Poder e Governo
Autoridades lamentam morte do ex-ministro Raul Jungmann: 'Um dos maiores pensadores e formuladores da nação'
Pernambucano e ex-deputado, ele estava internado em Brasília e tratava um câncer
Políticos e autoridades brasileiros lamentaram neste domingo a morte do ex-ministro Raul Jungmann, que comandou as pastas da Defesa e da Segurança Pública, no governo de Michel Temer, e do Desenvolvimento Agrário, durante o primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. . Jungmann, de 73 anos, estava internado em um hospital em Brasília e tratava um câncer.
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O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes disse que Jungmann "foi um homem público de rara integridade e de extraordinária densidade republicana".
"Sua trajetória confunde-se com a própria história da redemocratização brasileira. Mais do que os cargos que ocupou, permanecem o exemplo e a dignidade com que sempre serviu ao país', afirmou.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou que "ficam as lições sobre diálogo, construção de pontes e respeito institucional".
O senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou que o Brasil perdeu "um dos maiores pensadores e formuladores da nação".
O senador Sérgio Moro (União-PR) disse que definiu a morte do ex-ministro como uma "perda para a vida pública" e disse ter o conhecido na ransição de governo de 2018, "quando ele, com competência, ocupava o cargo de ministro da segurança pública".
O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira (PT), disse que Jungmann "teve longa trajetória na política brasileira".
"Desde a luta das Diretas Já até sua passagem pelo PCB e como fundador do PPS, tendo sido deputado federal e ministro do Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário nos governo de FHC e da Defesa e Segurança Pública no governo Temer".
A senadora Kátia Abreu (PP-GO) descreveu o ex-ministro como "uma das maiores inteligências do pais".
O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos), afirmou que Jungmann "deixou uma trajetória marcada pelo diálogo, pela defesa das instituições e pelo interesse nacional".
O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) disse que a "política brasileira perde um grande quadro, um homem de diálogo, firmeza e profundo compromisso com o interesse público".
Atuação política
Presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entidade que representa o setor da mineração no país, desde 2022, Jungmann se manteve ativo nas discussões sobre a exploração, no Brasil, dos chamados minerais críticos, cruciais para a transformação energética e um dos pontos nodais da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.
Pernambucano nascido em Recife, Jungmann chegou a estudar psicologia na Universidade Católica de Pernambuco, mas abandonou o curso antes de se formar. Ainda durante a ditadura militar, iniciou a vida política, tendo se filiado ao MDB, partido de oposição ao regime. Nos anos 1980, foi um entusiasta do movimento das Diretas Já. Quando da redemocratização do país, Jungmann filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, que sob o comando do também pernambucano Roberto Freire deu origem ao PPS (hoje Cidadania).
A projeção nacional de Jungmann na política ocorreu nos anos 1990. O político foi secretário de planejamento do governo de Miguel Arraes em Pernambuco. Amigo de Fernando Henrique Cardoso e de sua esposa, Ruth Cardoso, Jungmann foi nomeado presidente do Ibama logo no início do governo FH. Em 1996, tornou-se ministro extraordinário de Política Fundiária, pasta criada em resposta à crise aberta pelo massacre de Eldorado dos Carajás. O ministério era ligado diretamente à Presidência e foi uma das estratégias do governo tucano para enfrentar a pressão de movimentos sociais ligados ao campo e que faziam oposição ao governo Fernando Henrique.
Em 1999, a pasta foi transformada em permanente e foi rebatizada no Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que Jungmann comandou até abril de 2002, quando renunciou para disputar uma vaga na Câmara. Em março de 2002, quando um grupo ligado ao MST invadiu uma fazenda do então presidente FH, em Goiás, o ministro foi pessoalmente negociar a desocupação da propriedade. Na ocasião, as Forças Armadas chegaram a ser mobilizadas para fazer a reintegração de posse, mas um acordo costurado por Jungmann com o movimento social evitou uma ação militar.
Como deputado, Jungmann foi eleito por três mandatos (foi eleito em 2002, 2006 e 2014). Na Câmara, destacou-se por liderar a Frente Parlamentar por um Brasil sem Armas e defender o Estatuto do Desarmamento em meio à campanha do referendo de 2005. A campanha pelo “sim” ao desarmamento foi derrotada.
Na Câmara, Jungmann foi presidente de comissões como a de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado (2008-2009) e teve atuação destacada no episódio em que o então presidente de Honduras, Manuel Zelaya, foi deposto e recebeu asilo na embaixada brasileira em Tegucigalpa. O parlamentar liderou uma comissão do Congresso que foi ao país e teria intermediado conversas do então presidente deposto com meios de comunicação.
Sua atuação na área de Segurança Pública e Defesa e a postura crítica em relação ao governo de Dilma Rousseff lhe renderam o convite de Michel Temer para ser o Ministro da Defesa. Em 2018, quando Temer cria uma pasta destinada à Segurança Pública, Jungmann assume a pasta. Jungmann atuou na coordenação do emprego das Forças Armadas na operação da Garantia da Lei e da Ordem no Rio de Janeiro.
No curto período em que existiu, o Ministério da Segurança Pública de Jungmann defendeu uma reconfiguração federal da área de segurança, com mais coordenação nacional e financiamento estável. O então ministro foi um dos articuladores do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), aprovado em 2018 e defendido hoje pelo governo Lula como uma política que viabiliza a integração de forças policiais e de inteligência da União, dos estados e dos municípios.
Jungmann deixa a esposa e dois filhos.
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