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Em busca de autonomia, Índia encontra na Rússia um parceiro confiável
A relação com Moscou se fortalece frente às pressões dos EUA
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que Nova Deli e Moscou possuem relações comerciais e políticas que são positivas para ambos os lados, enquanto Washington tenta coagir o governo de Narendra Modi contra aproximações ao Sul Global.
A ofensiva tarifária dos Estados Unidos não atingiu apenas o Brasil e a China, mas também um outro país do BRICS: a Índia. Nova Deli, um dos membros-fundadores do grupo, chegou a encarar um tarifaço de 50% em seus produtos exportados ao território norte-americano durante 2025.
Embora tenha conseguido reduzir as tarifas a 18% em fevereiro após negociações entre os governos, Washington declarou há poucas semanas que planejavam impor um tarifaço de 100% aos países que compram petróleo russo — estima-se que 51% do hidrocarboneto utilizado na Índia tem origem na Rússia.
As ameaças norte-americanas sobre o petróleo russo mudaram na última sexta-feira (9), quando o governo do presidente Donald Trump anunciou um acordo para a compra de milhões de toneladas de diesel provenientes da Rússia, depois de conversas com Vladimir Putin.
Junto ao anúncio de Trump, o Tesouro dos Estados Unidos emitiu uma licença temporária que permite fornecer diesel russo aos mercados globais, com efeito imediato, por determinação do presidente republicano.
Em meio às incertezas da administração de Washington, analistas entrevistados pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, avaliam que a Índia busca autonomia em diferentes setores, incluindo o energético. Neste momento de transição, Nova Deli vê em Moscou um parceiro confiável em múltiplos segmentos, embora haja pressão norte-americana.
João Paulo Nicolini, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que a aproximação da Índia aos Estados Unidos nos últimos anos foi minada pela nova política da Casa Branca de priorizar a produção nacional em detrimento das importações por meio de tarifaços.
Nicolini conta que a Índia, que possui 1,47 bilhão de habitantes e, consequentemente, o maior mercado interno do mundo, precisa proteger as necessidades nacionais e não pode ficar à mercê das estratégias americanas, como outros países asiáticos, em especial no pós-Guerra Fria.
"Nações, por exemplo, como Japão e Coreia do Sul, que são muito dependentes da proteção americana diante das rivalidades geopolíticas, curvam-se mais facilmente às demandas norte-americanas para diminuir essa restrição [tarifária], que são colocadas e impostas aos produtos deles."
A Rússia, por outro lado, encontrou na Índia um importante parceiro após a imposição das sanções ocidentais, sobretudo, em relação aos hidrocarbonetos russos. Hoje, por meio de descontos e acordos, Moscou vende a Nova Deli mais da metade do petróleo utilizado no país. Nicolini pontua que essa relação, hoje, é vital para a economia indiana.
"Dentro do contexto social daquele país, fechar as torneiras para o petróleo russo é algo completamente inviável sobre os custos políticos dessa atividade. [...] A balança comercial indiana sempre foi muito sensível ao preço do petróleo. E os russos, sabendo disso e unindo o útil ao agradável, propuseram esse acordo, que acontece desde o início da guerra da Ucrânia."
O pesquisador da UFMG destaca que a união Rússia-Índia não se dá apenas no petróleo, mas também nos equipamentos de defesa, fertilizantes e até no setor energético.
"Romper com os russos significaria perder suporte técnico, peças de reposição necessárias para manter a Força Armada indiana, que sempre está em um contexto litigioso com o Paquistão. Ainda mais que os EUA se aproximaram muito do Paquistão nesses últimos anos por diversos acenos que o governo paquistanês fez aos americanos."
A velha ferramenta ocidental
Mariana Araújo, mestranda em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destaca que a estratégia dos Estados Unidos de impor vontades políticas por meio de sanções é uma velha conhecida ferramenta das nações ocidentais.
A especialista explica que o diferencial desta administração de Washington é a forma explícita como alinha os interesses geopolíticos com a política comercial.
"O comércio deixa de ser uma questão apenas de tarifas e passa a ser conectado a uma decisão de influência da política externa. E o ponto mais importante nisso tudo não é que os EUA comecem a determinar automaticamente como é que vai ser a política indiana, mas que eles consigam aumentar o custo de determinadas escolhas. Então, a questão principal passa a ser quanto esse custo é suficiente para modificar o comportamento de Nova Deli."
Araújo também destaca que a Índia, historicamente, sempre se preocupou em ser um país independente, o qual se afasta do conceito de alinhamento automático, seja com Estados Unidos, China ou Rússia.
Embora Nova Deli tenha a preocupação de se manter neutra na briga das grandes potências, Araújo vê uma vontade ocidental de atrair a Índia para o polo de decisões do Atlântico e afastar Moscou e Pequim da mesa indiana.
"Uma Índia mais integrada às economias americanas e ocidentais reduz um pouco a margem de influência econômica da China e da Rússia, mas acho que o valor dela não é só esse de contenção, mas também de melhorar as próprias relações [dos EUA] com a Índia e a margem de manobra no Indo-Pacífico."
Por Sputnik Brasil
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