Mundo Tech
Huawei aposta em loja física para disputar mercado de celulares no Brasil
Gigante chinesa deixou de vender smartphones no mercado doméstico em 2019, impactada pelas sanções impostas pelos Estados Unidos, e agora volta a disputar espaço com portfólio completo.
Nos últimos anos, o consumidor brasileiro presenciou uma transformação na percepção dos produtos fabricados na China. O fenômeno, impulsionado pelo setor automotivo com a chegada de carros elétricos de alta tecnologia, ajudou a quebrar o estigma de que a indústria asiática focava apenas no baixo custo. Pegando carona nessa quebra de paradigma, a gigante de tecnologia Huawei consolida seu retorno ao varejo nacional com uma estratégia robusta para o mercado premium.
Neste sábado (dia 3), a companhia inaugura sua primeira loja autorizada definitiva em São Paulo, no Shopping Center Norte. O movimento ocorre pouco mais de um ano após o teste de mercado com uma pop-up store na Avenida Paulista e marca uma nova fase de expansão física, que já conta com parcerias em mais de 300 pontos de vendas de redes como Magazine Luiza e Fast Shop.
A marca parou de vender smartphones no mercado doméstico em 2019, impactada pelas sanções impostas pelos Estados Unidos. Contudo, a Huawei agora volta a disputar o mercado brasileiro com um portfólio completo. A missão não é simples: a empresa entra em uma arena atualmente dominada pela Samsung e Motorola nos aparelhos de categorias básica e intermediária, e altamente polarizada por Apple e a própria Samsung no cobiçado segmento topo de linha.
Para contornar o duopólio e conquistar os brasileiros, a tática da chinesa é apostar fortemente na construção de um ecossistema focado em dispositivos vestíveis e de áudio, com apelo direto à saúde e ao esporte. Lançamentos recentes, como a linha de relógios Watch GT 7 e os fones FreeBuds, têm funcionado como o primeiro ponto de contato com o usuário.
— Os vestíveis são a nossa principal porta de entrada para trazer o consumidor para dentro da marca. Como são produtos agnósticos, que funcionam tanto com Android quanto com iOS, conseguimos encantar o cliente pela qualidade e fazer com que ele evolua na jornada do nosso ecossistema — afirma Diego Marcel, gerente de Relações Públicas da Huawei CBG no Brasil.
Potência
Embora seja uma potência reconhecida no mercado corporativo (B2B) e na infraestrutura de telecomunicações no Brasil, a Huawei ainda precisa "furar a bolha" para chegar ao consumidor final. A expectativa da companhia é replicar por aqui o cenário de outros vizinhos latino-americanos, onde a operação comercial não sofreu interrupções nos últimos anos.
— Experimentamos mercados muito parecidos com o nosso, nos quais a nossa performance é muito boa. No México, onde a operação da Huawei não foi interrompida em 2019, somos hoje uma das marcas mais vendidas. Queremos construir essa mesma presença de longo prazo no mercado de consumo do Brasil — destaca o executivo da companhia.
Consolidando essa retomada, a fabricante chinesa pretende acelerar a chegada de novidades ao país, encurtando cada vez mais a janela de tempo entre o anúncio global e a disponibilidade nas prateleiras nacionais. Segundo Marcel, a operação brasileira tem um papel central no balanço global da divisão de consumo da companhia, que registrou seus maiores crescimentos recentes justamente ao reativar os mercados onde havia restringido sua atuação.
Experiência física como estratégia
Especialistas avaliam que o sucesso dessa nova empreitada depende intimamente da presença física. Em vez de apenas pontos transacionais de venda, as lojas em shoppings de alto fluxo assumem o papel de centros de experimentação e imersão para tentar convencer o consumidor sobre o ecossistema.
— Todas as marcas de tecnologia hoje praticamente não têm grande diferencial em usabilidade, então é uma briga pela mente do consumidor. A Huawei é muito forte no corporativo, mas no varejo precisa de espaços de experiência para entrar no rol de consideração de compra das pessoas — analisa Maurício Morgado, coordenador do Centro de Excelência em Varejo da FGV EAESP.
Essa tentativa de seduzir o cliente e integrar o espaço físico ao digital aterrissa em um terreno que vem sendo preparado por outras conterrâneas. Além da reconfiguração causada pelas montadoras, marcas chinesas de tecnologia como Oppo, Realme e Xiaomi vêm abrindo espaço e pavimentando o caminho no Brasil nos últimos anos.
— O mercado automotivo foi um dos grandes responsáveis por desbravar a resistência e mostrar que a China produz itens altamente premium. A Huawei certamente vai se beneficiar dessa receptividade maior da tecnologia chinesa para conseguir disputar o segmento topo de linha — avalia David Kallás, professor do Insper e consultor de gestão estratégica.
Receptividade
Essa receptividade abre espaço para a frente mais desafiadora da marca, que é a venda de smartphones. Embora reconheça que o brasileiro demanda um tempo maior de pesquisa e "uma curva de aprendizado mais alta" para trocar de aparelho, a empresa aposta em diferenciais de hardware.
Marcel cita como exemplos a chegada de modelos como o Nova 11 Max, focado em alta capacidade de bateria, e o topo de linha Pura 70 Ultra, que foca nas câmeras.
— O on-line é muito importante para quem já conhece a marca e faz a compra direta. Mas para quem está descobrindo a Huawei ou quer testar a câmera antes de investir em um celular premium, a loja física é a nossa vitrine de experimentação. É onde o consumidor vai se encantar e amarrar o seu processo de compra — diz o executivo.
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