Poder e Governo

PT aposta em Benedita da Silva para reverter crise após ala de desfile que homenageou Lula desagradar evangélicos

Deputada diz ser uma 'mulher de fé' e argumenta que 'Deus não pode ser instrumento de campanha política'

Agência O Globo - 23/02/2026
PT aposta em Benedita da Silva para reverter crise após ala de desfile que homenageou Lula desagradar evangélicos
Benedita da Silva e o presidente Lula - Foto: Reprodução / Instagram

O PT escalou a deputada federal Benedita da Silva (RJ), evangélica de longa data, para atuar na tentativa de reverter a crise com o segmento religioso após o desfile da Acadêmicos de Niterói, ocorrido na semana passada. A escola de samba homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e apresentou uma ala intitulada “Neoconservadores em conserva”, com famílias representadas em latas de conserva e adereços alusivos à religião.

Em vídeo publicado nas redes sociais nesta segunda-feira, Benedita afirmou: “Deus não pode ser instrumento de campanha política”.

Mulher de fé e respeito à diversidade

Pré-candidata do PT ao Senado pelo Rio de Janeiro, Benedita destacou seu orgulho em ser evangélica há mais de 60 anos e ressaltou que toda família merece respeito. Ela também enfatizou a diversidade dos núcleos familiares no Brasil e criticou o bolsonarismo.

— Usam a Bíblia como se fosse um crachá, como se Deus tivesse um partido. Nas redes, o bolsonarismo diz que defende a família, mas, na prática, planta medo, divisão e mentiras — afirmou a deputada, que também citou programas do governo Lula voltados à proteção das famílias.

Benedita reforçou que cuidar da família “não é discurso, mas atitude”. Segundo ela, “fé de verdade não se usa, se vive”.

Repercussão e pesquisa

A homenagem a Lula gerou reações políticas e pode impactar o segmento evangélico, historicamente resistente ao petista. Conforme pesquisa Genial/Quaest divulgada este mês, 61% dos evangélicos desaprovam Lula, enquanto 34% aprovam sua gestão. No geral, a taxa de desaprovação ao governo é de 49% contra 45% de aprovação.

Lideranças do PT avaliam que o presidente precisará adotar gestos em direção ao segmento evangélico para superar o desgaste causado pelo desfile.

Reação da oposição

Na semana passada, a oposição articulou críticas a Lula e à escola de samba. Segundo pesquisa Ideia, realizada quatro dias após o desfile, a ala foi vista de diferentes formas: 11% consideraram uma crítica artística legítima, 8,7% apontaram como sátira aceitável e 19,2% não souberam opinar.

Movimentações no Planalto

No sábado, Lula reagiu às críticas ao desfile durante entrevista a jornalistas em Nova Délhi, na Índia:

— Eu não penso. Porque, primeiro, eu não sou o carnavalesco, eu não fiz o samba-enredo, eu não cuidei dos carros alegóricos. Eu apenas fui homenageado em uma música maravilhosa — declarou.

Dias antes, o Palácio do Planalto já havia iniciado esforços para conter a crise. O ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, afirmou que postagens críticas ao governo e ao presidente estavam sendo impulsionadas artificialmente. Por isso, o PT avalia entrar com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O ministro entende que, devido aos impulsionamentos, foi “criado um debate falso” sobre o tema.

— É uma coisa impulsionada feita intencionalmente. É oportunismo eleitoral — disse Sidônio.

O prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, também criticou a ala do desfile. Para ele, quem deseja governar o país “precisa entender o Brasil real” e o partido “não pode deixar de dialogar com quem é conservador nos costumes”.

— O PT nasceu como um partido popular, e partido popular não escolhe pedaço do povo. Uma parte significativa do nosso povo pensa assim e merece respeito — afirmou Quaquá nas redes sociais.