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Anistia Internacional denunciará Milei à ONU por ataque a jornalistas

Organização irá relatar hostilidades do presidente argentino a profissionais da imprensa.

Bruno de Freitas Moura - Repórter da Agência Brasil 27/10/2026
Anistia Internacional denunciará Milei à ONU por ataque a jornalistas
Anistia Internacional planeja denunciar Javier Milei à ONU por ataques a jornalistas.

A Anistia Internacional informou que vai denunciar o presidente argentino, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por hostilidade a jornalistas.

Na última semana, Milei xingou os profissionais que fizeram reportagens investigativas contra ele e afirmou que deveriam “queimar na fogueira”.

As hostilidades de Milei ocorreram após a Justiça argentina arquivar, na última sexta-feira (23), o caso conhecido como “criptogate”, que levantava suspeitas sobre a participação dele e de outras pessoas, como a irmã, Karina Milei, em um esquema de irregularidades na criação da criptomoeda $Libra.

Milei teria utilizado as redes sociais para promover o ativo virtual. Contudo, para o juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi, não houve delitos.

“Queimar na fogueira”

Milei citou nominalmente os jornalistas Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrigues, Natalia Volosin e Luis Novaresio, desqualificando-os e xingando-os.

“Empacotados, corruptos, mercenários da mentira e fabricantes seriais de operações”, disse em discurso. Em seguida, declarou que “os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*”.

Na rede social X, o mandatário escreveu que foi alvo de “tremenda operação política e midiática cujo único objetivo era prejudicar a presidência para fins políticos de conspiração golpista.” A publicação classificou os jornalistas como “subornados e mercenários da mentira”.

Para a Anistia Internacional, as declarações violentas do presidente aprofundam o assédio à imprensa, colocando em risco aqueles que informam e deteriorando as garantias do debate democrático.

“A organização manifesta profunda preocupação com a escalada de hostilidade contra a imprensa e levará esses fatos às instâncias internacionais em seu trabalho de monitoramento e denúncia da deterioração da liberdade de expressão na Argentina”, acrescenta.

Sobre a referência a “queimar na fogueira”, a Anistia Internacional considera que a expressão evoca violência extrema e constitui uma “escalada grave e inadmissível na hostilidade presidencial contra a imprensa”.

“Não se limita a questionar uma cobertura jornalística, mas individualiza e estigmatiza jornalistas”, pontua.

A diretora-executiva da ONG na Argentina, Mariela Belski, assinalou que, quando o presidente aponta publicamente jornalistas e utiliza imagens de violência para se referir àqueles que questionam sua gestão, contribui para gerar um clima de intimidação que pode abrir caminho para novas agressões.

“O cargo que ocupa exige uma responsabilidade reforçada: deve garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança. O assédio por parte do poder deteriora as condições do debate democrático e afeta o direito de toda a sociedade de estar informada”, disse.

Histórico de hostilidade

Para fundamentar a acusação de deterioração contínua das condições para o exercício do jornalismo, a ONG cita o Monitoramento da Liberdade de Expressão do Fórum de Jornalismo Argentino, que registrou 278 casos de ataques contra jornalistas em 2025, um aumento de 55% em relação a 2024, o maior número desde o início dos registros, em 2008.

O presidente Javier Milei foi identificado como autor de 119 desses casos, sendo o principal agressor individual. O levantamento contabilizou também 139 casos de discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições de acesso à informação.

A Anistia Internacional ressalta que a repetição dessas práticas pode gerar um efeito silenciador que vai além das pessoas diretamente atacadas: desestimula investigações, favorece a autocensura e empobrece a circulação de informações de interesse público.

“Investigar a atuação daqueles que governam é uma função essencial do jornalismo e garantia para o controle democrático do poder”, sustenta.

CIDH

A ONG relembra que em novembro de 2025 participou, juntamente com organizações de direitos humanos, entidades jornalísticas e sindicatos de imprensa, de uma audiência sobre a situação da liberdade de expressão na CIDH.

Na ocasião, foram denunciados o aumento das agressões, a violência online, o assédio judicial e os ataques durante a cobertura de protestos, em um contexto de expansão de práticas autoritárias.

A CIDH solicitou informações ao Estado argentino e manifestou interesse em realizar uma visita ao país.

A CIDH é uma instituição judicial autônoma da Organização dos Estados Americanos (OEA), que visa aplicar e interpretar a Convenção Americana - também chamada de Pacto de San José da Costa Rica - um tratado internacional sobre direitos e liberdades.

A jornalista Carla Gaudensi, secretária da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, informou à Agência Brasil que a entidade se juntará à Anistia Internacional na representação.

Sindicato repudia Milei

O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires emitiu nota de repúdio ao presidente argentino, na qual afirma que o mandatário “voltou a ultrapassar um limite gravíssimo”.

“A incitação a ‘queimar na fogueira’ um grupo de jornalistas deve provocar uma reação imediata de todo o espectro político e midiático para frear os ataques contra nossa profissão. Não haverá espaço para lamentações se a violência promovida pelo presidente acabar se transformando em fatos concretos”, publicou.

Brasileiro

No último dia 12, o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr., conhecido por críticas ao governo Milei, foi impedido de entrar na Argentina ao desembarcar no aeroporto Aeroparque, em Buenos Aires.

As autoridades migratórias determinaram o cancelamento de sua residência permanente e estabeleceram uma proibição de reingresso por cinco anos.

Rogério Tomaz Jr. vive em Brasília, acompanha a política argentina e produz conteúdos sobre os impactos econômicos e sociais das medidas adotadas pelo governo Milei, incluindo cortes nos gastos públicos, privatizações e inflação. Ele também trabalha em um livro sobre a gestão do presidente argentino.