Poder e Governo
Motta sinaliza abertura ao governo Lula e participa de evento sobre reforma tributária
Presidente da Câmara viaja a Brasília durante recesso parlamentar e prestigia cerimônia do Planalto
Um dia após afirmar que aguarda “gestos” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes de decidir seu apoio à reeleição do petista, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), marcou presença nesta terça-feira em uma cerimônia do governo dedicada à regulamentação da reforma tributária. Motta chegou a Brasília na noite anterior, vindo da Paraíba, onde estava durante o recesso parlamentar, e acompanhou Lula no lançamento da plataforma digital da reforma, realizado na sede do Serpro, na capital federal.
O evento foi planejado pelo governo para reforçar a marca política do novo sistema tributário e consolidar o encerramento da etapa de regulamentação. Na ocasião, Lula sancionou o Projeto de Lei Complementar 108/2024, que cria o Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) — tributo estadual e municipal que, junto com a CBS (federal), compõe o IVA dual. A mudança unifica tributos e é tratada pelo Planalto como uma vitrine institucional para 2026, sob o argumento de que o novo modelo amplia a transparência e simplifica a arrecadação.
A participação de Motta ocorre após uma série de movimentos do deputado que evidenciam sua estratégia de equilíbrio entre governo e oposição. Na semana passada, ele optou por não comparecer ao ato do 8 de Janeiro promovido pelo Planalto para marcar três anos dos ataques às sedes dos Três Poderes, repetindo a ausência registrada em 2025.
A ausência aconteceu poucos dias depois de o governo encaminhar ao Congresso o primeiro projeto do ano, que cria o Instituto Federal do Sertão Paraibano, com sede em Patos (PB), reduto eleitoral de Motta. No município, o pai do deputado, Nabor Wanderley (Republicanos), foi reeleito prefeito em 2024 e busca viabilizar-se como nome ao Senado na chapa governista estadual.
Interlocutores do Planalto interpretaram o envio do projeto como um aceno ao comando da Câmara, em meio à tentativa de recompor o diálogo após desgastes ocorridos em 2025.
Nesta segunda-feira, durante evento em João Pessoa no qual o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, oficializou apoio do governo ao pré-carnaval da capital paraibana, Motta foi questionado sobre o cenário eleitoral e afirmou que a definição sobre apoio a Lula dependerá de reciprocidade.
— A política se constrói com reciprocidade. Precisamos, nessa construção política, entender quais apoios e gestos receberemos para decidir quem apoiaremos. É isso que devemos construir de forma tranquila e respeitosa com a população do nosso estado — declarou Motta.
No mesmo evento, o presidente da Câmara também tratou com tranquilidade o veto presidencial ao projeto que altera as regras de dosimetria das penas dos condenados do 8 de Janeiro. Motta lembrou que o texto foi aprovado com folga na Câmara e disse que o Congresso analisará a decisão do Executivo. Líderes do Centrão e da oposição avaliam que o veto tende a ser derrubado, mas ainda não há prazo para a votação, que dependerá do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Aliados de Motta afirmam que a presença dele nesta terça-feira em um evento de perfil institucional segue a linha adotada desde que assumiu o comando da Câmara: marcar posição sem assumir, por ora, alinhamento automático a qualquer campo, preservando margem de negociação com o Planalto, especialmente em ano eleitoral.
Integrantes da Secretaria de Relações Institucionais (SRI) destacam que a ida de Hugo Motta se justifica pelo protagonismo do Congresso durante a tramitação da reforma tributária. Aliados do governo reforçam que Motta já esteve presente em outros eventos relacionados ao tema.
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