Poder e Governo
Fundo de Segurança, PF e guarda municipal: os pontos tidos como inegociáveis pelo governo na PEC da Segurança
Interlocutores do Palácio do Planalto querem retomar quatro aspectos da proposta original que foram alterados no relatório de Mendonça Filho
Integrantes da base governista definiram um conjunto de pontos que pretendem alterar no relatório apresentado pelo deputado Mendonça Filho (União Brasil-PE) sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública antes que o texto seja levado à votação na Câmara. Entre as condições colocadas por líderes aliados ao Planalto estão mudanças no desenho do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP), a preservação de competências da Polícia Federal e a retirada de regras que, na avaliação do governo, podem levar à extinção de guardas municipais em cidades menores.
A ofensiva ocorre após a saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça e em meio à avaliação de governistas de que, sem um articulador político à frente da pasta, cresceu o risco de a PEC avançar com um desenho distante da versão originalmente defendida pelo Executivo.
Nos bastidores, integrantes do governo afirmam que o Planalto quer condicionar qualquer avanço da PEC a uma nova rodada de negociações, com alterações no parecer do relator. O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), resumiu a posição ao afirmar que não há disposição para votar a proposta apenas para carimbar o texto apresentado por Mendonça.
— Se for para aprovar o relatório do Mendonça, melhor não votar — disse.
Entre os pontos classificados como essenciais está o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP). No relatório apresentado por Mendonça Filho, o fundo é constitucionalizado, mas o texto fixa que a repartição dos recursos deve ser feita apenas para estados e Distrito Federal. Interlocutores do Palácio do Planalto afirmam que esse modelo transforma o fundo, na prática, em um caixa exclusivo de repasse, retirando do Ministério da Justiça margem para usar parte do dinheiro em ações nacionais conduzidas pelo próprio governo federal.
Para aliados do Executivo, isso contraria a lógica defendida pelo Planalto na PEC, que é fortalecer integração, coordenação e ações conjuntas com alcance interestadual. Governistas argumentam que há políticas federais que não funcionam só com repasse porque dependem de comando central, estrutura permanente e financiamento direto — como operações da Força Nacional, sistemas nacionais de estatísticas e iniciativas integradas de combate às facções coordenadas pela União.
Outro ponto tratado como inegociável envolve o papel da Polícia Federal no combate ao crime organizado. A proposta original do governo buscava ampliar e deixar explícita a atribuição da PF para investigar organizações criminosas e milícias com repercussão interestadual ou internacional. No relatório, porém, foi incluída uma ressalva que limita essa atuação quando estiverem em jogo bens ou interesses da União sob “administração militar”. Para o Planalto, o dispositivo pode restringir o alcance da PF e afastar o órgão de investigações consideradas estratégicas e de repercussão nacional.
A terceira frente de resistência diz respeito às regras para guardas municipais. Pelo substitutivo apresentado por Mendonça, a criação da chamada “polícia municipal comunitária” ficaria restrita a municípios com mais de 100 mil habitantes. Para o governo, esse recorte pode gerar um efeito colateral indesejado: a necessidade de extinção de guardas em cidades menores após um período de transição, além de tensionar a relação com prefeitos. Um levantamento citado por interlocutores do Planalto aponta que há 1.238 municípios com guarda municipal, mas apenas 257 possuem mais de 100 mil habitantes — o que deixaria cerca de 80% das cidades fora do novo enquadramento previsto no relatório.
O quarto ponto tratado como inegociável por governistas é a tentativa de resgatar, no texto final, o papel coordenador da União no Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), que, segundo interlocutores do Planalto, foi esvaziado no parecer do relator. A avaliação é de que o relatório reforça uma lógica de descentralização e retira dispositivos que dariam ao governo federal mais instrumentos de coordenação e capacidade normativa sobre diretrizes gerais da política de segurança.
A definição de “linhas vermelhas” ocorre em um ambiente já contaminado pela leitura eleitoral da pauta. No entorno do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a avaliação é de que o texto ainda exigirá negociação antes de avançar. Em café com jornalistas no mês passado, Motta indicou a intenção de trabalhar para que a proposta caminhe após o recesso parlamentar e definiu o relatório como ponto de partida para ajustes no Legislativo.
— É um trabalho de aprimoramento do Congresso do projeto que veio do Executivo. Vamos trabalhar para votarmos na volta do recesso — afirmou.
Líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ) defendeu que a discussão seja retomada após a definição do novo ministro da Justiça. Segundo ele, a articulação passa necessariamente pela pasta e a saída de Lewandowski interrompe o ciclo de negociações até aqui. Ele também afirmou que o relatório apresentado por Mendonça não reflete o projeto do Executivo.
— O texto como está hoje não é o texto que o governo quer construir. Mas temos que esperar quem vai conduzir. É um tema da eleição, a gente não vai desistir. Se eles não quiserem votar, vão ter que deixar claro. Nós não vamos recuar — afirmou.
Mendonça, por sua vez, disse não ter sido procurado sobre mudanças e atribuiu as críticas a uma posição isolada da bancada petista.
— Não fui procurado por líderes do governo. São posições exclusivas do PT, pelo menos até aqui. Aguardemos — afirmou.
Lewandowski deixou o Ministério da Justiça na última sexta-feira após alegar razões pessoais e familiares. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não definiu o substituto. Entre os nomes citados nos bastidores estão o advogado-geral da Petrobras, Wellington Cesar Lima e Silva, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, ligado ao grupo Prerrogativas, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
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