Geral

O Brasil corre o risco de viver um regime de dinastia, diz deputada Elika Takimoto à Sputnik

Deputada eleita alerta para a falta de fiscalização entre os poderes se Flávio Bolsonaro for eleito presidente.

Sputnik Brasil 19/10/2026
O Brasil corre o risco de viver um regime de dinastia, diz deputada Elika Takimoto à Sputnik
Deputada Elika Takimoto destaca riscos à democracia em entrevista. - Foto: © Foto / Alerj

Em entrevista à Sputnik Brasil, Elika Takimoto (PT) alerta para o risco de todas as esferas de poder estarem dominadas por um único grupo político. Segundo a deputada eleita, caso Flávio Bolsonaro seja eleito, a fiscalização entre os poderes ficará ameaçada.

A cooptação do poder por um grupo político liderado por uma única família compromete a fiscalização necessária para o bom funcionamento do Estado e para a manutenção da democracia.

Elika Takimoto, deputada estadual eleita pelo Rio de Janeiro com 139.866 votos, ficou em sétimo entre os dez mais votados do estado. Ela destaca que a segurança pública é uma das prioridades, afetando outras áreas como educação, comércio e economia, desestimulando o investimento.

Para a parlamentar, o cenário atual do estado é "devastador", agravado pela predominância da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) sob um único grupo político, vinculado ao ex-governador Claudio Castro (PL) e ao governador eleito Douglas Ruas (PL).

Essa influência se estende a outras esferas, uma vez que esse mesmo grupo também conquistou maioria no Congresso e serve de base para o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).

"Vamos supor que Flávio Bolsonaro seja eleito o novo presidente. O Congresso estaria totalmente alinhado à base do governo. Como essa base poderá fiscalizar o trabalho do Executivo se está unida a ele? O mesmo se aplica no estado do Rio", pondera.

Elika enfatiza a importância de um governo ter um grupo de apoio, mas ressalta que também é necessário um equilíbrio de forças.

"Isso sinaliza uma situação delicada, pois quem deveria fiscalizar, está na base do governo. A fiscalização se torna muito difícil. É verdade que existem pessoas, como eu, que farão oposição, denúncias e tentarão avançar certas questões, mas isso é complicado, já que somos minoria."

A deputada acredita que os eventos das eleições recentes despertaram na população uma urgência para entender mais sobre política. Ela relata ter conversado frequentemente com cidadãos nas ruas sobre o perigo de se ter os Três Poderes "fechados" entre si, blindados da fiscalização necessária. Ela expressa preocupações sobre o cenário de uma vitória bolsonarista indicar uma espécie de dinastia.

"Estamos à beira de viver um regime de vontade de uma única família. Tudo que essa família deseja poderá ser aprovado no Congresso sem a devida fiscalização pelo Poder Judiciário. A situação se torna muito delicada, precisamos dialogar com a população e explicar o que está ocorrendo", destaca.

Elika afirma que essa ameaça à democracia ultrapassa questões de ideologia, sendo uma luta pela racionalidade e pelo diálogo em uma sociedade que pensa de forma crítica.

"Estamos em uma batalha contra a extrema-direita e um grupo político que, conforme investigações da Polícia Federal e prisões já efetuadas, mostra estreita ligação com o crime organizado, tanto no Rio de Janeiro quanto no Brasil."

Com mais de 30 anos de experiência como professora nas redes pública e privada, Elika aponta que atuar na educação sempre foi desafiador no Brasil, mas a situação piorou após 2014, com a ascensão do projeto ‘escola sem partido’, impulsionado por Flávio Bolsonaro, então deputado estadual.

"Embora não tenha avançado legalmente, este projeto criou um estigma no imaginário coletivo. O nome ‘escola sem partido’ é atrativo, mas sabemos que possui um lado muito bem definido", critica.

Elika compartilha que professores passaram a ser vistos como inimigos. Em uma ocasião, ao entrar numa sala de aula, percebeu uma aluna apontando o celular para ela como se fosse uma arma. Segundo a deputada, esse movimento começou a atingir disciplinas, inicialmente focando na história e se espalhando por outras matérias.

"Certa vez, em uma aula de física, ao explicar os argumentos de Galileu Galilei sobre o movimento da Terra, um aluno de 15 anos contradisse: 'Isso é apenas a opinião dele, não sou obrigado a concordar.'"

Além disso, Elika menciona uma mudança alarmante: a transformação de escolas estaduais em instituições cívico-militares.

"Você contrata militares, muitas vezes da reserva, para gerenciar uma escola estadual, sem que nunca tenham pisado em uma sala de aula. Isso é extremamente sério, pois educação não é brincadeira."

Por outro lado, a deputada vê no recente ressurgimento do movimento estudantil uma fonte de esperança por um futuro mais promissor, que poderá influenciar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sinalizando que jovens que antes eram indiferentes ou seduzidos pela extrema-direita agora defendem a democracia.

"O que mais me emociona neste segundo turno é o movimento estudantil. Quero homenagear todas as lideranças estudantis e movimentos que temos em todo o Brasil. Isso fará a diferença nas eleições", conclui a deputada.