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Ingerência explícita dos EUA no Brasil reflete a erosão do poderio de Washington, apontam analistas
Interferência externa em eleições brasileiras é analisada por especialistas.
Em entrevista à Sputnik Brasil, cientistas políticos apontam que a interferência externa sempre foi uma política de Estado norte-americana, respaldada pela elite e pelos militares brasileiros, que na gestão Trump foi agravada como reflexo de uma crise da qual "os EUA vão sair muito menores".
As tentativas de interferência dos EUA nas eleições do Brasil se tornaram um tema central para o governo brasileiro e foram apontadas por congressistas norte-americanos em carta enviada ao secretário de Estado, Marco Rubio.
Washington tem um histórico de intervenções políticas em países sul-americanos, praticadas tanto por governos democratas quanto republicanos. Exemplos recentes supostamente ocorreram em 2022, quando o governo Joe Biden teria tentado interferir no pleito brasileiro em favor da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
O caso foi exposto em 2025, por Mike Benz, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, que, em audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados, afirmou que os EUA financiaram ONGs americanas para operações no Brasil que tinham como objetivo enfraquecer o governo de Jair Bolsonaro. Segundo ele, somente a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) recebeu US$ 90 milhões (cerca de R$ 407,7 milhões).
Na administração do presidente Donald Trump, a busca por consolidar a América Latina como área de influência norte-americana levou Washington a se alinhar à campanha de Flávio Bolsonaro, que já prometeu que, se eleito, colocaria sua equipe de transição à disposição dos EUA.
À Sputnik Brasil, o cientista político Afonso de Albuquerque, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT DSI), da universidade, avalia que a política de interferência dos EUA na América Latina se apresenta desde 1823, quando foi instituída a Doutrina Monroe, criada para impedir a Europa de criar novas colônias ou de influenciar países da região.
"Mas, na prática, os Estados Unidos interviram em muitos países, principalmente da América Central", aponta Albuquerque.
Posteriormente, a vitória dos EUA na Guerra Hispano-Americana (1898) levou a Espanha a ceder para o país as colônias de Cuba, Porto Rico e Guam, além de vender as Filipinas por US$ 20 milhões (cerca de R$ 104,2 milhões). O episódio marcou o início da hegemonia dos EUA no mundo, consolidada no pós-Primeira Guerra Mundial.
Albuquerque destaca que essa ingerência dos EUA na região permaneceu, na maior parte das vezes, pouco visível nas décadas que se seguiram no pós-Segunda Guerra.
"Os Estados Unidos usaram muito suas universidades, usaram muito fundações, iniciativas frequentemente articuladas entre setores de inteligência, para intervir em assuntos de outros países. A ideia era formar as elites de outros países para produzir esse efeito."
Essa política avançou, com a construção do Fundo Nacional para a Democracia (NED, na sigla em inglês), fundação criada na década de 1980, na gestão de Ronald Reagan. Segundo Albuquerque, a iniciativa tinha o pretexto de promover e fortalecer instituições democráticas ao redor do mundo, mas na prática foi uma forma de os EUA reivindicarem para si o papel de "guia moral da humanidade".
"Aí temos uma série de intervenções em outros países, a Guerra da Iugoslávia, a Guerra do Golfo, a operação no Afeganistão, e mais operações em toda parte do mundo", destaca Albuquerque.
No recorte do Brasil, ele aponta que a intervenção dos EUA se consolidou a partir da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, com tropas subordinadas a Washington atuando no front na Itália. Posteriormente, com a globalização neoliberal liderada pelos EUA, em busca de se fortalecerem como superpotência global, Washington buscou eliminar qualquer concorrência, tendo entre os alvos o Brasil.
"O Brasil é um alvo tão permanente porque é o segundo país mais poderoso das Américas, em termos de população, de economia, de várias maneiras. As operações Mensalão e Lava Jato são interferência dos Estados Unidos."
Ele acrescenta que a Lava Jato se iniciou no Departamento dos EUA e se transformou em operação de combate à corrupção no Brasil, com o objetivo de "tirar a Petrobras do jogo" e eliminar o poder que a empresa dava ao Brasil naquele momento.
