato Alvaro Dias (Republicanos) já disse que apoiará o senador. A aliança foi articulada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha de Flávio.
A maioria dos estados do Nordeste tende a ir com Lula. No PP, por exemplo, o ministro do Esporte, André Fufuca, tenta fazer com que a legenda no Maranhão esteja com o presidente.
Há proximidade também com setores do partido na Paraíba, por exemplo, onde o pré-candidato Lucas Ribeiro (PP) já falou que deseja apoiar Lula. De acordo com o presidente do PP, Ciro Nogueira, a tendência no momento é que o partido opte pela neutralidade.
Fufuca é o único representante do PP na Esplanada dos Ministérios. Do Maranhão, estado onde Lula venceu com 71,14% dos votos ante 28,87% para Bolsonaro em 2022, Fufuca trabalha para ser eleito senador com o apoio de Lula e trabalha por endossos de aliados da centro-direita.
— Trabalhamos para buscar a unidade no campo de apoiadores do presidente Lula, seja no PP ou em outros partidos. Essa unidade fortalece o projeto pela ampliação da votação que o presidente teve em 2022 — avalia Fufuca.
Articulação com a cúpula
O PT tenta se beneficiar desse movimento e tem buscado presidentes de legendas do Centrão para aproximá-los de Lula. Como mostrou O GLOBO, o presidente do PT, Edinho Silva, se reuniu em janeiro com Ciro Nogueira e Rueda para tratar de cenários regionais e possíveis composições políticas.
No caso do União Brasil, os ministros Waldez Góes (Desenvolvimento Regional) e Gustavo Feliciano (Turismo) também buscam apoios internos, e há um cálculo de que em torno de 20 a 25 deputados da bancada de 59 do União Brasil na Câmara possam estar com a reeleição de Lula.
No PSD, que está à frente de três ministérios, há proximidade em estados como Bahia e Sergipe, enquanto o MDB, que tem três ministros e ainda sonha com a vice, é próximo a Lula em locais como Pará e Alagoas, entre outros.
O ministro Renan Filho (Transportes) também atua para aproximar o centro da candidatura de Lula, fazendo a interlocução de alas do MDB, seu partido, e de outras siglas. A interlocutores ele reconhece, no entanto, a dificuldade de construir uma unidade em seu partido para chancelar esse apoio formal ao petista.
— O que o presidente Lula precisa construir é uma aliança que permita ele ocupar o centro, isolando a direita na extrema-direita — conclui o ministro.
Ainda no MDB, a família Barbalho, da qual fazem parte o ministro das Cidades, Jader Filho, e o governador do Pará, Helder Barbalho, há não só articulação para que a sigla apoie Lula no estado, como também uma tentativa de aproximar o União Brasil. O presidente da Assembleia, Chicão (União Brasil), deve ser candidato a senador no estado e dar palanque para o petista.
— Eu advogo que o MDB acompanhe o presidente Lula desde o primeiro turno. É uma questão de coerência, já que o MDB tem três ministérios: Transportes, Planejamento e Cidades — reforça Jader Filho.
Governistas, por sua vez, dizem não descartar a possibilidade de oferecer a vaga de vice na chapa de Lula para algum partido de centro em troca do apoio formal da legenda, apesar de esse movimento ser considerado delicado.
Isso porque o vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, é bem-avaliado por governistas e, sobretudo, por Lula. O presidente, no entanto, tem deixado o debate correr e mantém a vice em aberto.
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