Poder e Governo
Morre aos 73 anos o ex-ministro Raul Jungmann, primeiro titular da pasta da Segurança no país
Pernambucano e ex-deputado, ele estava internado em Brasília e tratava um câncer
Primeiro — e até hoje único — titular do Ministério da Segurança Pública, Raul Jungmann dedicou mais de cinco décadas à vida pública. Além da pasta que chefiou em 2018, também foi ministro da Defesa, no governo de Michel Temer, e do Desenvolvimento Agrário, durante o primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Jungmann estava internado em um hospital em Brasília e tratava um câncer no pâncreas. O velório será reservado a familiares e amigos próximos. Ele deixa a esposa e dois filhos.
Desde 2022, presidia o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entidade que representa o setor da mineração no país. Ele se mantinha ativo nas discussões sobre a exploração, no Brasil, dos chamados minerais críticos, cruciais para a transformação energética e um dos pontos nodais da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. Em nota, o Ibram destacou que Jungmann comandou a entidade em um momento “decisivo” e que “será lembrado por sua competência, visão estratégica, capacidade de articulação e pelo legado de diálogo”.
Redemocratização
Pernambucano nascido em Recife, Jungmann chegou a estudar psicologia na Universidade Católica de Pernambuco, mas abandonou o curso antes de se formar. Ainda durante a ditadura militar, iniciou a vida política, tendo se filiado ao MDB, partido de oposição ao regime. Nos anos 1980, foi um entusiasta do movimento das Diretas Já. Quando da redemocratização do país, Jungmann filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), que sob o comando do também pernambucano Roberto Freire deu origem ao PPS (hoje Cidadania).
A projeção nacional de Jungmann na política ocorreu nos anos 1990. Ele foi secretário de planejamento do governo de Miguel Arraes em Pernambuco. Amigo de Fernando Henrique Cardoso e de sua esposa, Ruth Cardoso, Jungmann foi nomeado presidente do Ibama logo no início do governo FH. Em 1996, tornou-se ministro extraordinário de Política Fundiária, pasta criada em resposta à crise aberta pelo massacre de Eldorado dos Carajás. O ministério era ligado diretamente à Presidência e foi uma das estratégias do governo para enfrentar a pressão de movimentos sociais ligados ao campo.
Em 1999, a pasta foi transformada em permanente e foi rebatizada no Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que Jungmann comandou até abril de 2002, quando renunciou para disputar uma vaga na Câmara. Em março de 2002, quando um grupo ligado ao MST invadiu uma fazenda do então presidente FH, em Goiás, o ministro foi pessoalmente negociar a desocupação da propriedade. Na ocasião, as Forças Armadas chegaram a ser mobilizadas para fazer a reintegração de posse, mas um acordo costurado por Jungmann com o movimento social evitou uma ação militar.
Como deputado, Jungmann foi eleito por três mandatos: 2002, 2006 e 2014. Destacou-se por liderar a Frente Parlamentar por um Brasil sem Armas e defender o Estatuto do Desarmamento em meio à campanha do referendo de 2005. A campanha pelo “sim” ao desarmamento foi derrotada.
Na Câmara, Jungmann foi presidente de comissões como a de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado (2008-2009) e teve atuação destacada no episódio em que o então presidente de Honduras, Manuel Zelaya, foi deposto e recebeu asilo na embaixada brasileira em Tegucigalpa. O parlamentar liderou uma comissão do Congresso que foi ao país e teria intermediado conversas do então presidente deposto com meios de comunicação.
Sua atuação na área de Segurança Pública e Defesa e a postura crítica em relação ao governo de Dilma Rousseff lhe renderam o convite de Michel Temer para ser o Ministro da Defesa. Em 2018, quando Temer criou um ministério destinado à Segurança Pública, Jungmann assumiu a pasta, que acabou extinta ao fim daquele governo. Como ministro da Segurança, atuou na coordenação do emprego das Forças Armadas na operação da Garantia da Lei e da Ordem no Rio.
No curto período em que existiu, o Ministério da Segurança Pública de Jungmann defendeu uma reconfiguração federal da área de segurança, com mais coordenação nacional e financiamento estável. O então ministro foi um dos articuladores do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), aprovado em 2018 e defendido hoje pelo governo Lula como uma política que viabiliza a integração de forças policiais e de inteligência da União, dos estados e dos municípios.
Políticos de diferentes matizes lamentaram o falecimento de Jungmann. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) disse que “ficam as lições sobre diálogo, construção de pontes e respeito institucional”. Motta lembrou ainda que em dezembro a Câmara concedeu a ele uma Moção de Louvor, em reconhecimento à sua vida pública. Ex-ministro da Justiça, entre 2019 e 2020, o hoje senador Sergio Moro (União-PR) lembrou ter conhecido Jungmann na transição entre os governos Temer e Bolsonaro, no fim de 2018, e disse que ele ocupava “com competência” o cargo de ministro da Segurança. Já o atual ministro do Desenvolvimento Agrário no governo Lula, Paulo Teixeira (PT), lembrou a trajetória de Jungmann e afirmou que ele participou “com generosidade e espírito democrático do conselho dos ex-ministros” da pasta, montado na atual gestão.
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