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Direita vai às ruas na Espanha contra proposta de premier de anistiar separatistas da Catalunha

Manobra do primeiro-ministro em troca de apoio do grupo político no Parlamento irritou o Partido Popular (PP), principal força da direita espanhola, que convocou manifestações

Agência O Globo - 13/11/2023
Direita vai às ruas na Espanha contra proposta de premier de anistiar separatistas da Catalunha

Dezenas de milhares de espanhóis saíram às ruas neste domingo, convocados pela direita, para protestar contra a proposta de anistia para os separatistas catalães concedida pelo premier do país, Pedro Sánchez, numa manobra para garantir o apoio político do grupo no Parlamento e retornar ao poder.

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Considerada por parte da sociedade espanhola como um ataque ao Estado de direito, a controversa proposta de anistia surge seis anos depois da tentativa de separação da Catalunha (nordeste), em 2017, culminando em uma das mais graves crises políticas da Espanha contemporânea.

Na tarde deste domingo, dezenas de milhares de manifestantes se reuniram em 52 cidades do país para dizer "não à anistia", atendendo ao chamado do Partido Popular (PP), principal legenda da oposição de direita, que obteve maioria nas eleições gerais, mas não conseguiu formar uma coalizão no Parlamento para governar.

— Não vamos nos calar até que haja eleições — disse seu líder, Alberto Núñez Feijóo, durante um discurso em Madri.

Essa mobilização "vai muito além dos partidos", acrescentou Feijóo, que venceu as eleições legislativas de julho, mas não conseguiu ser empossado como presidente de governo por falta de apoio suficiente no Parlamento.

Na capital, cerca de 80 mil manifestantes, segundo a delegação do governo, formaram um mar de bandeiras espanholas na central Plaza de la Puerta del Sol e arredores, gritando "Renúncia de Pedro Sánchez" e com faixas que diziam "Chega de desigualdade regional", ou "Sánchez divide a nação e cria atrito".

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Pelas costas dos espanhóis

Pedro Sánchez, que ficou em segundo lugar nas eleições, tem agora garantido o regresso ao poder, graças ao apoio de vários grupos e dos sete deputados da legenda separatista de Carles Puigdemont. Principal figura da tentativa de secessão de 2017, ele fugiu para a Bélgica para evitar ser processado.

Em troca de seu apoio, o partido de Puigdemont, Junts per Catalunya (Juntos pela Catalunha), obteve uma lei de anistia para os separatistas processados pela Justiça, principalmente pelos acontecimentos de 2017, assim como a abertura de negociações sobre a questão do "reconhecimento da Catalunha como nação", entre outros assuntos.

A direita espanhola, parte do Poder Judiciário e também alguns dirigentes moderados do Partido Socialista (PSOE) de Sánchez consideram que a medida de anistia vai contra os princípios de igualdade e unidade territorial e da separação de poderes.

Na multidão em Madri, Laura Díaz Bordonado, uma advogada de 31 anos envolta em uma bandeira espanhola, admitiu que, além de sentir "raiva, ou indignação, também tem medo" dessa aliança política.

Um pouco mais longe, Alberto, um professor de 32 anos que também vota na direita, denunciou um pacto assinado "pelas costas de todos que estão aqui".

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Aceitar 'o resultado das urnas'

Falando no Congresso dos Socialistas Europeus em Málaga, sul da Espanha, Sánchez, no poder desde 2018, pediu no sábado ao Partido Popular que "aceite o resultado das urnas e a legitimidade do governo que vamos formar em breve".

O partido de extrema direita Vox se uniu aos protestos do PP neste domingo, antes de participar das manifestações em frente à sede do PSOE em todo o país.

Em Madri, o líder do Vox, Santiago Abascal, fez um apelo por uma mobilização "permanente" e "crescente" para evitar o "golpe de Estado" que, segundo ele, representa o acordo entre os socialistas e os separatistas catalães.

A sede nacional do PSOE, em Madri, é alvo de manifestações diárias há mais de uma semana a pedido de organizações próximas do Vox. Estas manifestações degeneraram várias vezes em confrontos entre ativistas radicais e a polícia.