Internacional
A derrota de uma cultura política e o avanço rumo ao desconhecido na Argentina; leia a análise
Resultado de longo processo eleitoral forçará a política tradicional, e especialmente o partido no poder, a envolver-se num processo de profunda autocrítica e introspecção
Sem garantias ou certezas, a grande maioria dos argentinos optou por algo diferente. Uma viagem ao desconhecido? Um salto para o vazio? Uma única certeza parece dominar a cena: basta do mesmo. É difícil imaginar os contornos do “novo”, mas o que se perdeu nestas eleições foi uma cultura política que dominou as alavancas do poder durante grande parte dos últimos quarenta anos. Ganhou uma força artesanal, sem experiência na militância nem na administração do Estado, sem estrutura nem recursos, cuja maior força parece ser a de ter representado a antítese da política tradicional e de ter interpretado o cansaço de boa parte da sociedade.
Contexto: Ultradireitista Milei é eleito presidente da Argentina em eleição histórica, na pior derrota do peronismo em 40 anos
Futuro: Quais serão os principais desafios de Javier Milei, presidente eleito da Argentina?
Com a vitória de Milei, milhões de cidadãos comuns impuseram o que representa um fracasso monumental ao sistema partidário. Votaram contra “os dispositivos”, contra “o fio”, contra a retórica convencional da política. Votaram também contra a colonização do Estado e contra um gesto imposto com o qual o poder escondeu os seus desvios e privilégios. Votaram contra a falsa ideia de um “Estado presente” que se expandiu ao mesmo ritmo que a sua ineficácia para garantir uma economia estável, uma educação de qualidade, uma saúde acessível e um clima de segurança.
O veículo desse voto “contra” foi uma figura completamente extravagante, que exagerou até mesmo nas suas características mais perturbadoras. Milei não apenas incorporou um desejo de mudança, mas também uma intenção de romper com o status quo. Coberto por uma retórica inflamada e muitas vezes agressiva, propôs uma virada brusca, com reformas drásticas e audaciosas que podem ter criado, em alguns setores da sociedade, a ilusão de uma solução mágica.
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O resultado deste longo processo eleitoral forçará a política tradicional, e especialmente o partido no poder, a envolver-se num processo de profunda autocrítica e introspecção. Foi derrotado por uma força amadora que nem sequer conseguiu esconder as suas deficiências. Foi vencido por um estranho que mal contava com um pequeno e exótico grupo de entusiastas. Quanto foi abusado o poder para que uma força improvisada o assumisse? Quão grande tem sido a fraude para que uma liderança mal emergente, sem ancoragem territorial, sem recursos e sem preparação, derrubar o sistema de coligação e varrer a poderosa estrutura do partido no poder? Até que ponto foi a corrupção e a apropriação estatal para que o discurso da “motosserra” conseguisse se espalhar?
A sociedade decidiu “embaralhar e distribuir novamente”. Não sabe se receberá cartas melhores, mas a maioria acredita que com as que tinha perderia inexoravelmente. Com a mesma certeza, porém, optou por continuar a jogar com as regras do sistema, e talvez esta seja a melhor notícia quarenta anos após a recuperação democrática. Em meio à angústia, desesperança e frustração, a sociedade empreendeu uma nova busca e causou um choque político, mas através das urnas.
Milei vence com boa parcela de votos frágeis e provisórios. Neste segundo turno, muitos votaram nele com enormes dúvidas, com distanciamento emocional e com atitude resignada. Se ele acreditasse ter recebido um cheque em branco, iniciaria o seu governo com um passo em falso. Ele recebeu um mandato: dar a esse grito de raiva e rebelião o canal de esperança; a de converter suas promessas de ruptura no projeto construtivo de uma Argentina virtuosa. Ele também recebeu o mandato de construir pontes e dialogar com uma grande parcela da sociedade que não votou nele. Ele cumprirá esse mandato? Qualquer resposta seria especulação.
Com a votação de ontem concluiu-se um processo em que a sociedade catalisou as suas frustrações, os seus medos, as suas expectativas e as suas dúvidas. Agora começa o árduo desafio de construir algo diferente. É, obviamente, o desafio do novo presidente, mas também da oposição e da própria sociedade. Também a do governo em exercício, que deve garantir uma transição responsável.
Decifrar o resultado desta eleição exigirá doses iguais de humildade, amplitude e paciência. As simplificações podem ser uma armadilha, assim como as conclusões contundentes e categóricas. A sociedade pendeu para um reset profundo, mas a interpretação dessa mensagem, as ferramentas com que ela é executada e as prioridades que são estabelecidas irão selar o destino desta jornada para algo diferente.
É claro que a decência, a exemplaridade e a convivência seriam um bom ponto de partida. A partir daí poderão ser construídas as bases de um país estável, no qual o esforço, a educação e o trabalho voltarão a ser os vetores do desenvolvimento individual e coletivo.
Depois de votar, milhões de argentinos dormiram esperando que não apenas comece algo novo, mas também algo melhor. A novidade parece garantida. Teremos que construir o melhor juntos.
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