Albuquerque faz uma distinção entre a política de intervenção de Estado e de governo dos EUA. Segundo ele, no caso da gestão Trump, a intervenção ocorre como política de governo.
"O Trump dá nome para as coisas mundo afora, golfo Pérsico vira 'golfo Trump', há uma política personalista nos Estados Unidos hoje em dia que se opõe à lógica da intervenção política de Estado. A política de governo, no caso do Trump, ganha peso em relação à política de Estado porque o Estado dos Estados Unidos está vivendo uma crise bem grande."
Ele avalia que a agressiva Doutrina Donroe de Trump é reflexo dessa crise excepcional, da qual os Estados Unidos "vão sair muito menores do que são hoje", e observa que Washington conquistou algumas vitórias estratégicas no continente americano, como a guinada dos países da região à chamada extrema-direita.
No entanto, ele diz que as intervenções do governo Trump também alimentam a oposição aos Estados Unidos, o que acaba dilapidando o poder de longo prazo de Washington de interferir em outros países.
"Trump, pelo seu estilo personalista abusivo, está dilapidando o capital de respeitabilidade que os Estados Unidos tinham, não porque fossem respeitosos, mas o capital de respeitabilidade permitia os Estados Unidos agirem de maneira não respeitosa e ainda assim serem vistos como um agente ordenador do mundo. Nesse momento, os Estados Unidos atuam como um agente caótico", afirma.
Albuquerque afirma que um ponto positivo na busca do Brasil por se blindar das investidas norte-americanas é o fato de a soberania ter entrado no debate público e ter também ocasionado um princípio de mudança na visão dos militares.
"Os militares brasileiros começaram a ser atraídos para esse discurso da soberania, porque percebem na interferência estadunidense uma ameaça à indústria bélica nacional."
Mateus Mendes, doutor em economia política internacional e mestre em ciência política, considera que há um conjunto de fatores que torna a América Latina suscetível à interferência dos EUA.
Autor de "Guerra híbrida e neogolpismo: geopolítica e luta de classes no Brasil (2013-2018)" e "É a ideologia, estúpido! (2024)", ele aponta que, além do poder econômico, militar e da proximidade geográfica, as elites da região, mesmo aquelas que se apresentam como nacionalistas, majoritariamente mimetizam os Estados Unidos, enquanto as correntes contra-hegemônicas dessa camada que se inspiram em Rússia e China ainda são muito pequenas. Isso inclui as elites militares, que são muito próximas ao Pentágono.
"É até curioso, porque se tem uma coisa que os militares tinham que prestar atenção era quem seria o potencial inimigo. E claramente o principal potencial inimigo de qualquer um desses países [latino-americanos] são os Estados Unidos. E isso nunca impediu que a elite militar estadunidense tivesse uma ascendência, até mesmo intelectual, sobre esses militares", observa.
Mendes avalia que o lançamento da Doutrina Donroe faz parte da postura "histriônica" de Trump, mas aponta que o intervencionismo sempre norteou, em algum grau, a política externa dos EUA, tanto em governos republicanos quanto democratas.
"A gente vê, por exemplo, que a revolução colorida aqui no Brasil, as manifestações de 2013, tiveram forte relação com os democratas. [...] A questão é que o Trump elevou isso a um outro patamar."
Ele destaca que essa tendência reflete não apenas a forma de governar de Trump, mas um contexto global no qual os EUA também estão inseridos.
"Se, por exemplo, o Marco Rubio for eleito presidente, sucessor do Trump, a gente vai ter isso de forma mais evidente. Será que no possível governo dele a gente tem um corolário Rubio? Certamente", avalia.
E no Brasil, sublinha Mendes, a ingerência dos EUA encontra eco especificamente no bolsonarismo, que se coloca "totalmente submisso aos Estados Unidos".
"A capacidade de intervir dos Estados Unidos se dá justamente em função de que eles têm uma contraparte aqui dentro disposta a fazer o que eles querem."
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