Geral

Estudo lista 5 estratégias para aumentar as taxas de vacinação

Medidas para incentivar a imunização no Brasil

Estadao Conteudo 23/10/2026
Estudo lista 5 estratégias para aumentar as taxas de vacinação
Estratégias para Reverter Queda na Vacinação - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Criado em 1973, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) ajudou o Brasil a controlar doenças que, durante décadas, representaram uma ameaça à saúde pública. A iniciativa tornou o País uma referência internacional em vacinação, mas esse cenário começou a mudar nos últimos anos.

A partir de 2016, o Brasil passou a registrar uma queda nas coberturas vacinais, tendência que se agravou durante a pandemia de covid-19. Segundo especialistas, a taxa de imunização de um conjunto de vacinas básicas caiu de 92% em 2015 para 68% em 2021.

De acordo com o Ministério da Saúde, a redução está associada a diferentes fatores, como dificuldades de acesso aos serviços de saúde, desinformação, falta de confiança nas vacinas e menor percepção do risco de doenças que podem ser prevenidas pela imunização.

A recuperação começou em 2022, especialmente na vacinação infantil. Segundo o ministério, 15 das 16 vacinas do calendário infantil registraram aumento de cobertura em 2024, com crescimento médio de 17 pontos percentuais em relação a 2022. Apesar do avanço, o Brasil chega a 2026 com parte dos imunizantes ainda abaixo das metas estabelecidas pelo PNI.

A importância de recuperar a cultura da imunização será tema da entrevista "Prevenir é financiar o futuro: como recuperar a cultura de imunização", com Rosana Richtmann, infectologista e presidente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do Hospital e Maternidade Santa Joana e da Pro Matre Paulista, durante o Summit Saúde 2026.

O evento será promovido pelo Estadão na próxima terça-feira, 27, em São Paulo. A entrada é gratuita e, para participar, basta preencher o formulário de inscrição disponível aqui.

Medidas para incentivar a vacinação

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Epidemiologia e Serviços de Saúde reuniu cinco estratégias que podem ajudar a reduzir a hesitação vacinal. O termo é usado para descrever a resistência, o adiamento ou a recusa em receber vacinas, mesmo quando elas estão disponíveis.

Desenvolvida em parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e a Fiocruz Mato Grosso do Sul, a pesquisa analisou 48 revisões sistemáticas publicadas entre 2012 e 2024. O objetivo foi identificar iniciativas capazes de orientar políticas públicas e melhorar a adesão à vacinação no Brasil.

Entre as ações identificadas pelos pesquisadores estão:

1 - Melhorar a comunicação com a população: criar campanhas com linguagem acessível e adaptadas a diferentes públicos, utilizando redes sociais, vídeos, aplicativos e contato direto. Envolver lideranças comunitárias também pode ajudar a esclarecer dúvidas e fortalecer a confiança nas vacinas.

2 - Capacitar os profissionais de saúde: oferecer formação contínua para que médicos, enfermeiros e outros profissionais possam orientar a população e esclarecer dúvidas sobre vacinas, utilizando recursos como treinamentos, lembretes, aplicativos e simulações.

3 - Facilitar o acesso às vacinas: ampliar os horários dos postos de saúde, oferecer unidades móveis e levar a vacinação a escolas, empresas e centros comunitários, reduzindo dificuldades de deslocamento e outras barreiras à imunização.

4 - Combater a desinformação: ampliar a atuação dos órgãos oficiais nas redes sociais, divulgar informações confiáveis, checar conteúdos falsos e monitorar a circulação de notícias enganosas sobre vacinas.

5 - Criar estratégias específicas para gestantes: integrar a vacinação ao pré-natal, orientar sobre a segurança e os benefícios das vacinas para mãe e bebê e facilitar o acesso às doses, com ações educativas, mensagens de texto e vacinação em maternidades.

De acordo com Ana Paula da Costa Marques, professora de microbiologia do Instituto de Biociências da UFMS e primeira autora do artigo, é importante ressaltar que não existe uma solução única. "As evidências mostram que intervenções combinadas e multifacetadas funcionam melhor do que ações isoladas", afirma.

Desafios de aplicar as estratégias

Embora a pesquisa apresente caminhos para combater a hesitação vacinal, a análise tem limitações. O estudo foi direcionado à população adulta em áreas urbanas e às gestantes, deixando de fora populações rurais, ribeirinhas e indígenas. Para Ana Paula, isso reforça a necessidade de desenvolver ações adaptadas às diferentes realidades brasileiras.

"Uma estratégia que funciona em um cenário pode não funcionar em outro", destaca a pesquisadora.

Segundo Ana Paula, os principais obstáculos para colocar essas medidas em prática incluem a falta de infraestrutura, os custos de implementação, as dificuldades de acesso à tecnologia e a necessidade de adaptação às condições locais. O desafio é garantir que as iniciativas cheguem à população sem ampliar as desigualdades.

"Não adianta convencer alguém de que as vacinas são seguras se a pessoa não consegue chegar à unidade básica de saúde para ser vacinada", ressalta.

Vacinação é fundamental para evitar novos surtos

Manter a caderneta de vacinação atualizada é fundamental para evitar que doenças já controladas voltem a circular. O sarampo é um exemplo disso. Em 2019, o Brasil perdeu a certificação de eliminação da transmissão endêmica da doença, reconhecimento que só foi recuperado em novembro de 2024.

Apesar da conquista, novos casos continuam sendo registrados. Em 2026, até o momento, foram confirmadas 61 infecções. Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), não basta alcançar altas coberturas vacinais, é necessário que elas sejam homogêneas.

"De nada adianta o Estado, o País ou mesmo um grande município ter 90% ou 95% de cobertura vacinal se houver localidades com índices de 40%, 50% ou 60%. Esses bolsões de baixa cobertura funcionam como reservatórios de pessoas suscetíveis, favorecendo a ocorrência de casos de doenças", diz Kfouri.

Ele lembra que, quanto maior a parcela da população vacinada, menor o risco de que casos isolados deem origem a cadeias de transmissão, já que as pessoas imunizadas funcionam como uma barreira à propagação de vírus e outros agentes infecciosos, ajudando a evitar novos surtos.