Geral
Taxas de juros encerram semana em alta com aumento da incerteza sobre a disputa eleitoral
Cenário político gera oscilações nas taxas e ajusta expectativas do mercado.
Embora ainda não tenham devolvido totalmente o efeito do rali eleitoral, no qual os ativos domésticos reagiram fortemente à liderança de Flávio Bolsonaro sobre o presidente Lula no primeiro turno, os juros futuros tiveram mais um pregão de recomposição de prêmios nesta sexta-feira, 16. As taxas médias e longas apresentaram alta ao longo da tarde, sustentadas por resultados de novas pesquisas eleitorais que mantiveram a tendência de crescimento das intenções de voto em Lula, reforçando dúvidas sobre o cenário, considerado certo até pouco tempo atrás, de que haveria vitória da oposição.
Além da convicção menor sobre uma alternância de poder em 2027, o novo pacote de bondades anunciado pelo governo — que inclui a aprovação da redução da jornada de trabalho semanal, o perdão de dívidas e ajuda financeira a Microempreendedores Individuais (MEIs), além da promessa de Lula de gratuidade no transporte público aos finais de semana e feriados — também ampliaram a aversão de risco nos DIs. Para o mercado, esse conjunto de medidas é favorável ao petista, reduzindo as chances de um ajuste fiscal mais austero no próximo ano.
No cômputo semanal, marcado pelo ajuste das expectativas do mercado à luz de novas possibilidades eleitorais, a curva a termo também ganhou inclinação, com alta de cerca de 40 pontos-base no miolo e na ponta longa.
Ao final dos negócios nesta sexta-feira, 16, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 subiu de 12,884%, no ajuste da véspera, para 12,895%. O DI para janeiro de 2029 registrou alta para 12,685%, vindo de 12,634%, e o DI para janeiro de 2031 aumentou de 12,684% a 12,720%.
Os retornos dos Treasuries médios e longos também avançaram no dia, na esteira de dados que mostraram inflação mais persistente e sinais de resiliência da economia americana. No entanto, agentes avaliam que a abertura da curva local tem sido motivada essencialmente por fatores domésticos.
Segundo o economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, "o principal componente dessa movimentação é fiscal. O investidor está reavaliando as probabilidades dos diferentes cenários políticos e, principalmente, a capacidade do próximo governo de implementar medidas que estabilizem a dívida pública. As discussões recentes sobre novas despesas e mudanças na legislação trabalhista também contribuem para essa percepção de risco".
Até o segundo turno, Mendes acredita que os juros futuros devem continuar apresentando oscilações importantes. Em sua perspectiva, para uma queda mais consistente e sustentável da curva longa, será necessário que o resultado eleitoral venha acompanhado de sinais concretos de responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica.
Publicada na noite da última quinta, a pesquisa Datafolha revelou que a vantagem de Flávio sobre Lula caiu de 4 pontos porcentuais para 2 pontos em uma semana. Na edição atual, o senador possui 47% dos votos, contra 45% do incumbente, configurando empate técnico. Ao longo da semana, outros levantamentos seguiram a mesma direção.
A falta de clareza sobre o cenário eleitoral levou, inclusive, a uma mudança marginal nas apostas para as próximas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, observa a economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa. A curva, nesta sexta, aponta para dois cortes de 0,25 ponto porcentual na Selic nas reuniões de novembro e dezembro, mas prevê reduções menores na primeira metade de 2027.
Na última quarta-feira, a precificação indicava 80 pontos-base de corte no primeiro semestre, e nesta sexta passou a sugerir algo mais próximo de 56 pontos-base, ressalta a economista. "O movimento é reflexo das incertezas sobre o cenário eleitoral, no qual as pesquisas ratificam um placar muito apertado. No entanto, o movimento de hoje reflete um ajuste de posições após um fechamento importante observado nos últimos dias", afirmou Marianna.
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