Internacional

Violações cometidas no Oriente Médio são repetidas nos conflitos africanos, avaliam analistas

29/08/2025
Violações cometidas no Oriente Médio são repetidas nos conflitos africanos, avaliam analistas
Foto: © AP Photo / Samir Bol

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmam ser uma ilusão achar que o que ocorre em uma região não afeta a outra, e alertam que um dos maiores riscos que a volatilidade no Oriente Médio traz para países do Chifre da África é a violação da soberania.

A instabilidade vivenciada pelo Oriente Médio coloca em risco muitos países da África que importam petróleo da região. Ademais, as narrativas de grupos extremistas e a migração forçada para o Norte da África também tornam vulneráveis as populações de países do continente.

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Patrícia Teixeira, professora associada de história da África da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que o que ocorre no Oriente Médio, como a crise em Gaza, tem aberto precedentes para ataques similares por toda a África.

"Todas de violações de direitos [na Faixa de Gaza], especialmente de mulheres e crianças, como ataques aos hospitais, já abriram precedentes para que isso se intensificasse no conflito do Sudão e do Sudão do Sul. Inclusive, há até registros no ataque a Old Fangak [cidade no Sudão do Sul] de drones que destruíram o hospital dos Médicos Sem Fronteiras", afirma.

"Além disso, violações que nós tínhamos já notícias, bem terríveis contra mulheres e crianças, como a gente já ouviu ser reportado no Congo, em Cabo Delgado, e regiões ainda mais distantes desse foco do conflito com o Oriente Médio, isso só piorou com o tempo."

Teixeira afirma ser uma ilusão achar que o que ocorre em uma região não afeta a outra, e considera que os mesmos agentes que hoje desestabilizam Gaza também intencionam fazer o mesmo em outros territórios, a fim de ter o controle de reservas de gás natural e urânio.

Ela acrescenta que, se conflitos que ocorrem no mar Vermelho levarem ao bloqueio de rotas comerciais na região por muito tempo, haverá grandes consequências para os países do Chifre da África.

"Então, realmente, essa região é engolfada por tudo o que acontece no Oriente Médio, até porque eu não vejo uma coisa mais fracionada. Eu vejo cada vez mais um reordenamento neocolonial, em que todos esses territórios estão realmente postos numa situação de subjugação", afirma.

Andrew Traumann, professor de relações internacionais do Centro Universitário Unicuritiba, afirma que os países do Oriente Médio e da África, em busca de soluções de segurança, cada vez menos confiam no Ocidente e passaram a diversificar suas relações, se aproximando de Rússia, China e Irã.

Como exemplo do movimento, Traumann cita o caso de Mali, Burkina Faso e Níger, que realizaram uma "descolonização efetiva em relação à França". Os três países se juntaram na Confederação da Aliança dos Estados do Sahel (AES) e abandonaram a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) — bloco econômico visto como sujeito aos ditames franceses.

Além disso, os países da AES ordenaram a retirada das tropas francesas dos seus territórios e estabeleceram políticas de segurança em conjunto no combate ao terrorismo.

"Agora eles estão livres para fazer negócios com os Emirados [Árabes Unidos], com a Rússia, com quem eles quiserem. Antes eles estavam presos nessa questão neocolonialista francesa."

Por Sputinik Brasil